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A Pax Americana: o império sem máscara

A Pax Americana: o império sem máscara

11/01/2026 09h24
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A Pax Americana: o império sem máscara

“Vamos recuperar nosso quintal”

Peter Hegseth, Secretário de Guerra dos EUA

Há escassa novidade por trás dos fatos: raramente o processohistórico se manifesta de forma tão coerente, clara e reveladora como nosúltimos eventos que se abateram, se abatem e por muito tempo ainda se abaterãosobre a Venezuela e a América do Sul (passando pelo Brasil, ninguém se iluda),prolongando a tragédia do país vizinho, levado à miséria por ser naturalmenterico.

País soberano — ao menos no formalismo arcaico do direitointernacional, sem forças de efetividade, portanto inútil, como é hoje a ONU,reduzida a mero fórum de debates sem consequência —, a República Bolivariana daVenezuela caminha de volta ao quadro colonial dos maus tempos espanhóis. Paga apena de abrigar o maior estoque de reservas de petróleo bruto do mundo, nadamenos que 303 bilhões de barris (cerca de 1/5 das reservas mundiais), superandoArábia Saudita e Irã. E superando, de longe, os EUA (detentores de algo entre45 e 55 bilhões de barris), o que começa a explicar muita coisa.

Seu destino imediato, anunciado pelos invasores, porém, é ode um protetorado a caminho da recolonização. Mais precisamente, um novo PortoRico: território “assumido”, mas não incorporado ao mapa dos EUA; carente desoberania de qualquer ordem, inclusive autogovernativa, algo como uma “colôniamoderna” — vá lá o anacronismo. Assemelha-se a Guam, Samoa Americana ou IlhasVirgens. Ou à Guiana Francesa.

Os atuais dirigentes da Venezuela, consentidos, à frente anova presidente, Delcy Rodríguez (anunciada como interina), apenas permanecerãoem suas funções enquanto Caracas cumprir as exigências apresentadas pela CasaBranca. Sabe-se que delas constam cessar o apoio a Cuba, expulsar de seuterritório os iranianos e outros atores indesejáveis aos EUA, fechar oabastecimento de petróleo para adversários de Washington e abrir o mercado depetróleo às empresas estadunidenses. Tudo já em marcha batida.

Com efeito, lê-se na primeira página de O Globo do último08/01: “EUA tomam controle do petróleo e obrigam a Venezuela a importarprodutos americanos. Governo Trump anuncia que vai gerir recursos obtidos pelavenda do óleo e divulga plano que culmina com transição de poder no país”.

Ao largo, o bloqueio aéreo-naval, já de meses, a piratariados marines e as sabotagens da CIA e dos inumeráveis “serviços deinteligência”, refazendo o papel de rapina dos galeões ingleses, onde ahistória norte-americana toma o fio. Nada, porém, que não seja velha crônicacontada e sabida. Há uma novidade a registar, embora sua fonte remonte aTheodore Roosevelt: a absoluta falta de disfarce ou escrúpulos da fala. Nestagestão republicana o discurso rompe com a dubiedade e mesmo com a hipocrisiaque sempre marcou os governos do Partido Democrata (vide o histórico de Obama),e também se fez presente nas administrações republicanas. Com Trump, apreservação do império torna-se o único objetivo a ser perseguido, e o paísentra em rota de colisão com tudo que possa ser identificado como progresso: éa vigência do que Marina Basso Lacerda denomina “paleoconservadorismo”. Talvez,ainda, uma alteração de postura: a quase sobriedade de Biden é travestida nodelírio narcísico de Trump. No plano do simbólico cabe o registro de uma trocade nomes: o Departamento de Defesa foi rebatizado para Departamento de Guerra,aproximando a semântica da política real do Império.

Mas, ao fim e ao cabo, nada de substancial.

Essa nova ordem imposta de fora para dentro não deve serreduzida a ameaça cingida à nossa companheira de fronteira; certamentecontaminará o subcontinente, abater-se-á sobre um ou outro país. Poderá chegaraté nós. Em qual feição?

Teremos, então, como responder?

O ponto de partida analítico descarta, na invasão americanae em seus desdobramentos presentes e previsíveis, qualquer sugestão de fatoinusitado, solto no ar e no tempo, gratuito, sem história e, nesses termos,justificador de surpresas.

Uma vez mais, “nada de novo no front ocidental”, porque nãohá nada de insuspeitado na invasão do território venezuelano, na destruição desua soberania, há tanto tempo com os dias contados, nem no sequestro de Maduro(sequestro que o representante do Brasil na OEA fez bem em chamar pelo nome,recusando a farsa da “captura”, imposta pela grande imprensa, e que nossogoverno assimilou em seus primeiros pronunciamentos oficiais), nem muito menosna pirataria de seus recursos.

Sem qualquer comparação com o presidente deposto esequestrado — cujo desastre rotundo não é o centro da questão, mas pretexto —,relembremos, como fato político, o sequestro e assassinato do congolês PatriceLumumba, entre outros mártires do anticolonialismo; a deposição do presidenteJuan Bosch, da República Dominicana (1965), desta feita com a inominávelparticipação das forças armadas brasileiras, então como sempre irmanadas com adoutrina que emana do Pentágono e é reproduzida na ESG e nos quartéis — e que,nada obstante o desencontro com a realidade e os interesses do país, ainda faz“os corações e mentes” dos fardados: autoritarismo no plano interno,subserviência nas relações com os EUA.

De uma forma ou de outra, a sobrevivência do letal “complexode vira-lata”, um de nossos muitos “males de origem”, para lembrar a expressãode Manoel Bomfim.

Afinal, o que nos pode surpreender? E por que a redução doscrimes de hoje dos EUA à responsabilidade de personagem que apenas sediferencia de seus antecessores pelo boquirrotismo e a extravagância dos gestose das grosserias? Trump, como seus antecessores, foi construído pelo processohistórico da formação nacional estadunidense; como eles, reflete — eiscertamente a questão central — o que se pode chamar de “a alma americana”. Nãohá loucura, mas muito cálculo.

Insisto neste ponto: o detestável Trump não é um ponto forada curva na história da Casa Branca, não é um doidivanas; está a serviço doestablishment, justamente assustado com a crise do capitalismo, as ameaças dodesenvolvimento chinês e sua expansão pelos mercados de todo o mundo, expansãoque perigosamente chega à América Latina e à América do Sul, o “quintal” dogrande império do Norte, sua área de “segurança estratégica”.

Como cenário principal, base das guerras comerciais queantecipam conflitos bélicos — muitos já em curso e ocupando todos oscontinentes —, o espectro da renovada disputa pela hegemonia mundial, ganha daURSS na Guerra Fria e agora ameaçada pela emergência mundial da China-Eurásia.É isto, é tudo isto, mas é também mais do que isto, porque é, essencialmente, aprojeção da sociedade americana e de sua alma yankee.

A política da Casa Branca é velha como a Sé de Braga; o queressalta é sua aplicação sem intermitências, coerente e retilínea. E sempreimplacável. Vem de tempos anteriores. O “MAGA” é um pastiche declarado daDoutrina Monroe (1823) — “a América para os americanos”, ou seja, em termos nãocínicos, “a América para os EUA”. Bate os coturnos no big stick do CorolárioRoosevelt (1904), mas os fatos a tudo isso se antecedem.

A história do México tem muito a ensinar, muito a prevenir.Os Estados Unidos Mexicanos de hoje, fraturados e fatiados, conheceram noséculo XIX o peso insustentável da fome insaciável do vizinho. Em 1846, os EUAlhe declaram guerra e, em 1848, se proclamam senhores de nada menos que 55% deseu território. E agora, em 2025, ameaçam até o ainda Golfo do México.

A lista das agressões na América Latina é extensa e nãoparece ter fim: Cuba — ocupação militar após 1898, ocupação da Baía deGuantánamo (base naval desde 1898), mais ocupações posteriores, mais ameaças deinvasões, mais bloqueio econômico, político, financeiro, militar e sanitário, etudo o que for possível para maltratar o povo da ilha, punindo-o por seu desejode autonomia. Porto Rico — incorporado aos EUA ao fim da GuerraHispano-Americana (1898). Panamá (1903), ocupação do Canal. Intervenções diretasno Haiti (1915–1934), na Nicarágua (1909–1933), na Guatemala (1954), naRepública Dominicana (1916–1924 e 1965), em Granada (1983) e no Panamá (1989).

O relato ficaria tedioso se ainda fosse necessário lembraras sabotagens aos governos democráticos da região. Talvez nos baste recordar ogolpe contra Allende (1973) e a deposição de João Goulart e, como seudesdobramento, a instauração da ditadura militar, sob os auspícios doDepartamento de Estado, com suas belonaves costeando nosso litoral.

A imprensa internacional já fala em “Corolário Trump”. Ora,esse “corolário” não existe, porque a política intervencionista dos EUA estásempre in progress. Como esquecer o “corolário” de Truman e suas bombasnucleares sobre as populações civis de Hiroshima e Nagasaki? E a Coreia? E oVietnã? A história de hoje remonta a tudo isso, mas remonta, como reflexo daimagem no espelho, à própria história do país: a formação de seu povo, aemergência da nação, o processo de independência e a construção do império depretensões romanas, em nome da “liberdade dos povos” é o “destino manifesto”,autoproclamação de um dever civilizatório, a missão de impor seus valores —eufemismo para interesses objetivos —, como as Cruzadas impunham a fé: a ferroe fogo, porque era preciso punir os ímpios para poder salvá-los.

Trump não é um acaso, mas ator de um script que não lhe foidado escrever, embora desempenhe o papel que lhe foi confiado pelascircunstâncias com a eficiência do canastrão, como o fez Ronald Reagan, uma desuas inspirações. O magnata, em cuja campanha eleitoral anunciou sem rebuços oque seria — e está sendo — seu governo, representa os interesses doestablishment, o que não é pouco, mas representa ainda muito mais do que isso.Sua eleição deve ser encarada como um referendo ao discurso do candidato. O silênciodo Congresso, o silêncio da universidade, da chamada “sociedade organizada”, édenotativo. Trump, como seus antecessores do pós-Segunda Guerra Mundial — deTruman a Biden —, é servidor dos interesses do imperialismo, abalado com acrise do capitalismo e assustado com as ameaças que chegam do extraordináriodesenvolvimento tecnológico e econômico da China e da mundialização de seucomércio e de seus interesses. Que chegam, inclusive, ao Brasil.

A Venezuela logo será uma etapa vencida dessa nova fase,mais agressiva, do imperialismo. A América do Sul está — militar epoliticamente — sob um cerco que lembra o garrote vil: Venezuela, Peru,Equador, Bolívia, Chile, Paraguai (candidato a base militar) e a Argentina, querelembra os tempos sórdidos das “relações carnais” com o imperialismo,apregoadas pelo peronista Carlos Menem (1989–1999).

Resistem as quase social-democracias do Uruguai, da Colômbia(ao menos até junho) e o Brasil, para quem as eleições deste ano são uma graveincógnita. Em meio ao controle do “quintal”, o alvo que exige maior atenção doimperialismo é, evidentemente, nosso país. Por tudo o que é óbvio: seuterritório, sua população, seus recursos naturais, as extensas fronteiras comdez países, o largo litoral atlântico abrindo rota para o Pacífico na direçãodo Oriente. E, nada obstante as dificuldades presentes no governo Lula, suainfluência econômica e política na região.

Devemos contar com duas alternativas. A primeira, aintervenção político-eleitoral-diplomática-econômica (no esteio do predomínioideológico), esta que já produziu efeitos significativos na região e que estãoà vista. Fracassada, não nos iludamos quanto ao que pode se abater sobre umpaís pobre de lideranças populares e nacionalistas, sem serviço de inteligênciaminimamente equipado nem forças armadas dignas de confiança — desaparelhadaspara a defesa nacional e ideologicamente dependentes do catecismo do Departamentode Estado. Em suma, sem qualquer poder de dissuasão diante de eventuais ameaçasde ataque. Assim como se revelou a Venezuela.

Neste quadro aziago, é urgentíssimo que a geopolítica e, emespecial, os temas de segurança e defesa, tradicionalmente ignorados em nossocampo, entrem na ordem do dia dos debates à esquerda: não podemos seguiracreditando que vivemos numa ilha isolada do mundo – um mundo, em todo caso,benévolo e amistoso, que nunca irá bulir conosco. Sonhos de Cândido, exemplarpersonagem de Voltaire.

A violência contra a Venezuela  deve ser visa como demonstração espantosa,desabrida, bárbara do poder do Império, que manda claro recado à AméricaLatina. E a quem mais, tendo juízo, quiser ouvir.

Soberania não é um sentimento, uma vontade, uma aspiração.Não é discurso, nem se estabelece em tratados. Ela se sustenta numa ordemobjetiva: sua capacidade de defesa. E se não refletirmos sobre segurança edefesa, outros o farão.

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Barbas de molho – Ontem (08/01), na cerimônia que lembrou ostrês anos da intentona bolsonarista que buscou derrubar à força o governoempossado, assassinando o presidente da república e seu vice, além do chefe doSTF, o presidente Lula anunciou o veto integral ao infame “PL da Dosimetria”,que o Congresso se prestou a aprovar para salvar os golpistas. E alertou: ademocracia não é uma conquista inabalável.

Integração à vista – Nesta quinta-feira (09/01), uma maioriaqualificada de países da União Europeia aprovou, enfim (passado um quarto deséculo), o acordo de livre comércio UE-Mercosul. Será um sinal de que o VelhoMundo começa a perceber que os EUA já não premiam a subserviência como antes?

 Por: Roberto Amaral.

*Com a colaboração de Pedro Amaral.

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