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A política externa do império: projeção e produto de sua história

A política externa do império: projeção e produto de sua história

18/01/2026 06h14 Atualizada há 7 meses atrás
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A política externa do império: projeção e produto de sua história

Nada do que estamos assistindo é estranho à história daformação da sociedade estadunidense, marcada pela violência da colonização, queé a semente de suas relações com o mundo, dos tempos ingleses e espanhóis dosprimeiros aventureiros até aqui: animus de beligerância à beira da barbárie semdescanso, que, aos olhos da humanidade de hoje, apenas se aprofunda,pragmaticamente desapartada de limites éticos ou de cuidados semânticos,aposentado o vencido cinismo liberal do discurso “politicamente correto”.

O big stick permanece a postos; variável é tão-só a fala.

O direito das gentes é a força que se faz valer e respeitar,como antes se faziam respeitar as legiões romanas, como hoje os marines (com oarsenal atômico de Washington em seus espadares) ditam a “nova ordem mundial”.Tragédia ou farsa, a “Conquista do Oeste” é a conquista do mundo, uma saga quecomeçou quando os primeiros hominídeos desceram das árvores.

O far west não é um momento passado, vencido ou superado. Éuma política vigente.

A violência, insisto – porque está no eixo explicador dahistória presente – é o traço formador da alma dos EUA: a ocupação do vastoterritório; a conquista do Oeste; a deliberada destruição das civilizaçõesnativas; a escravidão luciferina; o racismo levado ao paroxismo; o macarthismono século XX; e, em pleno século XXI, a violência contra imigrantes em paísconstruído por imigrantes, e a sobrevivência da inominável Ku Klux Klan. Asmuitas guerras, nenhuma em defesa de seu território (jamais ameaçado); todaselas guerras de agressão, quase todas guerras de conquista territorial, de queé exemplar a guerra contra o México (1848) e a usurpação de nada menos do que55% de seu território original.

Não há, pois, por que cuidar do trumpismo — ainda que suaviolência espante até os súditos mais fiéis — como um fenômeno próprio. Jamais um surto pananoide.

Como dizia Ernest Renan, “a nação é uma alma, um princípioespiritual”. A “alma estadunidense” é filha e mãe de sua história.

E nada mais estadunidense do que a índole do imperialismo —desnaturado ainda pela explosão do capitalismo monopolista, desnaturado pornecessidade de expansão sem freios. O capitalismo é um Leviatã que não podeparar de crescer, de expandir-se; romper limites é o determinismo de suapantagruélica fome cosmológica.

Lênin, escrevendo em 1916 ("Imperialismo: fase superiordo capitalismo"), ditava que “o imperialismo é o capitalismo em sua fasesuperior, caracterizado pela dominação dos monopólios e do capital financeiro,pela exportação de capitais, pela partilha do mundo entre os grandes trustesinternacionais e pela conclusão da partilha territorial do globo entre asgrandes potências capitalistas”. Não foi lido pelos estrategistas brasileiros.Épena, pois ainda é preciso dizer-se que imperialismo não é apenas políticaexterna, mas uma estrutura histórica do capitalismo, resultante da fusão entrecapital bancário e industrial e da necessidade sistêmica de expansão, a que,antes, se referiu Marx: o capitalismo depende de sua expansão, e esta expansãodepende da conquista permanente de mercados, da conquista de territórios e deriquezas, de matérias-primas e insumos e, sempre  de mercado consumidor.

Para tudo isso, vale-se ainda da conquista ideológica dodomínio da narrativa que construirá o real.

O imperialismo norte-americano, este de que cuidamos, começaa tomar o corpo contemporâneo no encontro da explosão de seu altodesenvolvimento capitalista com a decadência da Europa, despreparada para o fimda exploração colonial (a irremovível decadência cíclica dos impérios).

A autodepredação da I Guerra Mundial semeia o terreno para aemergência de fenômenos siameses: a crise econômica continental; a recuperaçãoeconômico-militar da Alemanha; o nazifascismo; o Eixo; a guerra; e, com aguerra, a segunda morte da Europa. Os vitoriosos, antípodas, são os EUA e aURSS, que, aos trancos e barrancos, arregaçam as mangas para construir o “novo”mundo em disputa, ora fatiado, ora ceifado ao meio expondo os espaços nos quaisas potências nucleares vão exercer, sem peias, seu domínio.

Eram os tempos da polaridade militar-ideológica entrecapitalismo e socialismo. Cada um cuida do seu quinhão, de sua área deinfluência. Sabe-se como tudo terminou.

Os EUA, os grandes vitoriosos — campeões em todas asfrentes: militar, econômica e político-ideológica —, são o novo regente, guia etutor do Ocidente. Cuidam de arrumar a casa... para si (arrumar a casa éreorganizar o mundo segundo seus interesses como líderes planetários).

Na Conferência de Bretton Woods (1944, portanto antes darendição da Alemanha e das bombas atômicas sobre o Japão, em 1945), reuniramdelegados de 44 países aliados para definir o novo sistema monetário efinanceiro. Estabeleceu-se uma nova ordem monetária internacional, tornando odólar a moeda central da economia global, moeda de referência internacional,que os EUA poderiam emitir, e podem até hoje, e emitem livremente, seguindoapenas como parâmetro interesses políticos, econômicos ou estratégico-militares.

Para seu suporte e intervencionismos sem conta, são criadasinstituições de atuação global como o BIRD, o FMI e o Banco Mundial e, em 1947,o GATT (semente da hoje escanteada OMC). Passados 82 anos da histórica cúpulacapitalista num bucólico vilarejo nas montanhas de New Hampshire, esta é aindaa base estrutural-financeira da hegemonia do imperialismo, a base material doque se chamou de “século americano”, que igualmente se aplica às primeirasdécadas deste indócil século XXI.

Permanecem globais e onipotentes as instituições inventadaspara controlar e estabilizar o sistema financeiro, que, controlando os grandescapitais, os grandes investimentos e os grandes fluxos, transformam-se tambémem instrumentos de reprodução da dependência.

Mesmo perdendo força (coisa que os senhores da guerra nãoignoram), o dólar segue como principal moeda de reserva, e os EUA conservam opoder de financiar seus déficits em sua própria moeda. Caso único.

Seguiram-se os muitos anos de disputa entre o impérioamericano e a URSS de então, emergente e vitoriosa, inclusive militarmente. Nocontrapelo surge a “Cortina de Ferro”; são os ventos da Guerra Fria, timbradostambém pelos frustrados esforços soviéticos tanto de concorrência quanto de“convivência pacífica”, afinal sepultados com o fracasso da Perestroika.

A polaridade Ocidente-Oriente, EUA-URSS,capitalismo-socialismo dissolve-se como neve no verão com a simbologia da quedado Muro de Berlim (1989), mensageiro da falência militar, política, econômica eideológica do projeto soviético, esgotamento político que traria consigo afrustração da experiência socialista, que à humanidade não foi dado conhecer.

A polaridade é substituída pela hegemonia do capitalismomonopolista, esta de hoje, determinante do caráter do imperialismo dos EUA, sualocomotiva, seu aríete, seu beneficiário.

Entra em cena um terceiro personagem.

A China é ator que construiu quase monopólios em terrasraras: segundo dados disponíveis, detém 25 mil patentes sobre esses elementos;garantiu acesso preferencial a minerais na África e na América Latina;articulou financiamento, infraestrutura e suprimento via a Nova Rota da Seda.Mas não só. Avançou extraordinariamente em educação, ciência, tecnologia einovação, e hoje é a segunda potência econômica do globo, vis-à-vis a economiados EUA, da qual se aproxima. Por força desse desenvolvimento, tornou-se a“fábrica do mundo”.

Este é seu poder, mas pode ser, igualmente, seu calcanhar deAquiles: seus produtos precisam ser vendidos (transformados em receita,divisas), o que depende de mercados. Estudos desenvolvidos nos EUA indicam aconcorrência econômica e tecnológica com a China, apontando a superação dos EUAem algo como vinte anos.

Esta prospecção não está, como não poderia estar, ausentedos gabinetes civis e militares de estudos estratégicos em todo o mundo. Opoderio militar dos EUA continua de pé, e é nele que os avanços da política seassentam.

Mas o poderio econômico dos EUA — nada obstante a evidênciade serem ainda hoje a maior potência do mundo — dá sinais, senão deesgotamento, de cansaço, sugerindo a impossibilidade de manter a liderançamundial frente ao avanço chinês, que, até aqui, parece não conhecer tropeços. Opalpável é que a China prossiga no desenvolvimento, proteção e sustentação desua malha comercial mundial, que inclui a Rota da Seda e seus investimentos detoda ordem, mas inclui igualmente o mercado norte-americano. Como inclui omercado europeu e o latino-americano. Não estamos fora disso.

A tradição milenar do Império do Meio ensinou-lhe aconsciência da grandeza territorial e o isolamento (o auto bastar-se), quetambém o apartou da necessidade de expansionismo. Isto está presente nageopolítica de hoje, mesmo considerando a política de hostilidade dos EUA. Seucinturão de segurança não é o mundo, mas seu entorno, nomeadamente Taiwan e oMar do Japão.

A recuperação da antiga Formosa, província desgarrada porChiang Kai-Shek, em sua  fuga ao perder oconfronto com as tropas de Mao Zedong, pode ser transformada, porém, em necessidade de guerra e, ao lado detudo isso e por tudo isso, em necessidade de consolidação estratégica,industrial e de segurança, em face de seu alto desenvolvimento tecnológico,nomeadamente em chips.

Afora esse nível de contingência, a China não se deslocaráda China.

A Rússia, sem dúvida o segundo arsenal atômico do mundo, nãotem por que pensar nas dores do mundo: cuida de sua soberania, e sua prioridadeóbvia é a guerra contra a Ucrânia e o enfrentamento às ameaças da OTAN, quevisa à sua sufocação. São óbvias suas prioridades, e é óbvia a necessidade demanter o canal de interlocução com os EUA, onde, por sem dúvida, se negociaminteresses. A China, porém, com seu comércio mundializado, e assim muitoquedada na dependência do desdobrar da política americana — aquela que sediscute entre o Departamento de Estado e o Pentágono -- ,  pode ser levada a rever sua estratégiamilitar, hoje defensiva.

À ausência de contendores de seu peso, os EUA permanecerãono centro da arena como digladiador, a um tempo único e imbatível.

A história caminha suas pegadas. Sustentado pela maispoderosa máquina militar jamais conhecida pela humanidade, e tanto onipresenteno mundo de hoje quanto as legiões romanas no pequeno mundo daquele então,permanentemente em busca da conquista de mais espaços de presença, como desempre na Europa, com a ocidentalização e a otanização das antigas repúblicassoviéticas; no Oriente, como na Síria, como na Líbia, como no Irã, como naPalestina; como na Groenlândia; como na América Latina, o grande “quintal” aser preservado. Nele, talvez constituindo sua porção mais estratégica, entre oCaribe, a Amazônia e os Pampas, entre o Pacífico e um Atlântico vastíssimo, arota livre do Ocidente. E sobre as riquezas naturais do subcontinente, que nãose esgotam no petróleo confiscado da Venezuela.

O mundo, visto de hoje, é a “América” dos EUA. Mas ahistória não é um fato dado,completo, morno, acabado;  nos seus alicerces, quase sempre muitoprofundos, o processo social é senhor de baraço e cutelo, sempre protegido denossas especulações, porque os cientistas políticos carecem de instrumentosobjetivos de captação do fato antes que ele salte à realidade.

A crônica conta o diálogo entre dois sábios: Magalhães Pintoe José Maria Alkmin contemplavam os céus das alterosas e filosofavam sobre apolítica mineira:  os fatos, como asnuvens, mudavam de rumo e de forma à mercê dos ventos.

***

A encruzilhada e o inimigo principal — Enquanto o impériodesabrido e o terror sionista dirigem sua guerra híbrida ao Irã, governado amão de ferro pelo islamismo xiita (em si, como uma teocracia, irrecusávelanacronismo), vozes progressistas de variados matizes ecoam esforço comoventeem busca de um lugar que a história, sobretudo em seus momentos maisdramáticos, se nega a fornecer: o da neutralidade. O lema “fora todos”, maisuma vez, exprime preocupações legítimas, que não devem ser abandonadas — mas, àfalta de concretude (não há terceira via no horizonte), resulta tão-só numaproclamação de virtude, e uma envergonhada tomada de posição.  Pode resolver justos problemas de angústiaexistencial, sempre personalíssimos, mas não enfrentará o cerne da questão: aleitura dialética do fato histórico.

Amor à guerra — Artigo do conselho editorial do TheWashington Post, de propriedade do magnata Jeff Bezos, publicado em 14/01,celebra o orçamento militar pretendido por Donald Trump, de US$ 1.5 trilhão(aproximadamente 5% do PIB dos EUA). Ao final, o texto menciona os custosenvolvidos no recente ataque ao Irã (com mísseis Tomahawk ao preço unitário deU$ 2.2 milhões), e pede que o leitor imagine o custo de um conflito,possivelmente tanto necessário quanto prolongado, com a China. O establishmentvê à frente.

Adeus a Rex Nazaré — Meu saudoso amigo Rex Nazaré foi umfísico brasileiro de destaque; sua trajetória se confunde com os esforços —muitas vezes tensos e contraditórios — de construção de um projeto nuclearnacional. Com sólida formação acadêmica e atuação relevante na pesquisa emfísica nuclear, teve papel importante na CNEN (Comissão Nacional de EnergiaNuclear), participou da formulação e da execução de políticas científicas etecnológicas voltadas à autonomia do país nesse setor estratégico, para o quala classe dominante alienada torce o nariz. Para além da institucionalidade,esteve ligado à chamada tentativa de um “projeto nuclear alternativo”,desenvolvido à margem — e por vezes em confronto — com o modelo adotado pelogoverno militar, especialmente aquele associado aos acordos internacionais e àdependência tecnológica externa. Essa participação, longe de episódica,expressava uma convicção: a de que o domínio do ciclo nuclear deveria servir aum projeto soberano de desenvolvimento científico e industrial. Professor epesquisador, Rex Nazaré formou gerações e deixou uma marca duradoura no debatesobre ciência, Estado e soberania no Brasil, ocupando papel singular — críticoe, ao mesmo tempo, comprometido — na história do projeto nuclear brasileiro.Ainda hoje, um projeto por ser.

 Por: Roberto Amaral.

*Com a colaboração de Pedro Amaral.

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