— Karl Marx, Prólogo à primeira edição de O capital.
Nascemos como território aberto: feitoria, praias, água,alimento e sombra para o repouso de corsários de todas as bandeiras; o mundochegava para a aventura predatória dos séculos seguintes de apropriação daterra dada, a caça à natureza e aos homens, povos nativos preados e, com aColônia, a escravidão de negros importados para o eito e a morte antecipada.
Éramos algo como uma malha de feitorias sob a coroa dopequeno Estado português, em trânsito entre o domínio espanhol e o britânico,cuja preeminência nos condicionaria até o fim da Primeira Grande Guerra(1914–1918) e a ascensão dos EUA, que se tornam a unipotência capitalista apósa queda do Muro de Berlim e a capitulação da URSS.
Continuávamos na periferia, como se cumpríssemos umdeterminismo que a leitura dialética da História não justifica. Antes, nonascedouro do século XVI, na periferia do mercantilismo do capitalismonascente, ainda pré-industrial e pré-estatal. Agora, na periferia docapitalismo pós-industrial, sob a égide de um imperialismo Moloch.
Em 1627, em sua História do Brasil, o sábio e precursor FreiVicente de Salvador profligava as limitações estratégicas do português:desapetrechado política e economicamente, pugnava salvar-se mediante aconservação da terra apossada sem luta, e salvá-la por meio de tratadosnegociados com nações mais poderosas: “Da largura que a terra do Brasil tempara o sertão não trato, porque até agora não houve quem a andasse pornegligência dos portugueses, que, sendo grandes conquistadores de terras, nãoaproveitam delas, mas contentam-se de andar arranhando ao longo do mar comocaranguejos”.
Vida social, nenhuma. Vida política, tão-só a necessáriapara assegurar o domínio português: os primeiros agentes do fisco, os primeirosmilitares, os primeiros fortes de defesa, os primeiros agentes da justiçareinol; os padres e frades catequizando os catecúmenos, desculturalizando ogentio e o negro, matando suas almas; os jesuítas catequizando, educando,aportuguesando e construindo, território afora, suas “repúblicas”, seusaldeamentos, suas “missões”, um modelo de colonização clerical que palmilhou quasetodo o país daqueles idos; caminhando desde a Amazônia e o Centro-Oeste ao RioGrande do Sul, à Argentina e ao Paraguai; chegaram a mobilizar entre 250 e300 mil guaranis, até a fúria pombalina que os expulsou do Brasil.
Nascemos na periferia do mercantilismo do século XVI, docapitalismo nascente, ainda pré-industrial e pré-estatal, e nossos donos deentão, pais e mães dos donos de hoje, logo se aclimataram no ócio, pois haviaíndios preados para o trabalho, africanos às mãos cheias para o eito e a morteantes do tempo. A história oficial consagrou como “heróis da Pátria” osgenocidas das Entradas e Bandeiras. Nesse Brasil, onde havia produção, só oescravo trabalhava, o que não explica tudo, mas sugere um campo de reflexão.Darcy Ribeiro lembra a carne e a alma dos indígenas e dos negros que os brancoscaçavam para produzir e poder acumular suas riquezas. E madeira, e pedras, ealgodão, e mais isso e mais aquilo, tudo o que o mercado europeu requeria, poisaqui, em se plantando (pelo braço escravizado), tudo dava, tudo dá; e logramosplantar cana e produzir açúcar para exportar à Europa, de onde importávamostudo: manufaturados, ideologia, valores, cultura, visão de mundo, porintermédio dos entrepostos portugueses que nos exploravam como monopóliocomercial.
O “brasileiro” é o português que vem “fazer a América”,enriquecer e voltar a Portugal para construir igrejas, e será personagem deCamilo Castelo Branco. O proprietário de engenho é um simples feitor muitorico. Não é um empreendedor, não é um pioneiro. É um homem da terra,reacionário, violento, inculto; mas, supunha, falava com Deus; precatado,mantinha em casa uma Capela devotada ao Cristo ou à Imaculada Cinceição onde se casavam os herfeiros com osherdeiros das terras vizinhas.
São essas as nossas raízes, as de um Estado classistamoderno na sua abjeta concentração de renda e espoliação social; raízes queexplicam ainda o mal de origem que intentam negacear: construído aos trancos ebarrancos, isento de projeto de ser, desprovido de destino, o Brasil não é,está sendo; algo permanentemente em elaboração, sem bússola, sem azimute,talvez com ponto de partida, mas jamais dispondo de horizonte de chegada: semrégua e sem compasso, manipulado pela dialética das circunstâncias nas quaisnão ousa intervir.
Na transição para o capitalismo, a burguesia que nos coubejá não era revolucionária quando aqui desembarcou, e jamais seria nacional,condicionada na modernidade pelos interesses do capitalismo globalizado. Jamaisse desapartou de suas origens: cultiva o longo passado colonial e escravagistade seus avoengos. Assim vê o mundo e nele se vê.
Essas, as nossas circunstâncias perdurantes. Sem noção desi, carecemos da noção de mundo; sem projeto de ser, não temos porto dechegada. Ficamos com os argonautas, a navegar, porque navegar é preciso. E lanave va, mas não nos salva da alienação: a crise é objetiva, material, concretae nos fisga no contrapé da irrelevância. Assim, quietos, nos escondemos dianteda crise, que é uma crise nossa, presente: ela está no mundo, mas estádiretamente na América do Sul e no Brasil.
Fruto da formação histórica que acima se tentou resumir,nossa classe dominante, trêfega e traficante, não tem condições de dialogar coma realidade; alienada e ideologicamente colonizada, não se identifica com anação, não a pode compreender. Nada se lhe deve cobrar ou esperar.
Mas talvez ainda seja pertinente chamar à cena a “sociedadecivil”. Ou a academia, silente, omissa. Não há condições de cobrar o que querque seja do movimento sindical, mas talvez ainda seja pertinente exigir umapostura digna dos partidos que ainda integram essa larga avenida que reúneprogressistas, esquerda e centro. Era e ainda é justo, e ainda oportuno, exigirde nosso governo um mínimo de ação objetiva, ou seja, algo além das boas notasexpedidas pela boa burocracia do Itamaraty. Que errou, com o terceiro andar doPalácio do Planalto, já lá atrás, reduzindo a agressão imperialista a umachantagem tarifária, ao fim e ao cabo delegando as negociações de Estado, quehaveriam de ser políticas, à intermediação de produtores brasileiros de carne eoutras commodities com autoridades dos EUA, em escritórios de advocacia e lobbyde Washington. Soa mal a dificuldade do nosso governo de dizer o que pensasobre o condomínio que os EUA querem instalar sobre os escombros de Gaza. Épreciso salvar a política “ativa e altiva” de Celso Amorim.
A questão, como é sabido, volta para seu campo nuclear, queé a política, de onde, a rigor, jamais saiu.
Na crise que o imperialismo agrava a cada dia — Europa,Oriente Médio, Palestina e Israel, Rússia, Ucrânia, Irã, Dinamarca/Groenlândia,América Latina e, nela, tanto a América do Sul, onde estamos, convivendo com aascensão da extrema-direita, que nos promete isolar, quanto com a invasão daVenezuela, na nossa fronteira amazônica, o que não é irrelevante, em qualquermomento e em qualquer circunstância.
Que dizer quando o chefe da diplomacia de guerra da CasaBranca anuncia como nova política a retomada do “grande quintal”, proclamados ofim da política, o fim do multilateralismo, o fim dos organismosinternacionais? O essencial está na ululante falência do direito internacional;inane.
A nova ordem é a lei do mais forte, o novo é o Velho Oeste.Soberania nacional não é um valor moral, nem muito menos jurídico, ensina a doutrina, ensina a vida; é uma forçaobjetiva, concreta, palpável, que depende exclusivamente de si. A essepredicado os estrategistas chamam de capacidade de dissuasão. De que carecemos.Porque nossas forças não estão adequadamente armadas, porque sua formaçãoideológica é subalterna aos interesses do imperialismo, porque o governo aindanão conseguiu construir com a sociedade sua política de defesa.
Porque, ao final, carecemos de um projeto para o país.
Sem projeto de destino, sem causa, o Brasil, que jáaspirou papel de liderança no planointernacional, vê-se reduzido à condição de objeto: peão em meio a outros peõesque se multiplicam no tabuleiro de xadrez, onde reina o soberano imóvel,decidindo os destinos do mundo.
Lamentavelmente, vítimas de crassa falência analítica — comose a história não estivesse à nossa disposição para ensinar aos que queremsaber —, não nos damos conta do quadro de realidade, como se ele fosse apenasum drama estranho ao nosso, representado noutro teatro. Ora, o enredo é único,a representação é única, o elenco é único, a plateia é única: somos nós. Ostempos de hoje trazem os tempos sempre contemporâneos de Shakespeare e seu ReiLear, na fala de Gloucester (Ato IV, Cena 1): “É a peste do nosso tempo: quandoos loucos conduzem os cegos”.
Por: Roberto Amaral.
*Com a colaboração de Pedro Amaral.
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