A crítica se intensifica quando observamos os cachês pagos aartistas que circulam pelos grandes palcos. Dados recentes mostram que nomes dedestaque da música brasileira chegam a cobrar mais de 1 milhão de reais porapresentação em festivais privados, enquanto bandas de médio porte não aceitammenos de 200 mil. Essa disparidade cria um abismo entre o público e oespetáculo, pois os custos são repassados diretamente ao consumidor. Oresultado é uma elitização da música ao vivo, que deixa de ser espaço de encontrocoletivo e se torna vitrine de status social.
No caso das festas de São João na Bahia, a situação ganhoucontornos de escândalo. Prefeitos de cidades tradicionais como Cruz das Almas eSenhor do Bonfim se reuniram em janeiro para discutir um teto máximo de 500 milreais por atração, diante da pressão dos escritórios de artistas que exigemvalores cada vez mais altos. A União dos Municípios da Bahia (UPB) alertou queos cachês exorbitantes ameaçam a sustentabilidade das celebrações juninas, quedeveriam ser patrimônio cultural acessível. A população, por sua vez, questionase é razoável gastar milhões em shows enquanto serviços básicos enfrentamcortes e dificuldades.
O impacto dessa escalada de preços vai além da economiaimediata e ele redefine o papel da música na sociedade. Se antes os shows erammomentos de catarse coletiva, hoje se transformam em eventos seletivos, ondeapenas uma parcela privilegiada consegue entrar. O bolso do fã comum nãosuporta mais o peso de ingressos inflacionados e cachês milionários, e apergunta que ecoa é simples, até onde vai essa lógica de exclusão? A cultura,que deveria ser ponte de acesso e identidade, corre o risco de se tornar apenasmais um produto inacessível, vendido a quem pode pagar pelo espetáculo.
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