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O menino que mordeu o cachorro

O menino que mordeu o cachorro

09/02/2026 16h00
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Imagem ilustrativa
Ricardo sempre foi aquele tipode garoto que, se tivesse nascido em outra época, provavelmente seria citadonos livros de história como “o inventor da confusão”. Nivaldo, testemunhaocular e fofoqueiro oficial da rua, garante que as travessuras do menino jáeram dignas de registro policial, mas sem boletim, porque criança levada aindatinha salvo-conduto.

A turma era formada por Peter,Carlinhos e o próprio Ricardo. Juntos, eles seguiam para a escola como quem vaipara uma expedição científica e o objetivo não era aprender, mas descobrirnovas formas de provocar o cachorro da Rua Castelo Branco. O pobre animal,preso atrás de um muro perto do Bar do Cabeça, já tinha virado atraçãoturística. Os meninos passavam, cutucavam, faziam caretas, e o cachorrorespondia mostrando os dentes como se fosse o vilão oficial da novela. Elessaíam rindo, como se tivessem vencido mais uma batalha épica.

Mas naquele dia, o roteiromudou. Ricardo jura que ninguém mexeu com o cachorro. “Juro por Deus, nem umassobio!”, ele repete até hoje. Só que o bicho parecia ter acordado comespírito de Doberman. Saiu babando, olhos de vingança, e correu atrás da molecada.Todos dispararam como atletas olímpicos, menos Ricardo, que foi alcançado e tevea calça rasgada na região mais estratégica do corpo. Resultado foi uma mordidana bunda que ecoou em gritos ouvidos a quilômetros de distância.

O hospital virou palco datragédia cômica. Os amigos diziam que era para evitar “tétano”, mas a verdade éque queriam ver a cara de Ricardo com o curativo. A marca dos dentes ficou comotatuagem natural. E se não bastasse, a mãe decidiu aplicar o tratamento caseiroe esfregou alho no ferimento. O menino passou dias cheirando como tempero defeijoada e reclamando que a dor era pior que a mordida.

Ricardo, claro, não seconformou. A honra da rua estava em jogo. Juntou os amigos e arquitetou umplano de vingança contra o cachorro. Era preciso mostrar que nenhum vira-latapoderia humilhar a turma. Para a missão, convocaram Barão, um brutamonte que pareciater sido criado para segurar touros em rodeio.

A estratégia era simples, oBarão provocaria o cachorro, e quando o bicho avançasse, a tropa entraria emação. Funcionou. O cachorro saiu furioso, mas foi cercado pelos meninos. Unsseguraram as patas, Barão agarrou a cabeça, e Ricardo, finalmente, teve suachance de vingança.

E aí aconteceu o impensávelquando Ricardo mordeu o cachorro. Sim, mordeu. Na barriga. Com a boca cheia depelos, decretou sua vitória. O cachorro, traumatizado, nunca mais encarou omenino. Ao contrário, quando via Ricardo, disparava em fuga como quem lembravado gosto amargo da vingança.

Desde então, a rua ganhou umanova lenda, o garoto que não só foi mordido, mas que também mordeu de volta. Ese alguém duvida, basta perguntar ao cachorro, embora ele provavelmente nãoqueira falar sobre o assunto. 

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