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O homem que deu uma surra no Chevette

O homem que deu uma surra no Chevette

24/02/2026 10h51 Atualizada há 6 meses atrás
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O homem que deu uma surra no Chevette

Lembram de Ricardo? Aquele sujeito que, ainda menino, mordeuo cachorro para se vingar da mordida do animal. Pois bem, o tempo passou, elecresceu e foi morar em Salvador, no bairro do Cabula. Comprou um apartamento emum conjunto de quatro prédios, cada um com treze andares. Estava bem de vida,tanto que adquiriu um Chevette para se locomover pela cidade, um luxonostálgico, digamos assim.

Mas Ricardo nunca foi um homem comum. Num certo dia, acordouapressado para um compromisso profissional. Vestiu sua melhor camisa de mangascompridas, calça de linho branco e sapato de bico fino. Estava alinhado, prontopara impressionar. Só que, ao girar a chave do Chevette, nada. O carro serecusava a ligar. Tentou uma, duas, dez vezes. O suor já escorria pelo rosto.Abriu o capô e começou a mexer nos cabos como se fosse mecânico embora nuncativesse trocado sequer um pneu furado. Resultado da situação uma calça suja,camisa encharcada e paciência esgotada.

Enquanto lutava contra o motor, os vizinhos surgiam nasjanelas, curiosos para assistir ao espetáculo. O relógio corria, a reunião jáhavia passado, e Ricardo recebeu a notícia de que não haveria mais encontronaquela manhã. Frustrado, voltou ao apartamento, tomou banho, trocou de roupae, teimoso como sempre, desceu novamente para enfrentar o Chevette. E, como numdeboche cruel, o carro pegou de primeira, suave, como se tivesse saído dafábrica naquele instante.

Foi aí que a fúria tomou conta de Ricardo. Espancou ovolante, chutou o freio, acelerou como se estivesse numa corrida de Fórmula 1.Empurrou a porta com tanta força que ela ficou presa. Desceu gritando, “é assimque você quer, é?”. E, diante da plateia formada nos apartamentos, tirou ocinto da calça e começou a dar uma surra no Chevette. Três minutos de golpes,gritos e fivela marcando a lataria. O carro, impassível, aguentava tudo emsilêncio, como quem sabe que, no fim das contas, sempre terá a última palavra,não ligar quando mais se precisa dele.

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