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Quando o recuo vira destino

Quando o recuo vira destino

28/02/2026 19h37 Atualizada há 6 meses atrás
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Quando o recuo vira destino

“A inação diante de Cuba repete o erro fatal de Munique:apaziguar o agressor só adia a guerra e a torna mais devastadora — a histórianão perdoa os que se calam diante do fascismo renascente”. 

Gabriel Cohn (Cuba, a Espanha no século XXI)

Em 1938, regressando de Munique, aonde fôra negociar comAdolf Hitler, o primeiro-ministro Neville Chamberlain declara ao Parlamentobritânico haver conquistado o que denominava como “a paz para o nosso tempo”.Enganado ou não, enganava os ingleses e despistava o mundo, em especial o mundoeuropeu, mal saído da Primeira Guerra Mundial e já se vendo ameaçado por umnovo conflito para o qual não estava preparado, como se veria logo depois.

É história contada. Aquele não era, porém, o primeiro recuo,nem seria o último registro nos conflitos do século passado e nos conflitos denossos dias, ensinando que nem sempre a estratégia do passo atrás, anunciandooutro passo atrás, é a melhor arte da guerra dos que se veem ameaçados poragressores mais poderosos. O agressor sempre avança onde há menor custo. Comoensinavam os argonautas, “navegar é preciso”.

Quando se entrega tudo, ou quase tudo, chega-se a um pontoem que não há nada mais a entregar, nem mais ninguém para resistir, como lembraBertolt Brecht: “Primeiro levaram os comunistas... Depois ossocial-democratas...  Depois vieram melevar, e não havia mais ninguém para protestar”.  O silêncio da comunidade internacional emface da política dos EUA não é neutro. A indiferença ante a dor de suasvítimas, países e povos é escolha.

Em 1936, a “Frente Popular”, liderada por Léon Blum, comforte apoio socialista e comunista, aderiu à política de “não intervenção”,fechando oficialmente a fronteira com a Espanha, temerosa da desestabilizaçãointerna que via em seus calcanhares, a tiracolo da Segunda Guerra Mundial. Essafoi sua contribuição para a vitória do franquismo. Caso isolado foi aintervenção cautelosa, mas real, da URSS, ao lado dos republicanos.

Na mesma linha de omissão, os EUA — nada obstante nutriremsimpatias com o governo republicano (ou ainda enxergarem as implicações doenclave fascista na Europa ibérica às vésperas da grande guerra já anunciada) —enclausuram-se na política isolacionista que vinha da Primeira Guerra Mundial.Era o receio de reações internas, especialmente congressuais.

Guernica não é obra exclusiva dos bombardeios alemães, assimcomo o genocídio palestino — ainda em curso — não é, tão só, o fruto do crimecontinuado perpetrado pelo sionismo israelo-estadunidense, tanto quanto ostantos crimes que se cometem contra o povo cubano, desde a revolução de 1959,não se podem contar apenas como engenho e paranoia do imperialismonorte-americano.

O que a humanidade – nossos povos, nossos governos, nossospartidos, cada um de nós -- está fazendo para defender suas vítimas?

Todas as ditas democracias, todos os governos ditos deesquerda e centro-esquerda, todas as nossas organizações têm que assumir suacota-parte de responsabilidade.  Não háinocentes nesta guerra.

Retornemos a Munique, como recomendado por Gabriel Cohn.Começava, em 1939, após o fracasso do “acordo” e a invasão da Polônia, aSegunda Guerra Mundial — que seria vencida, como se sabe, ao preço que se sabe.Seguem-se, ao seu fim formal (1945), a Guerra Fria e a vitória do capitalismo,anunciada com a queda do Muro de Berlim e o melancólico suicídio do projetosocialista, com a autodissolução da URSS gorbatchoviana, em 1991.

A polaridade Leste-Oeste, presente o fantasma do Armagedomnuclear, foi conduzida pelo que se chamou, primeiro, de “convivência pacífica”e, ao final, de “entente”, um xadrez de pesos e contrapesos entre as potênciase seus projetos de domínio, que compreendiam a cartografia mais ou menosrespeitada de suas respectivas áreas de influência e controle. Mesmo mantendo atensão e as disputas geopolíticas e estratégicas, os dois blocos, ao tempo emque conservavam a acordada monitoria sobre o mundo, afastavam os riscos dosimpasses diretos.

São os muitos anos dos “conflitos por procuração”, a marcamais significativa da Guerra Fria, quando a violência — política, militar eideológica — se desloca para a periferia, nomeadamente para a Ásia (e nada maissignificativo do que a invasão do Vietnã pelos EUA), a África e o OrienteMédio. A América Latina, nela incluído o Caribe, conservava o destino de“quintal”, o fardo que sobre nós pesa desde os amargos tempos da DoutrinaMonroe, agora reclamados por Peter Hegseth, secretário de Guerra (já não maisDefesa) dos EUA.

Com o colapso da URSS, o imperialismo, guerreiro semadversário, livre de freio sistêmico, assume as rédeas do mundo desregulado. Adiplomacia cede ao tacape. Regressamos, em termos planetários, ao regime do bigstick.

Desde logo, os EUA — nada do que estamos a assistir sob afase trumpista pode ser considerado fato novo — confrangem a ordem estatuída emregras de direito internacional, levam à falência fática as organizaçõesfundadas no pós-guerra com o frustrado objetivo de manter a paz e a segurançainternacionais, caso exemplar da ONU. Retiram-se ou esvaziam agênciasmultilaterais, como a UNESCO e a OMS, fragilizando mecanismos de cooperaçãointernacional construídos ao longo de décadas.

A polaridade cede vez à hegemonia econômica, militar,política e ideológica do imperialismo norte-americano, o regime de hoje,belicoso, agressivo, sem limites para seu expansionismo, tanto inquestionadoquanto facilitado pelo vazio da resistência.

Na paranoia do regime, ensandecido e mais perigoso quantomais decadente, o “après moi le déluge” de Luís XV, ou, mais precisamente, a“Grande Alemanha” (Grossdeutschland) nazista, fundem-se no Make America GreatAgain (MAGA), o nexo entre o trumpismo (a contrapartida do fracasso do ensaiosocial-democrata) e o “destino manifesto” dos fundadores do “A América para osamericanos”. Formulação que, hoje, mais do que nunca, deve ser vista em suaacepção mais ampliada possível: o espaço no qual Washington divise, imagine oudesconfie da sombra de uma ínfima partícula de interesse ou ameaça à suaintegridade, na estrita lógica do diálogo do cordeiro com o lobo,  consagrado na fábula de La Fontaine.

À ausência de freios de qualquer ordem — freios morais,diplomáticos, geopolíticos, estratégicos, como aqueles que, no curso dapolaridade e da Guerra Fria, condicionavam o belicismo das potências — os EUA,autoinstituídos xerifes do mundo, implantam a lei do “Velho Oeste”. Todos osseus reais, supostos ou inventados adversários são peles-vermelhas em tocaiacontra o branco cristão e civilizador, selvagens sem cura e sem salvação,criminosos irrecuperáveis, que precisam ser eliminados.

A Europa, nau sem rumo, navegando ao sabor dosacontecimentos nos quais não consegue intervir, carente de futuro, cuida de seuesvaziamento e da ameaça de balcanização. As potências nucleares com pretensõeshegemônicas para amanhã cuidamde suas demandas. A Rússia, ameaçada pela OTAN epelo cerco econômico-político dos EUA — que inclui o bloqueio de reservas emdólar, restrições comerciais e limitações às exportações de petróleo — tentasalvar-se de uma guerra de desgaste que, projetada para cumprir-se em poucosmeses, entra em seu quarto ano. Pode ser seu Vietnã, ou seu novo Afeganistão. AChina trabalha com o tempo há mais de quatro mil anos. Enquanto faz negóciosmundo afora, pode esperar pelo fim do ciclo hegemônico dos EUA. É a nova“convivência pacífica”.

A série de crimes em desenvolvimento pelos EUA é extensa eestá muito longe de concluir seu repertório. Fixemo-nos na América Latina, e oprimeiro registro é o da invasão da Venezuela, transformada em protetorado soba regência da Casa Branca, depois de ter seu presidente (não vem ao caso queseja)  sequestrado e transferido para umaprisão em NY. Antes, durante e depois, seu bloqueio aéreo e naval e, ao fim eao cabo, o sequestro de suas reservas de petróleo.

Mas o que mais me toca é o garrote vil, extraordinariamentecovarde, que ameaça matar de fome e doenças o povo cubano. Sim: o objetivo,hoje, não é mais destruir a resistência do regime tentativamente socialista,mas eliminar sua gente. A pequena Cuba, desde 1959, padece sob isolamentopolítico e bloqueio econômico, invasões e sabotagens. Trata-se de estrangular aeconomia como forma de disciplinar um governo eleito como adversário, ainda queo custo recaia sobre a população.

Nós, brasileiros, supondo-nos grandes e poderosos, na ilusãoda incolumidade, não identificamos como ameaça o isolamento para o qualcaminhamos na América do Sul, nem consideramos como precedente perigoso ainvasão da Venezuela. Lembrando, uma vez mais, Bertolt Brecht: nosso país não ésocialista e nosso presidente não é acusado de traficante. Nada a temer.

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Reacionarismo digital — É certo que nada se pode esperar dosainda chamados jornalõesbrasileiros, cuja linha editorial (no singular, pois éuma só) reflete a mentalidade do patriciado aqui instalado. No entanto, nãodeixa de espantar que, numa mesma semana, a Folha de S. Paulo (em campanhacontra a escala 5x2) alardeie que o trabalhador brasileiro é ocioso, valendo-sede dados enviesados, e O Globo, em editorial, xingue de “chantagem” a lutaindígena que fez o governo Lula recuar, momentaneamente, da privatização derios amazônicos. Parafraseando Millôr Fernandes, os grupos familiares decomunicação sediados no Brasil têm um grande passado pela frente...

Por: Roberto Amaral.

*Com a colaboração de Pedro Amaral.

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