“Não podemos confiar no fato de que, por sermos um paíspacífico ninguém vai nos atacar” - Celso Amorim (Carta Capital, 19/02/2026)
Maior país da América do Sul, com território de 8.510 km²,partilhando fronteira com dez países, quinta maior população do mundo (215milhões de habitantes), 80% urbana, 50% metropolitana, uma costa de 7.401 km(8.500 km se considerarmos as baías e suas reentrâncias), décima economia doplaneta, o Brasil é, no entanto, incapaz de se proteger da cobiçainternacional.
Nosso país é indefeso porque ignora seu destino: sem projetode ser, sem projeto de nação, sem projeto de país — o trágico mal de origem.
Ao fim e ao cabo, o Brasil não tem política de defesa,simplesmente porque não carece de política de defesa país que renuncia à suaautonomia estratégica. E foi o que fizemos quando, após a Segunda GuerraMundial e no curso da Guerra Fria — à qual aderimos sem nada termos a ver comela —, nossa capacidade militar passou a ser concebida como ancilar do poderiodo Pentágono, conformada como mera continuidade de uma dependênciapolítico-ideológica que, renovada, vem de longe, regada pelo cantochão da classedominante de sempre.
Joaquim Nabuco, monarquista na República, nosso embaixador(1905-1910) e primeira voz do “panamericanismo”, diria, discursando emWashington: “A aproximação do Brasil com os EUA não é política de ocasião; épolítica de destino. Entre as nações americanas, o Brasil reconhecenaturalmente nos EUA o centro de gravidade do sistema continental.” Osprimeiros idos da República anunciavam sua história, da qual ainda nãoconseguimos nos desapartar.
Essa visão ideologicamente subordinada dos primeirosmomentos da República (herdeira do Império) chega ,aos tempos da últimaditadura. E nada mais significativo do que o sempre lembrado discurso dogeneral Juraci Magalhães, outro embaixador brasileiro nos EUA (1964-1965),também em Washington, desta feita para empresários e, evidentemente, sem aelegância do tribuno pernambucano: “O que é bom para os EUA é bom para oBrasil”. Esta voz indicava o que seriam os 21 anos do regime fardado: tempos deabsoluta hegemonia dos EUA, que ditariam nossa presença subordinada na ordeminternacional e também o armamento com o qual nos deveríamos equipar,cerceando-nos de qualquer autonomia operacional, mesmo em caso de defesa.
Desgraçadamente, os discursos de Nabuco e do general Juracinão representavam arroubos pessoais; estão, ainda hoje, vivos nos círculos daalienada classe dominante brasileira, que comporta, além da Faria Lima e dosbarões do agronegócio, setores atrasados da caserna eo lam entável CongressoNacional que aí está, incansável na destruição da promessa de Estado social coma qual acenaram os constituintes de 1987.
Essa velha e persistente opção pela dependência — o“complexo de vira-latas” apontado por Nelson Rodrigues —, que nos perseguedesde a Colônia, pervade toda a vida nacional. Está na narrativa ideológica queescamoteia a realidade, habita os gabinetes do poder e define o papel dasforças armadas, necessariamente secundário frente às demais nações. Nessestermos, nossas fracas “forças” revelam-se incapazes de oferecer a um eventualagressor, senão o combate, ao menos a advertência do poder de dissuasão.
O que se segue, conta a história, são consequênciasinevitáveis da alienação política, como a recusa do país, em todas as suasinstâncias, de trabalhar com a sociedade as questões essenciais da defesa, quenão pode ser tarefa estrita das fileiras e não pode prescindir de sua principalarma: o povo — não um povo qualquer, mas uma coletividade unificada pelaconsciência de pertencimento e pela partilha de uma mesma história, ponto departida para a construção de um destino comum.
A defesa de um país se faz, sabidamente, com armas esoldados adestrados, mas, imprescindivelmente, com o apoio de uma populaçãomobilizada na defesa de sua visão de mundo. É preciso lembrar quem, no Vietnã,derrotou o maior exército do mundo moderno, ao contrário do que vimosrecentemente em Caracas, com o “strike” cirúrgico que, em horas, reduziu a nadaum governo sem o apoio popular que alardeava possuir?
Qual o debate que se trava em nosso país sobre o conceito dedefesa nacional, para além da retórica dos hinos? E como falar em soberania senão dispomos de meios ideológicos e materiais para promovê-la, exatamentequando a ordem internacional se transforma em caos e a guerra se aproxima denossas fronteiras, na Amazônia, enquanto a direita neofascista avança naregião?
Como pensar uma cultura de defesa se as questões centrais dasoberania não são discutidas com a nação?
As consequências dessa visão equivocada do que deve ser apolítica de defesa de um país com as nossas características são amplas:compreendem tanto a formação profissional e ideológica das tropas quanto acompra de armamentos estrangeiros, norma dos tempos da ditadura, quando o país,já colonizado ideologicamente, já doutrinados seus oficiais comandantes,“passou a depender inteiramente de material bélico comprado dos EUA e de outrospaíses da OTAN, não se esforçando para criar uma indústria nacional de defesaque lhe concedesse qualquer capacidade de proteção autônoma” (Jorio DaustereRubens Barbosa — Insigh-Inteligência).
Vence o complexo de vira-latas.
Quem não possui tecnologia e indústria próprias pode ter umacaserna numerosa e cara, mas não tem e não terá forças armadas.
Este é o nosso caso, como se demonstra a seguir.
Após a ditadura, buscamos alternativas, fizemos crescer aEmbraer e várias outras indústrias de armamentos bélicos leves. Pouco avançamosneste plano, e muitas indústrias nacionais fecharam suas portas. Passamos aprojetar aviões para uso civil e militar, dos Bandeirante aos Tucanos e aosKC-9, mas suas turbinas e a aviônica são importadas; o programa Gripen dependede tecnologia sueca e seus caças são equipados com turbinas importadas dos EUA.Dependemos da importação de sistemas sensíveis, como radares e sensores,satélites (para comunicação em geral e defesa) e infraestrutura, além doscomponentes do futuro submarino de propulsão — e propulsão apenas — nuclear. Dependemos desatélites e de infraestrutura espacial de que carecemos, em face do fracasso doprograma espacial brasileiro, decorrente de inumeráveis causas, entre as quaisse destacam os embargos tecnológicos e comerciais dos EUA.
Sem força aeronaval, não temos condições de defender nossaintegridade territorial e menos ainda podemos assegurar a defesa de nossaprojeção marítima, resguardando seus recursos biológicos e minerais, como asreservas e as plataformas de petróleo e a rede de cabos submarinos dedados. Ademais, é por esta via que seprocessa o comércio exterior brasileiro, e ela precisa ser protegida. Em poucaspalavras: da defesa desse extenso litoral, que nos liga das fronteiras doCaribe à Patagônia, depende o controle da entrada de amigos e aventureiros.
Só recentemente e,assim, perigosamente atrasados, como quase sempre quando nos desafiam questõesestratégicas, estamos, ainda lentamente, tentando ter em nossa frota o primeirosubmarino de propulsão nuclear, movido a tecnologia francesa. Seu primeiromergulho no mar está prometido para 2030.
Até lá, não podemos, a sério, cogitar da defesa de nossolitoral. Apesar de nossa "frota" ser comoposta de um só submarino.
A dependência segue e, com ela, se esvai nossa segurança.Todo o nosso sistema de comunicação, não só privada e governamental, como astelecomunicações (internet e telefonia) e mesmo as comunicações militares,subordina-se a satélites operados por empresas estrangeiras e umainfraestrutura digital vulnerável (aliás, por que não adotamos, ainda, softwarelivre na administração federal, se o próprio Presidente reconhece que vivemossob dominação digital?)
No plano militar, não há registro de mínima capacidade dedefesa. A dependência de fornecedores estrangeiros, posto que estamos à mínguade produzir nossos equipamentos, implica submissão às políticas de guerra dospaíses que os abrigam, os quais exercem o poder de embargo do uso de armas eequipamentos.
Em poucas palavras, os países importadores carecem deautonomia operacional, mesmo para sua defesa, como, para dar um exemplopróximo, ocorreu na guerra das Malvinas, em 1982, quando os EUA impuseram àArgentina (atacada) o bloqueio de peças e suporte para armamentos de suafabricação.
A regra é esta: o fornecedor de tecnologia e equipamentos,armas e munições de toda e qualquer natureza pode impor ao comprador restriçõesda mais variada natureza do emprego dos recursos fornecidos, e ditar contraquem podem e contra quem não podem. O fabricante, ao seu talante, podesuspender o fornecimento de peças de reposição e munição. A capacidade dedefesa do país importador cessa, dependente que se torna de suporte externo,condicionado por interesses político-militares que lhe são alheios e podem serantagônicos.
Sem autonomia tecnológica e industrial, sem autonomia para ouso de suas ferramentas, não há capacidade de defesa, porque não há mais forçasarmadas dignas do nome.
Os importadores de tecnologia, equipamentos e armas, (olamentável caso brasileiro) não possuem poder de dissuasão diante de umaameaça, e não há justificativa para supor que esta hipótese, a necessidade dedefesa militar, esteja fora de cogitação, simplesmente porque alardeamos nossopacifismo em um mundo em guerra, uma guerra com a qual já convivemos.
É fato que, relativamente aos demais países cuja economia ouimportância são nossas irmãs, o Brasil gasta pouco com suas forças; mas estanão é a verdade toda, nem o fulcro da questão, que reside no escandaloso desviode finalidade do orçamento militar, que, originalmente destinado a custear asforças, isto é, à nossa defesa, se converteu em mero e injustificável fundo depensões.
Assim: quando o orçamento da Defesa é o quinto maior dopaís, a saber, R$ 133 bilhões para o presente exercício, os gastos livrescorrespondem a menos de 10%, porque o que deveria ser destinado aoaparelhamento e modernização de nossos meios de defesa e adestramento da tropaé, irresponsavelmente, consumido com pessoal e encargos sociais, com destaquepara inativos e pensionistas.
Deste modo, o que deveriam ser forças armadas adestradas eequipadas para defender o país (afinal, é para tais finalidades essenciais queforam inventadas e são sustentadas pelo contribuinte de um país que ostenta umadas maiores desigualdades do mundo), consiste, como observam Jorio Dauster eRubens Barbosa, em “mais um instrumento de amparo social do que uma máquinabélica”.
Não há nem como nem por que escamotearmos a realidade dosdias presentes. Já convivemos com a guerra, repito, em seus variados contornos;seus desdobramentos políticos e econômicos percorrem o mundo organizado pelaordem capitalista intercomunicante e interdependente.
É certo que seu principal teatro, hoje, é o Golfo Pérsico,enquanto persiste o genocídio do povo palestino, os ataques ao Líbano, osassassinatos seletivos do sionismo no Irã. Mas estão à vista e presentes seusefeitos, para além do horror vivido pelas vítimas imediatas. Seusdesdobramentos são planetários e já chegaram ao nosso continente, estão entrenós, ao Norte, na fronteira amazônica, e ao Sul, pois chegam à TrípliceFronteira, com os já anunciados e ainda pouco conhecidos acordos firmados pelosEUA com o Paraguai, com quem dividimos Itaipu, que nos fornece algo como 10% detoda a energia elétrica que consumimos. Do pouco conhecido, nossos vizinhosterão cedido espaço para a presença de agentes e bases militares americanas,treinamento de suas tropas e instalação de centro “antiterrorista” próximo àfronteira.
É óbvio que essa presença militar, que não ficará por aí,altera o equilíbrio estratégico regional, e é óbvio que somos ou seremos o paísmais afetado, e é plausível supor, ainda, que estamos no centro dessa operação.
Por sem dúvida que o Brasil é alvo de uma guerra híbrida,esta que compreende ameaças claras e veladas de intromissão na políticainterna, conhece o lawfare, exerce pressões políticas e econômicas (como otarifaço) e impõe sanções as mais variadas. Nada, porém, que já não tenhamosconhecido.
É de bom conselho ter presente nossa história recente, e apresença dos EUA dando andamento a eventos como o golpe de 1º de abril e aditadura que promoveu. A preeminência do colonialismo britânico, definindo oImpério, dá as cartas na República.
Depois do tarifaço e das pressões políticas, Washington, queopera ao mesmo tempo com a ameaça da violência militar clássica e osinstrumentos da guerra híbrida, com a força que o poder de gendarme do mundoque exibe, anuncia para breve declarar como terroristas os grupos que no Brasilcomandariam o tráfico de drogas (PCC e CV), como já fez com outras tantasquadrilhas de outros tantos países, no México e no Caribe, com as consequênciasque estão nos jornais. Elas têm compreendido sanções internacionais (comobloqueio financeiro global), operações extraterritoriais e outras açõesmilitares e operações encobertas, geralmente levadas a cabo pela CIA. Assimsempre agiram, aqui e no mundo. Mas é possível adicionar um fato novo,agravante para a paz e para o convívio pacífico entre povos e Estados, que é acoordenação, pela Casa Branca, da “internacional neofascista”, capacitada aintervir na domesticidade e na vida política de praticamente todo o mundo, portodos os meios, desde a intimidação, as sanções e os embargos até a guerramilitar. Mas não é só. Essa internacional, que não economiza meios ilegais deagir, tem atrás de si a maior potência econômica e militar jamais conhecidapela humanidade.
O Brasil não está fora do mundo e pagará muito caro se,ingenuamente, se recusar a conviver com a realidade.
Por: Roberto Amaral.
* Com a colaboração de Pedro Amaral.
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