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O ataque ao Irã e o colonialismo do século XXI

O ataque ao Irã e o colonialismo do século XXI

29/03/2026 07h53 Atualizada há 5 meses atrás
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O ataque ao Irã e o colonialismo do século XXI

A guerra está aí, se espalhando pelo mundo. O que ninguémignora foi proclamado como novidade há uns poucos dias pelo Secretário-Geral daONU, instituição que mais e mais vê ausentes as razões justificadoras de suacriação, em 1945 (manutenção da paz e da segurança internacionais), quando malsaíamos da Segunda Guerra Mundial e os tambores já rufavam no vestíbulo daGuerra Fria — que, aparentemente finda com a autodissolução da URSS, volta àcena, por outros meios e com novos atores.

Trata-se de uma guerra diferenciada, mais sofisticada do queos modelos conhecidos e vividos, e mais complexa, em face das experiênciaspassadas. Ela não se restringe ao teatro das operações bélicas no sentidoestrito — por exemplo, as agressões dos EUA e do Estado sionista de Israel,que, repetindo o assalto às Colinas de Golan (em 1967), anuncia a ocupação eposse, ou seja, a rapina de algo como 10% do território do Líbano, que nãocessa de atacar, matando civis, destruindo o país, sob o pretexto (a prepotêncianem sempre se empenha em construir pretextos, como a humanidade aprendeu com aslições da Alemanha hitlerista) de estar combatendo o Hezbolah.

A guerra que neste momento tem seu epicentro no Golfocomeçou, do ponto de vista bélico, em Gaza; mas pode ser definida como umaguerra continuada, porquanto o mundo não conheceu a paz nesses 81 anos que nosseparam do Armistício, e desde então os EUA não deixaram de guerrear. É umaguerra imperialista — como tantas iniciadas por Washington (jamais esquecer ainvasão do Vietnã) —, mas que não se trava entre potências capitalistasavançadas, nem visa a disputa de mercado.

Embora a Casa Branca tenha seus canhões e seus marinesmomentaneamente voltados para o petróleo do Oriente e já se tenha apossado dasreservas da Venezuela, o eixo central é a disputa da hegemonia internacionalque os EUA, a unipotência de hoje, veem, com justificadas razões, ameaçada pelaChina, até aqui silente, enquanto, caminhando para além da Rota da Seda,expande sua presença em todos os continentes.

O conflito está entre nós, na América do Sul e no Brasil.Sofrem nossas exportações para o Oriente; a economia padece com a alta dosfertilizantes e dos combustíveis, cujos efeitos são ainda mais sentidos emvista da privatização de refinarias e venda da BR Distribuidora, parte doprojeto de desmonte do governo anterior. Se já não se conta com a queda daSelic (sem o que o país não se desenvolve), o tal mercado estima a queda do PIBeste ano. A Argentina, como o Paraguai, assegurou aos EUA o ingresso de tropaspara exercícios militares (há sempre um começo) e participação na base navalque está sendo construída em Ushuaia (a cidade mais austral do país), porta deentrada para a Antártica. Tudo isso nos diz respeito.

Esta guerra, porém, contém um componente anacrônico, quelembra o neocolonialismo, quando logra submeter aos seus interesses paísesperiféricos no sistema capitalista; antes independentes, são reduzidos àcondição de protetorado-colônia, espécie à espera de definição pela ciênciapolítica.

Caso que não é, tão só, o da Venezuela, pois já é o de quasetodo o Caribe, para além dos condicionamentos que secularmente amaldiçoam oMéxico. Ali, naquela região nevrálgica, a fronteira norte do grande “quintal”,os EUA promovem — criminosamente, por óbvio — a sufocação de Cuba, pela fome desua gente, como preâmbulo para a incorporação ao império, já aventada porTrump. Se lograrem êxito, Cuba voltará a ser o que era antes da revolução: umacloaca, um cassino para a classe média do sul dos EUA, balneário para o repousode gangsters aposentados.

A história comum de nossos países reproduz a preeminênciados interesses dos EUA, sustentada por uma sucessão de golpes de Estado queconheceu quase todo o continente e esteve presente entre nós em variadosmomentos. Convém não esquecer.

Sobre os escombros de Gaza e os milhares e milhares decadáveres palestinos abre-se o espaço para a Riviera da família Trump, suaLagoa ao mar oriental, levantada sobre a falência do direito internacional, aafronta à Carta das Nações Unidas e o auxílio prestimoso do sionismo,anunciando um portfólio de negócios a ser explorado mundo afora pela partilhaentre o grande capital e o complexo industrial-militar, que carece da guerrapara sobreviver.

Não é o começo, nem sugere um fim.

A guerra que nos toca hoje, está, pela diversidade de meios,expandida em face do conceito canônico e compreende um número sem conta deintervenções da mais variada forma, que completam um rol que vai muito além daguerra convencional, substituída por guerras irregulares, apoio a insurgências,sabotagens de um modo geral, ciberataques, desinformação, pressão econômica esanções, operações psicológicas e o lawfare, ou seja, o uso do sistema jurídicocomo arma política, expediente bem conhecido entre nós, pois não podemosesquecer o que foi a Lava Jato, cujos efeitos ainda não foram de todosuperados.

Neste caleidoscópio, o tarifaço de Trump é apenas uma dessasartes, ao lado das pressões e das sanções econômicas, como as que se abatemnotadamente sobre a Rússia e o Irã. Estas são armas claras, como a guerramilitar convencional, expostas à luz do dia; mas há as que passam despercebidasdo grande público: as guerras irregulares, que se fazem mediante a mobilização,por exemplo, de milícias ou contingentes mercenários (como vimos na guerracivil da Síria e da Líbia pós-2011) e, notadamente, a espionagem e a sabotagemde que permanentemente se valem as grandes potências, e no que se destacam osserviços secretos de EUA e Israel, de uma forma ou de outra herdeiros daexperiência do serviço secreto inglês em seus momentos mais ignominiosos.

Cuidemos de apenas dois crimes. Aquele que mais diz respeitoà tragédia iraniana é a deposição, em 1953, do primeiro-ministro MohammadMossadegh, liderada pelo serviço secreto britânico (MI6), de mãos dadas com aCIA. Ficou conhecida como Operation Ajax. Era a resposta das grandes potênciasà nacionalização do petróleo iraniano (sempre ele) até então, controlado pelaAnglo-Iranian Oil Company.

De igual relevância é a deposição e assassinato, em 1961, dolíder congolês Patrice Lumumba, acusado de simpatias pela URSS, numa operaçãoque reuniu o serviço secreto da Bélgica (ex-potência colonial) e a CIA. Nofundo, havia a disputa por recursos estratégicos, como urânio e cobre. Israel,como se vê, não inova com os seguidos assassinatos de líderes e cientistasiranianos.

A isto tudo chama-se guerra híbrida, definida por FrankHoffman (Conflict in the 21st Century: The Rise of Hybrid Wars, 2007) como ouso combinado e coordenado de instrumentos militares e não militares,tecnológicos, jurídicos, informacionais e psicológicos para enfraquecer oadversário sem necessariamente recorrer a uma guerra convencional declarada.Aqui não há tanques nem drones, mas há impacto direto na soberania política ena manipulação da consciência coletiva. A invasão se opera por outros meios e,mais do que nunca, “a guerra é a continuação da política por outros meios”(Clausewitz).

A  guerra híbrida éainda mais contundente quando as novas tecnologias abrem espaço livre para amanipulação ideológica. Refiro-me aos bots, às fake news e à manipulaçãoalgorítmica; mas a espécie mais insidiosa, ao lado das pressões psicológicas,certamente são os ciberataques (exemplar, a este respeito, é o caso Stuxnet,descoberto em 2010, quando os EUA e Israel, mediante a introdução de vírus tipoworms, sabotaram centrífugas nucleares do Irã) e a desinformação, mediante ocontrole dos meios de comunicação e da manifestação cultural como um todo, noque têm reinado os EUA, universalizando sua visão de mundo (embalagem de seusinteresses), a partir do autoconceito de império destinado a reinar, material eespiritualmente, sobre os povos.

É a doutrina do destino manifesto, que se resume na crençafalaciosa de que sua gente foi ungida por Deus para comandar o mundo. Estamaluquice foi tomada ao pé da letra por Donald Trump e sua curruela.

Nesse cenário inquietante, para dizer o mínimo, o Brasilsegue à míngua de defesa, seja para a guerra convencional, seja para a híbrida,na qual atuam, além dos conhecidos atores internos (políticos, econômicos,religiosos, midiáticos), as chamadas big techs, sobre as quais não tem qualquercontrole.

Deve ser nossa prioridade o desenvolvimento de mecanismostecnológicos de defesa, mas o ponto fulcral é a coesão social, sem a qualnenhuma estratégia de dissuasão híbrida funciona. Dela sempre nos descuramos,mas jamais no nível em que nos encontramos, no limiar de um processo político —as eleições de outubro —, certamente o mais agônico desde a redemocratização,em face da ascensão da extrema-direita brasileira, na qual investe ainternacional neofascista que se espalha pelo mundo a partir da Casa Branca.

Resta esperar que governo e partidos do campo progressistaencontrem engenho e arte para avançar na organização e mobilização popular.Ponto de partida incontornável, nesta quadra histórica, é a denúncia doimperialismo, que jamais se expôs como agora, sem disfarces.

***

O alerta e a esfinge – As pesquisas eleitorais dando contade um crescimento da rejeição ao presidente Lula, e de uma possível dianteirado pré-candidato fascista em projeções de segundo turno, não devem instalar oderrotismo na esquerda e no campo democrático como um todo, mas precisam servirde alerta. Não há dúvida de que, para assegurar a necessária vitória, acandidatura governista precisará dialogar com o eleitorado conservador, e comas pautas que ele tende a priorizar. É questionável, no entanto, que o“populismo penal” festejado pelos quadros mais rebaixados da centro-esquerdaseja um caminho a seguir. E há uma esfinge a ser decifrada sem demora: por queo eleitorado jovem, da faixa entre 16 e 24 anos (cerca de 13% do total devotantes), rejeita massivamente o presidente Lula, preferindo um adversáriodesqualificado e de extensa ficha corrida?

Ainda Cuba – A população de Cuba gira em torno de 9 milhões,o que corresponde, ensina-me  o bravofrei Beto, a um bairro de Pekin. E a China não se abala em seu socorro!

Por: Roberto Amaral.

*Com a colaboração de Pedro Amaral.

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