Mas as bases ideológicas da Guerra Fria, dos tempos deconfronto com a URSS, comandada no lado ocidental pelos EUA, já haviam sidoformuladas por Winston Churchill em discurso no Westminster College (1946): “DeStettin, no Báltico, a Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobreo continente.” Era o início de uma política intervencionista global, e ajustificativa para ingerência em outrospaíses.
A Guerra Fria toma a forma de confronto universal à “ameaçacomunista” (que muitos milhões de dólares rendeu à indústria da guerra),implicando a missão de fazer face a todas as formas de luta social e às guerrasde libertação nacional que iluminavam o mundo subdesenvolvido. O papel dos EUA,isoladamente ou comandando a OTAN, aliados de sempre ou aliados de ocasião,passa a ser o de contrarrevolucionário, e, para desempenhá-lo, se tornam aprincipal guarda do colonialismo retardatário, contra o qual firmara, lá atrás,em1823, a defesa continental (a “América para os americanos”), que,nominalmente dizendo não a novas intervenções europeias nas Américas, terminoureinterpretada como a doutrina da hegemonia estadunidense, servindo de baseideológica para intervenções na América Latina, seja no século XX, seja noséculo XXI.
O fato objetivo é que se tratava (esquecidas, como se verá,quaisquer preferências entre ditaduras e democracias) de conter a URSS, que seapresentava ao mundo como potência militar após o sucesso na guerra contra oEixo. Apresentar-se ao mundo era ocupar o espaço que entendia como seu.
Finda uma guerra, começam outras.
As intervenções por procuração, as sabotagens, o apoiopolítico e a ajuda militar e econômica às insurgências de direita não maiscessariam, e logo se espalham por todos os continentes, de par com aintervenção militar direta. Os EUA se fazem atores globais do confronto. A novagrande guerra é uma constelação de conflitos de toda ordem, políticos,econômicos, diplomáticos e militares, à sombra do guarda-chuva nuclear das duassuperpotências, que ao menos tiveram o bom senso de evitar o suicídio coletivo.
De princípio, o método corretivo foram as intervençõespontuais, que acima nomeamos como operadas “por procuração”, levadas a cabo porgovernos títeres ou pela OTAN. Sem que esse artifício seja descartado, logo seimpõe a ação direta, espécie que chega aos nossos dias na Venezuela, em Gaza eno Irã, nos dois últimos casos com a participação direta do sionismo. Agoramesmo, Washington reclama de seus aliados europeus a ausência no campo debatalha de uma guerra que Trump e seus cúmplices ainda não souberam explicar.
A folha corrida de crimes de guerra é extensa, percorre omundo, conhece o Panamá, a Guerra do Golfo, a guerra contra o Iraque, asguerras do Kosovo, do Afeganistão, da Síria e da Líbia. Todas, guerrasnorte-americanas. Por razões óbvias, é indisponível a estatística dassabotagens, dos assassinatos e dos golpes de Estado intentados e levados acabo, quase sempre com sucesso, pelos serviços secretos dos EUA em todo o mundonesse mesmo período. Contra a vida do líder cubano Fidel Castro, estima-se quea CIA tenha atentado ao menos 638 vezes.
As análises disponíveis estimam um mínimo de 80 intervençõesconhecidas, percorrendo todos os continentes. As mais relevantes são o golpe de Estado no Irã, com a derrubada doprimeiro-ministro Mohammad Mossadegh, abrindo caminho para o absolutismo dadinastia Reza Pahlavi (pró-Ocidente), posta ao chão em 1979 pela revoluçãorepublicana liderada pelos aiatolás. Com o golpe, abre-se a intermináveltragédia presente da antiga Pérsia, uma civilização de mais de 4 mil anos, queo atual inquilino da Casa Branca diz pertencer à “pedra lascada”, para cujaidade promete devolvê-la em duas semanas, “sob fogo terrível”.
Os EUA, por todos os meios, se fazem atores na Guerra daCoreia (1950–1953) e, em seguida, na guerra do Vietnã (1955–1975), de ondesairiam batidos, para, em seguida, fazerem a guerra do Afeganistão. Em 1965,promovem a queda de Sukarno, dirigente da Indonésia (maior país do SudesteAsiático), e fazem ascender ao poder o general Suharto, alinhado com a políticade “contenção” da Guerra Fria, que leva a extremos, mediante massacres em massa(1965–1966), com centenas de milhares de mortos, incontáveis – como incontáveissão as vítimas do genocídio promovido por Israel (com apoio de algo como 70/75%de sua população) dos povos de Gaza, da Cisjordânia e da Palestina. Como sãoincontáveis as vítimas civis das agressões ao Líbano.
No rastro de suas intervenções (é impossível nomeá-las nesteespaço), frutificou a barbárie.
Na América do Sul, sofremos os crimes covardes (e em nossocaso, impunes), das ditaduras, no Brasil, na Argentina e no Chile, com seu rolde torturados e assassinados. São, nos tempos recentes, ditaduras legadas peloimperialismo.
Mas elas, não obstante o que de hediondo apresentaram contranossos países e nossa gente, são ainda uns poucos itens numa longa listagem queparece não ter fim, e não terá, se a esquerda brasileira e as forçasprogressistas não tiverem clareza sobre as ameaças que rondam a democraciabrasileira, conquistada a tão duras penas e a tão duras penas trazida até aqui.Os idos de janeiro de 2022 ainda estão presentes, e as forças que os animarampermanecem em seus postos, fortalecidas pelo apoio do grande capital e pelaameaçadora ascensão da direita nos EUA, que, para a consolidação de suapreeminência na América do Sul, precisa de um Brasil dócil. A tragédia é esta:nossa importância estratégica. O México sabe o que é isto (custou-lhe 55% doterritório), a Venezuela conhece, e não de agora, o preço a pagar ao Impériopor conter em suas entranhas a maior reserva de petróleo do mundo. Somos omaior e mais rico país do continente. Somos um espaço estratégico que pode setransformar em alvo de disputas geopolíticas ausentes de nossos interesses e denossa afirmação como povo, nação e país que aspira à condição de potênciaregional.
A saga latino-americana revela os percalços dos paísesrenitentes ao torniquete de Washington. Para não mais lembrar a rapina de quefoi vítima o México, vejamos algunscasos, tentando identificar os mais expressivos, como a deposição, em 1954, dopresidente Jacobo Árbenz, da Guatemala, responsável por uma reforma agrária queafetou os interesses da americana United Fruit, motivação que voltaria à cenaquando Cuba, em 1960, nacionaliza empresas americanas (açúcar, petróleo,bancos). Seguem-se, numa escalada, as intervenções na República Dominicana paradepor o presidente Juan Bosch, em 1965; em 1983, a invasão de Granada; e, em1989, a agressão ao Panamá para o sequestro do presidente Manuel Noriega,ex-agente da CIA.
Invasões e golpes de Estado que são apenas a outra face domesmo processo coercitivo que tem sido o apoio sistemático a todas as ditadurasna América do Sul e Caribe, como os regimes de Somoza (Nicarágua) e Stroessner(Paraguai), o apoio aos “Contras” na Nicarágua pós-revolucionária e asintervenções diretas e indiretas em El Salvador, que se repetem sob Trump, como apoio da velhacaria nativa. Por sem dúvida, o Brasil não poderia ficar àderiva: com o substancioso empenho do grande capital e a ação das forçasarmadas, os EUA desestabilizaram o governo Vargas (1954) e, apenas dez anospassados, conduziram o golpe de Estado de 1º de abril, a que devemos 21 anos deuma ditadura luciferina, de cujas piores consequências ainda não nos livramos,como conta a emergência do neofascismo caboclo, reacionário como suas matrizesalemãs e italianas, mas, ao contrário delas, exasperadamente antinacionalista(entreguista), como se observa nos pronunciamentos dos ícones do bolsonarismo.
O outro lado desta guerra sem quartel pela hegemonia mundialse dá fora dos teatros clássicos das batalhas, operado por todos os demaismeios conhecidos, econômicos, políticos e culturais-ideológicos, que chegam aosnossos dias classificados pela ciência política como “guerra híbrida”, vencidalargamente pelos EUA, objeto de análise anterior neste espaço. Está em todaparte, faz a consciência da classe dominante.
A História, mais uma vez, se repete, e desta vez não foicomo farsa: o Irã foi invadido e está sendo agredido pelos EUA (com a ajuda dosionismo), não porque tenha armas nucleares, mas exatamente por não possui-las.Foi assim com a Líbia de Muammar Kadhafi, foi assim com o Iraque. E continuaráassim, até que se altere a correlação de poder militar que governa a ordeminternacional, de um mundo que mais e mais se aproxima do caos, graças àirresponsabilidade dos EUA.
A lógica desta guerra ensina ao mundo porque o Irã, que nãoameaça e jamais ameaçou os EUA, está sendo bombardeado pela maior potência militar jamais conhecida pela humanidade, enquanto, por exemplo, a pequena e resistente Coreia do Norte,aparentemente isolada do mundo, não é atacada, e que jamais o seja, emboralance rotineiramente mísseis balísticos ao mar do Japão, capazes de atingir aCoreia do Sul e até territórios dos EUA.
Os EUA dizem aos países que ainda aspiram à sua integridadefísica e política, decididos a preservar a soberania nacional herdada, muitasvezes ao preço de incontáveis e dolorosos sacrifícios humanos, que a únicadissuasão possível contra agressores poderosos é a defesa nuclear.
E isto é muito perigoso.
***
O horror da Ocupação e o lobby sionista — Na última semana,com o genocídio palestino ainda em curso, Israel, que já assassinou mais de milpessoas em suas incursões no Líbano, anunciou que irá demolir todas as casasnos vilarejos libaneses próximos à sua fronteira; na sequência, o Knesset houvepor bem aprofundar o racismo do regime vigente no enclave, e aprovou uma penade morte que se aplica exclusivamente a árabes e palestinos – feito celebrado agolpes de champanhe pelos legisladores supremacistas. Nesse contexto, o apoioàs políticas da Ocupação despenca em todo o mundo, inclusive nos EUA, e apropaganda israelense cuida de reagir, com iniciativas que chegam até nós. NoCongresso Nacional, a deputada Tabata Amaral (PSB-SP), para a surpresa deninguém, se presta a despachar uma encomenda do lobby sionista, qual seja, umprojeto de lei que cuida de censurar os críticos de Israel, tachando-os de“antissemitas”. Por sua vez, o Governo Federal entende por bem reunir, noItamaraty, lideranças sionistas para discutir um suposto aumento doantissemitismo, “debate” que promete deixar em segundo plano, se tanto, aquestão central: os crimes perpetrados pelo Estado de Israel.
Por: Roberto Amaral.
* Com a colaboração de Pedro Amaral.
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