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Com os pés no chão, celebremos a resistência iraniana

Com os pés no chão, celebremos a resistência iraniana

13/04/2026 07h31 Atualizada há 4 meses atrás
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Com os pés no chão, celebremos a resistência iraniana

Aos analistas da crise internacional, a boa prudênciaaconselha parcimônia na projeção de seus desdobramentos, mesmo no curtíssimoprazo. A promessa de paz, ainda que a tempo medido, um pequeno armistício, umacurta suspensão das hostilidades por breves duas semanas para ensejar um mínimode diálogo, consumou-se em poucas horas como se tudo não passasse de umatrampa. E não poderia ser diferente, pois um dos principais agentes da guerra edo cessar-fogo, o mais belicoso e o mais poderoso — os Estados Unidos daAmérica do Norte — são um negociador de má-fé, e Israel, seu principalassociado nesta guerra suja, é comandado por um criminoso de guerra com mandadode prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional, o que ameaça fazer danegociação a ser retomada uma não-negociação, um ilusionismo para acalmar omercado global em crise e dar fôlego ao complexo industrial dos EUA, metidonuma guerra muito mais custosa do que calculara a princípio (se é que houvecálculo), e as forças da ocupação israelense, que um alto comandante chegou aanunciar que estavam próximas da exaustão.

Nas negociações intermediadas pelo Paquistão, os EUA puseramà mesa uma proposta que não pretendiam levar a cabo — uma trégua mútua de duassemanas — na contrapartida de concessões humilhantes e, portanto, inaceitáveis,e só apresentadas na suposição de que seriam rejeitadas. Mesmo assim, leonina,a proposta era uma farsa, porque, enquanto falava em cessar-fogo, a Casa Brancainstruía Israel — seu associado nessa sequência de arrogância militar e crimesde guerra impunes — a invadir o Líbano. As falanges sionistas, lembrando asBlitzkriegs de Hitler, realizaram, na última quarta-feira (08/04), 100 ataquesem dez minutos, deixando o rastro de sangue de centenas de civis assassinados,algo como 300 seres humanos, mais de 130 crianças.

Os bombardeios — o alvo é um país sem qualquer sorte dedefesa — visam a destruir sua infraestrutura civil (compreendendo hospitais eescolas, estradas e indústrias) e, mais uma vez, rapinar o território, agora nafronteira sul.

Segundo o The Economist, o criminoso regime sionista éapoiado por algo variante entre 70 e 75% da população. Eis a base da infâmia.

O presidente dos EUA diz que o fim dos ataques ao Líbano nãohavia sido cogitado nas tratativas com o Irã. Shehbaz Sharif, primeiro-ministrodo Paquistão que aproximou as partes e intermediou as negociações, afirma queestavam. Não há dúvida sobre quem está mentindo.

Não obstante o quadro movediço da realidade, alguns juízospodem ser arriscados, e o primeiro deles afirma que os EUA, quaisquer que sejamseus ganhos, saem politicamente derrotados, o que é uma boa notícia para ahumanidade. Nada lembra a derrota no Vietnã — indiscutível sob todos osaspectos consideráveis —, mas a resistência do governo-Estado e do povoiraniano é algo a ser celebrado.

Na sua onipotência de gendarme do mundo, que forceja porsubmeter aos seus interesses estratégico-militares e aos seus valores, osEstados autoritários descuidam sempre que as guerras, quaisquer, se estribam natríade governo–forças armadas–povo e, muitas vezes, ator decisivo, acicatadopelo agressor, o povo, é levado a unir-se ao governo e ao seu exército emsimples mecanismo de autodefesa, defesa de sua vida, defesa de sua gente, desuas crenças, de sua história.

Os iranianos, que os EUA viam como potenciais adversários doregime dos aiatolás, uniram-se em sua defesa, pois essa defesa passou aconfundir-se com sua própria defesa, pessoal e coletiva, a defesa da naçãocontra o invasor bárbaro, que prometia fazer retornar “à idade da pedralascada” a civilização persa, um fenômeno de mais de quatro milênios.

Sem descuidar de que a guerra ao Irã, travada pelos EUA epor Israel (mesmo consideradas motivações distintas), jamais pode ser vistacomo uma guerra-fim, posto que o alvo do imperialismo é a contenção da Chinacomo ameaça à sua hegemonia, a Casa Branca anunciou como objetivos imediatosdas operações presentes a derrubada do regime de Teerã, a ser substituído porum governo  “amigável”, com o qual, pordiversas vezes, foi veiculado, já estaria dialogando.

Nada disso se evidenciou, e o pouco do que se pode apurar donoticiário internacional que nos chega (notoriamente enviesado) é, em contráriosenso, o fortalecimento, no controle do regime, das alas mais conservadoras eradicais, do clero e das forças armadas, notadamente do Comando da GuardaRevolucionária Islâmica (IRG). E será com essa nova direção, que vem à tonamuito puxada pelos assassinatos seletivos de Israel, que os EUA terão deconversar, para acalmar seus aliados no Golfo e em todo o Oriente, que, como oPaquistão, repelem a guerra que destrói suas economias e desestabiliza seusregimes, em regra autocráticos.

De par com a crise imposta à ordem mundial, abalando aeconomia dos países com a expectativa de inflação e queda do PIB, os EUA,nesses quase dois meses de guerra, descontentaram velhos aliados políticos emilitares e desestabilizaram a OTAN, uma invenção da Guerra Fria. Ao cabo, masnão ainda por fim, revelaram-se aliados inconfiáveis, o que, para eles, épéssimo, seja na paz, seja na guerra.

De outra parte, ativa, mas comedida em falas e ações, aChina saiu incólume e respeitada pela sua postura cautelosa. A Rússia festejaos muitos ganhos com a alta do preço do petróleo. Ambos os países seapresentaram nos entremeios e no Conselho de Segurança da ONU como aliados doIrã, que conquistou, por quanto tempo e em quais condições daqui para a frentenão se sabe, uma poderosa arma econômica: o controle da navegação pelo estreitode Ormuz, que, para Teerã, não mais se configura, tão só, como instrumento debarganha para encerrar o conflito, passando a ser elemento permanente docenário pós-guerra.

Ou seja, da guerra que se sucederá, sejam quais forem seusmeios.

Como ensinou Clausewitz (Sobre a guerra) “Cada era tem suasformas peculiares de guerra, suas próprias condições restritivas epreconceitos”, ditadas, acrescentemos, pelo processo histórico, regente dastransformações sociais.

Chamado à ordem, o sionismo prometeu suspender os ataques aoLíbano, palavra que não foi honrada, sob o pretexto, pretexto para tudo, daguerra particular ao Hezbollah,  pretextopara tudo; mas até aqui, tudo indica que terá de ir a Whashington  na próxima semana para o início de uma rodadade conversas com  as autoridades deBeirute.

 O imperialismo nãologrou as façanhas que prometeu a si mesmo e anunciou ao mundo, e, uma vezmais, a história registra os limites da força bruta.

É justo, pois, celebrar a resistência e vitória tática doIrã, por pequena que ainda seja, pois sua sobrevivência já é façanha notável(como a brava e dolorida resistência de Cuba), representando não apenas a simesmo, mas a humanidade como um todo. A grande lição dos vietnamitas faz parteda história, nos campos de batalha em sua terra calcinada pelo napalm e pelosbombardeios da maior potência bélica do mundo, mas também esteve presente, vivae bela, nas ruas e nos espaços livres dos EUA daquele então, quando a defesa davida silenciou o apelo da morte.

Sem pretender estabelecer comparações que o processohistórico não permite, devemos, deve a esquerda, mesmo aquela sem intimidadecom a dialética, entender que o regime dos aiatolás, autocrata sim, teocratasim, hoje, ajuda a humanidade a manter viva, ainda que frágil, a chama daliberdade. E os EUA, dos filmes e canções que fazem nossos corações e mentes hámais de 80 anos, cantados e decantados em prosa e verso como baluartes dademocracia, são a promessa de atraso, por mais voltas que deem em torno da Lua.A vida é complexa.

O quadro que começa a se delinear não sugere areconfiguração do poder mundial, necessária para a paz e a sobrevivência dahumanidade, e muitos são os abalos sísmicos que nos aguardam. No mundo e naordem internacional, ou seja, segundo as alterações táticas e estratégicas quedarão o rumo das disputas das potências pela hegemonia, parece não mais haverespaço para sonhos como “convivência pacífica” entre ordens de poder diversas,ainda quando as diferenciações ideológicas ou de sistema sejam superficiais.

Moloch insaciável, nenhuma guerra leva à paz, qualquer queseja ela. A Segunda Guerra Mundial nasceu como butim do conflito de 1914–1919 eensejou o rastilho das guerras por procuração que marcaram a Guerra Fria,travadas sob o guarda-chuva da polaridade nuclear dos tempos que se findaramcom a autodissolução da URSS, abrindo caminho para o incontestado impérioplanetário do capitalismo, sob a regência dos EUA, assustados com aconcorrência da China na disputa pela hegemonia mundial.

É a Guerra Fria dos tempos presentes, que dita os termos dapaz e da guerra e move os cordéis das peças que se articulam mundo afora,enlaçadas como numa teia de aranha.

Nada disso nos pode ser alheio.

Por: Roberto Amaral.

*Com a colaboração de Pedro Amaral.

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