
A realidade de hoje é a de um mundo em guerra, aflito; ummundo de interrogações e receios, um presente de conflitos em série que nos faztemer o futuro. Até aqui, sugerindo-nos alívio, os senhores da guerra têmconseguido manter sob algum controle suas operações, e vêm mantendo mais oumenos circunscrito o teatro onde despejam bombas, matam civis, destroemcidades. Mas, ensina-nos a história, o rastilho de pólvora quase sempre realizaseu destino.
A guerra que os EUA, auxiliados pelas tropas do sionismo,promovem contra os palestinos, os libaneses e o povo iraniano — uma civilizaçãode mais de 4 mil anos que Donald Trump, perigoso criminoso de guerra à solta,prometeu fazer retornar à idade da pedra — integra uma estratégia maior, bemmais complexa, porque cuida da disputa com a China em moldes que lembram aGuerra Fria dos tempos do confronto URSS-EUA.
O conflito de hoje, porém, já pervade o mundo, caminhandopor outros meios, atingindo a economia em escala planetária: inflação, queda doPIB, concentração de renda, aumento da pobreza. Na outra ponta, oextraordinário crescimento dos orçamentos bélicos, anunciando o breve futuro.
A guerra de hoje compreende, além do cardápio clássico, osinumeráveis recursos da “guerra híbrida” e o papel da “internacionalneofascista” que, a partir da Casa Branca, lança mão de todos os instrumentos,meios e recursos disponíveis, quaisquer, legais ou não: embargos, boicotecomercial, sequestro de bens e recursos monetários, sabotagens, assassinatosetc., para alcançar seus objetivos.
A listagem não tem fim — e jamais nos esqueçamos dospréstimos da CIA e dos Marines.
Em nosso continente, que conheceu tantos golpes e ditadurasmilitares, já há o que registrar, e não é nada bom: a resistência aoimperialismo refluiu para os governos de centro-esquerda, hoje restritos, alémdo Uruguai, ao Brasil e à Colômbia, que enfrentarão eleições presidenciaisdesafiadoras no próximo semestre. Delas participará ativamente a internacionalneofascista, comandada pela Casa Branca, instrumentalizando a guerra híbridaque desde sempre se abate sobre nossos países.
O conceito de “guerra híbrida” compreende os meios que visama enfraquecer o adversário, sem necessariamente recorrer aos recursosconvencionais. Opera influenciando decisões estratégicas, redefinindoalinhamentos geopolíticos, por exemplo, as pressões visando a afastar o Brasildo bloco dos “não alinhados”, lá atrás, e agora as restrições aos BRICS e o mauhumor da Casa Branca olhando de viés para a presença da economia chinesa naAmérica do Sul e entre nós.
No plano geral, conhecem-se as sanções econômicas, aspolíticas de desinformação e manipulação da opinião pública utilizando os meiosde comunicação locais. Exemplos fornecidos pela conjuntura são o tarifaço deTrump e, em associação, as pressões pelo controle de nossas reservas de terrasraras, como foram, em anos passados, as maquinações contra a Petrobras e omonopólio estatal do petróleo, a que devemos hoje nossa sobrevivênciaeconômica. Mais recentemente, registre-se a sabotagem ao programa nuclear brasileiro.Há, sempre, interação entre atores externos e internos, como o sistemafinanceiro e as empresas de comunicação.
As dificuldades brasileiras visando à conquista do monopólioestatal do petróleo voltam à balha hoje, quando o país desperta para anecessidade estratégica de controle de recursos minerais críticos, como asterras raras, alvo dos interesses dos EUA e objeto do entreguismo larvar dadireita brasileira.
As discussões retomam o cantochão reacionário dos tempos dacampanha em defesa da Petrobras. Naquele então, a direita combatia a soluçãoestatal, que nos salvou, é preciso repetir; hoje, em nome de um neoliberalismocanhestro, rejeita a opção da estatal brasileira para a exploração das terrasraras e, ao mesmo tempo, defende o caminho livre para empresas estrangeiras,sejam estatais, sejam simplesmente apoiadas pelos governos de seus países.
A história mais uma vez se repete: permanecemos comofornecedores dos produtos primários de que as grandes potências carecem: seja oaçúcar, seja o ouro e a prata, seja o algodão, seja o café, seja o minério innatura. Fornecedores de matéria-prima, nos conformamos como importadores demanufaturados; assim cresce o agronegócio exportador de alimentos nãoprocessados — frango, carne bovina, soja, milho etc. — enquanto a indústriabrasileira de transformação vive anos de crise.
A exploração das terras raras no Brasil expõe um paradoxoincômodo. O país detém reservas abundantes e condições geológicasprivilegiadas, mas segue ocupando posição periférica na produção e, sobretudo,no processamento industrial — muito atrás de potências como China, EUA e atéeconomias emergentes que avançaram com estratégia e decisão.
Como observa Gilberto Sá (“Proposta para recriar uma cadeiaindustrial de terras raras no Brasil”), o potencial brasileiro é conhecido. O território reúne alguns dos maioresrecursos de elementos terras raras (ETRs) do mundo, distribuídos em depósitosprimários e secundários. Minas Gerais (Araxá, Poços de Caldas), Goiás (Catalão)e Amazonas (Pitinga) concentram ocorrências relevantes. Ali estão minerais quecarregam o futuro tecnológico: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio —insumos críticos para turbinas eólicas, veículos elétricos, eletrônicosavançados e sistemas de defesa. Em qualquer leitura séria do cenário global,trata-se de ativos estratégicos.
Ainda assim, o Brasil permanece à margem da cadeia de valor.E não por falta de capacidade, mas por ausência de decisão. Mais uma vez, olobby de grandes grupos — nacionais e estrangeiros, frequentemente indistintosem seus interesses — pressiona para manter o país na condição subalterna deexportador de matéria-prima. Exportamos o minério bruto; importamos, a preçoelevado, os produtos de alto valor agregado. Um padrão conhecido — e reiterado.
O momento internacional, no entanto, joga a favor de umainflexão. A concentração da produção em poucos países e as tensões comerciaisglobais abriram espaço para a diversificação das cadeias de suprimento. OBrasil poderia, se quisesse, afirmar-se como ator soberano nesse mercado,escolhendo parceiros e definindo sua inserção com base em interesse nacional —sem alinhamentos automáticos. Mas, outra vez, hesita. Outra vez, corre o riscode perder o trem da história.
Não se trata de um salto no escuro. O país já esteve nessecaminho. Ao longo do século XX, o Brasil desenvolveu uma indústria estruturadaem torno da monazita, produzindo concentrados de terras raras e dominandoetapas relevantes do processamento. Houve capacidade instalada, pesquisa,inovação. Produziam-se compostos industriais e avançava-se nas técnicas deseparação e purificação — num cenário em que poucos países detinham esseconhecimento.
Esse sistema foi desmontado. Indústrias foram fechadas,equipes dispersas, conhecimento acumulado dissipado. O que se perdeu não foiapenas produção, mas memória tecnológica.
Hoje, a fragilidade do setor não decorre de limitaçõestécnicas, mas de descontinuidade estratégica. O país sabe fazer — mas deixou defazer. Retomar esse caminho exige mais do que reconhecer o potencial: exigepolítica de Estado, coordenação entre mineração, indústria e meio ambiente, evisão de longo prazo.
A experiência internacional é clara: liderança não nasce doacaso, resulta de planejamento persistente. O Brasil, repito, já demonstrou quepode trilhar esse percurso. O que está em jogo agora é saber se haverá vontadepolítica para reconstruí-lo — ou se, mais uma vez, o país abrirá mão detransformar sua riqueza natural em soberania tecnológica e protagonismopróprio.
Hoje, o país se imola, incapaz de dar um passo à frente, queé a tomada pelo Estado da lavra, pesquisa, refinamento e aproveitamento deterras raras para seu próprio consumo, segundo seus interesses estratégicos, enão simplesmente atendendo às demandas de outros países carentes desse minério.Terras raras não podem ser tratadas como mais uma commodity, como o ferro-gusaque exportamos para a China, para dela depois importarmos lingotes e trilhos.
A tendência presente, lamentavelmente, é a abertura denossas reservas para a exploração industrial e comercial internacional, muitasvezes predatória.
Omite-se o Estado, avançam as multinacionais. É o caso danorte-americana USA Rare Earth, instrumento de política de Estado daquele país,recentemente reforçada com o acesso a USD 1,6 bilhão. Tudo tem sua causa e seuefeito: há poucos dias, a USA Rare Earth anunciou a compra da mineradora SerraVerde, localizada em Minaçu, Goiás, pela bagatela de USD 2,8 bilhões, comcontrato de 15 anos, seguindo instruções da Casa Branca, preocupada em reduzira dependência da China. Como informa o economista Diógenes Moura Breda(“Terrabras e as ideias verdadeiramente fora de lugar”, Carta Capital,21/04/2026), a empresa adquirida “opera a mina Pela Ema, único depósito deargilas iônicas de terras raras fora da Ásia capaz de produzir em escala osquatro elementos utilizados para a fabricação de ímãs permanentes (neodímio,praseodímio, disprósio e térbio), aqueles utilizados em veículos elétricos,aerogeradores, equipamentos eletrônicos e de defesa”.
As riquezas do subsolo brasileiro — jazidas e recursosminerais — não constituem mercadoria qualquer: são patrimônio inalienável daNação, pertencente à União, como consagra o artigo 176 da Constituição Federal.Às empresas mineradoras, inclusive às de capital estrangeiro, não se confere apropriedade dessas riquezas, mas apenas o exercício precário e condicionado deconcessões de lavra. Tais concessões, nos termos do Código de Mineração,subordinam-se de forma estrita ao interesse público e aos imperativos dasoberania nacional, podendo — e devendo — ser revogadas ou não renovadas sempreque contrariem os interesses superiores do país.
No caso das terras raras, em geral, e da mineradora SerraVerde em particular, está-se diante de ativos de inequívoco caráterestratégico, cujo controle não pode ser relegado às forças do mercado ou adecisões orientadas por interesses alheios ao desenvolvimento nacional.Trata-se de recursos decisivos para a autonomia tecnológica, a segurançaeconômica e a inserção soberana do Brasil no sistema internacional. Por isso,impõe-se sua submissão rigorosa a instrumentos de controle público, até que seinstitua um marco legal que as reconheça formalmente como minerais estratégicose assegure, de modo efetivo, sua gestão sob primazia do interesse nacional.
Entretanto, o cenário que se delineia caminha em sentidoinverso. Assiste-se, com crescente apreensão, ao avanço de um processo dealienação de um patrimônio que deveria ser resguardado como reservaconstitucional da Nação — um patrimônio cujo potencial para alavancar asuperação do subdesenvolvimento brasileiro é não apenas evidente, mashistoricamente decisivo.
Não se trata, como sublinha Breda, de atribuir às terrasraras o papel de panaceia de um projeto nacional — não o são. Mas tampouco sepode ignorar que sua entrega ao capital estrangeiro, em regime de exploraçãodesregulada, tende a reafirmar, de forma quase inexorável, a posição do Brasilcomo economia primário-exportadora, subordinada na divisão internacional dotrabalho.
Por: Roberto Amaral.
*Com a colaboração de Pedro Amaral.
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