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O Rei do Rio

O Rei do Rio

30/04/2026 15h48 Atualizada há 4 meses atrás
Por:
O Rei do Rio

Foto: Dimas Roque
Voltar a Copacabana depois de tantos anos foi como abrir umacaixa de lembranças que eu nem sabia que ainda guardava. O sol das três ecinquenta e três queimava a pele, derretia o corpo, e eu sentia o mesmo calorque me embalava nos anos 80, quando saía de Paulo Afonso, na Bahia, para meperder na imensidão dessa praia. O cheiro de maresia, o samba que escapava dasbarracas, tudo me devolvia à juventude, como se o tempo tivesse dado uma voltae me colocado de novo ali, de chinelo branco e coração leve.

Mas Copacabana mudou. Se antes os vendedores gritavam“milho, água, queijo assado!”, hoje disputam espaço com carrinhos de someletrônico, com capas de celulares à venda, com mulheres fazendo trançasimprovisadas nas cabeças das gringas. O mar continua o mesmo, mas o barulho daareia parece mais confuso, mais cheio de pressa. Eu queria ouvir apenas o somdas ondas, aquele vai e vem que sempre me lembrava que a vida é feita deciclos, mas a praia agora é palco de uma multidão que não para de inventarnovidades.

E no meio desse tumulto, quem reina é ele, o pombo. Overdadeiro dono de Copacabana. Passa por baixo das cadeiras, cata migalhasesquecidas, abre as asas com imponência e mostra o verde brilhante do pescoçocomo quem exibe uma coroa. Não pede licença, não se intimida. Enquanto todoscorrem atrás de alguma coisa, ele apenas vive o momento, arrulhando para asfêmeas, tentando conquistar um amor simples, sem contratos, alianças e nempromessas.

Olho para ele e penso que talvez seja isso que me faltavareencontrar, a liberdade de não precisar provar nada. Nos anos 80 eu era ratode praia, corria para o mar como quem corre para a vida. Hoje, mais velho,observo o pombo e percebo que a juventude não está apenas nas lembranças, masna capacidade de ainda se encantar com o banal. O Rei do Rio me ensina que abeleza de Copacabana não está só nas ondas ou no calçadão, mas na persistênciade continuar sendo palco de histórias, mesmo quando tudo muda ao redor.

Copacabana continua linda, mesmo com seus excessos, suascadeiras ocupando cada pedaço de areia e seus sons misturados. Porque a belezanão é só paisagem, é memória. E quando o pombo levanta voo, eu sinto que tambémlevanto junto, carregando comigo o passado e o presente, unidos pela mesmapraia que nunca deixou de ser meu lugar favorito.

Dimas Roque.

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