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Estranhos tempos mórbidos

Estranhos tempos mórbidos

10/05/2026 03h00
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 Estranhos tempos mórbidos

“O Brasil tem um enorme passado pela frente.”

– Millôr Fernandes

Com Antonio Gramsci aprendemos que “a crise [política]consiste precisamente no fato de que o velho morre e o novo não pode nascer;neste interregno, verifica-se uma grande variedade de sintomas mórbidos”.Trazendo a formulação do autor de Cadernos do cárcere para os tempos de hoje,talvez seja permitida a ousadia de afirmar que, em nosso caso, o novo não podenascer (ou é impedido de nascer) porque o velho permanece vivo, prometendo umahistória regressiva. Este velho, hoje, é o neofascismo revisitado — novaspalavras, novos meios — mas sempre regressivo, anistórico, autoritário.

São os estranhos tempos mórbidos, estes nossos.

A história presente — um presente mirando o caos, semensejar a visão de futuro imediato — pode ser vista como “ponto morto” (temposem promessa de avanço ou recuo) e já foi descrita como “intervalo histórico”.Nada obstante as tensões, sua característica não é, quase nunca, a mobilizaçãosocial. Trata-se de tempo de espera, indefinido, sem caráter. Está aberto asoluções regressivas (por sinal, é este, hoje, o cenário dominante na Américado Sul), que podem construir a ruptura democrática ou a continuidadeautoritária, jamais a revolução, projeto que comoveu as grandes massas noséculo passado.

Este espaço em aberto, ainda não identificado nemclassificado, é rico na proposição de impasses. É o quadro da ordeminternacional na corrida para o imponderável, que pode ser, até, a grandeguerra na qual apostam — ou parecem apostar — os EUA, deixando no seu rastro oavanço quase planetário da extrema-direita, causa ou efeito da regressãomundial das mobilizações populares, filha da crise do trabalho e, comodecorrência inevitável, filha da crise do sindicalismo e dos partidos deesquerda, nomeadamente dos partidos socialistas e comunistas ocidentais.

E sempre incumbe lembrar a lamentável e exemplar exaustão doPCI e do PCF, atingidos de morte pela debacle da URSS, em cuja sequência ospartidos comunistas que detinham o poder no Leste Europeu logo saíram de cena,e as insurgências revolucionárias foram aplacadas. Nesse sentido, aproximam-seEuropa e América do Sul com seus governos de direita, sob a regência dos EUA emguerra pela conquista do mundo.

A aventura nazifascista dos anos 30-40 do século passadomina qualquer sorte de surpresa.

Atribui-se a Mark Twain a boutade segundo a qual “a histórianão se repete, mas rima”. De outra parte, podemos dizer que, no Brasil, ela érecorrente. Em qualquer hipótese, será sempre um óbvio rodrigueano afirmar queo processo político é conduzido pelas alterações das circunstâncias históricas.Com ele trabalhamos. A cada alteração da correlação de forças — sobre a qualatuam os homens e as instituições — corresponde uma nova etapa histórica.É  consabido. 

A etapa de hoje conjuga a crise do capitalismo (um sistemaglobal financeirizado e oligopolista) à expansão do imperialismonorte-americano. Vivemos o rescaldo da frustração contemporânea das promessas eesperanças dos governos de centro-esquerda e sociais-democratas nestasprimeiras décadas do século, decaídos na armadilha do neoliberalismo: ajustefiscal, regime de metas de inflação, câmbio flutuante (implicando maiorexposição aos fluxos financeiros internacionais, reduzindo a margem de manobradas políticas econômicas nacionais), contenção dos gastos sociaisindispensáveis etc. Uma política econômica no contrapelo de promessas ecompromissos de campanha. Seu efeito óbvio, na esteira da desilusão social, foipreparar o terreno para a ascensão de governos de direita e extrema-direita.

Alguns meros indicadores: os governos de Dilma Rousseff,Cristina Kirchner, Michelle Bachelet, sucedidos como foram, e ainda de FrançoisHollande, abrindo o espaço que seria ocupado pelo avanço de Marine Le Pen; e,nos pouco auspiciosos termos de nosso processo político, as dificuldades doatual governo Lula e o temor de grave retrocesso político-histórico naseleições de outubro próximo.

Como sempre, a desilusão social, agora como nas primeirasdécadas do século passado, na Europa e no mundo, abre um vazio políticoprontamente ocupado pela direita, como foi o caso das eleições de Javier Mileie Jair Bolsonaro, que emergiu da insignificância política para a liderança daextrema-direita brasileira.

A crise das experiências de centro-esquerda nestas primeirasdécadas do nosso século revela um desvio político-ideológico. Eleitos sob osigno da mudança, nossos governos submeteram-se (por força das contingências oudespreparo estratégico) aos marcos do neoliberalismo. O que se se segue, sãosuas consequências. E as consequências sempre vêm depois, como lembrava oeçaniano Conselheiro Acácio.

É preciso registrar que a ameaça neofascista emerge em ummundo no qual as insurgências proletárias, socialistas revolucionárias, de ummodo geral, estão em recesso, e a humanidade já não dispõe, como dispôs nopassado (os anos de confronto com o Eixo), do concurso da URSS e de uns EUAcomprometidos nalguma medida, como estavam naquele então, com promessasdemocráticas. Ante o colapso da Europa, foram esses países que ganharam paranós a guerra. Hoje, as novas circunstâncias históricas nos lembram que a URSSjá não existe e que os EUA, na guerra sem limite de meios pela conservação daliderança mundial, ameaçada, são o farol e o motor do novo fascismo.

No Brasil, a extrema-direita cresce ineditamente (anos-luzpara além dos sonhos do integralismo nos anos 1930, namorando o Estado Novo etentando desestabilizá-lo, como em 1938) como movimento de massas, oferecendobase popular à construção do projeto regressista. Nada justifica a alegativa desupressas, pois a onda que inundou a praia em 2018 já se vinha anunciando desdeo difícil processo eleitoral de 2014 e a reeleição de Dilma Rousseff, com osdesdobramentos conhecidos e a infâmia do impeachment farsesco.

É nesse limiar que, do baixo ou baixíssimo clero, emerge ese fortalece o “bolsonarismo”, que passa a oferecer base popular para oneofascismo tupiniquim, em marcha, a partir principalmente do governo títere dovice perjuro, feito presidente pela tramoia da cassação do mandato dapresidente.

A regressão, fenômeno político posto em forma por umsem-número de causas e concausas, tanto conhece os efeitos da crise da esquerdade um modo geral, quanto da falência do neoliberalismo, do qual nossos governosnão lograram fugir ou resistir, vencido o discurso programático pelarealpolitik, que impõe todas as concessões necessárias como contrapartida dapura e simples conservação do governo, ainda quando o poder escapa das mãos dogovernante.

A arte de governar se confunde com a arte da conciliação,regra irrevogável de nossa história política, projeto da classe dominante parase manter no poder. É a chave para entender o Brasil e o drama de hoje.Certamente o mal de origem, para lembrar Manoel Bonfim.

O drama da esquerda reformista, ante o recesso da esquerdasocialista, no Brasil e não só aqui, é o preço cobrado à adoção  da conciliação como estratégia, e não comotática, como ela é recepcionada no jogo da política. Autonomizada, elevada aoplano de sujeito, jamais serviu seja para o avanço dos interesses das grandesmassas, seja para a consolidação democrática, processo que jamais se conclui empaís permanentemente à espera de um futuro que, dele, desgraçadamente, mais seafasta, quanto dele mais intenta aproximar-se.

Seja como for, a política de conciliação como projeto denação parece já ter dado os poucos frutos que poderia oferecer e se apresenta,hoje, esgotada, devendo ser declarada perempta.

A difícil eleição de Lula em 2022, a intentona de janeiro de2023, a difícil sustentação político-parlamentar do governo (exposta emsucessivas derrotas na Câmara e no Senado) não devem ser vistas como fatosisolados e muito menos como fenômenos “fora da curva”. Nesse contexto é quedevemos considerar a rejeição, pelo Senado, ao procurador Jorge Messias,indicado pelo presidente da República para uma vaga no STF. Trata-se de fatoinstitucionalmente grave, é verdade, no entanto, não deve ser visto, isoladamente,como mais uma “crise”, senão como estilhaço da grande crise republicana denossos dias.

Ponto final de uma trama de forças convergentes, nenhumacrise é um fato em si, historicamente isolável; jamais é um episódio, massempre um processo. Conquanto grave do ponto de vista institucional, a máconduta do Senado não configura nem ponto de partida nem ponto de chegada.

Na história, águas passadas movem moinhos.

Vejamos.

Ainda lendo Gramsci, sabemos que o momento crítico nãoinaugura a crise, apenas torna visível aquilo que já se vinha acumulando nasprofundezas da estrutura social, muitas vezes imperceptíveis aos sonares doscientistas sociais: tensões latentes, fissuras no consenso, deslocamentossilenciosos. Nesse sentido, nenhuma transformação política se explica por umfator isolado, senão pela lenta e muitas vezes imperceptível alteração da correlação de forças entre as classes, queredefine os limites do possível.

As rupturas não irrompem como acidentes súbitos, nem sedeixam atribuir a um evento singular, próprio; respondem ao desfecho de umdesgaste progressivo e cumulativo das formas de direção política, quando ahegemonia (no sentido gramsciano) se rarefaz e o comando já não lograorganizar, nem intelectual nem politicamente, o conjunto social. É quando, semse dar por si, o sistema “envelhece”, o que, em texto anterior, denominei“fadiga de materiais”. Nosso discurso e nosso projeto permanecem coerentes com osmarcos de sua origem, mas as circunstancias politicas se alteraram.

Já é tempo de a esquerda (e o nosso governo) ter consciência— para daí agir — de que as eleições de outubro podem significar mudanças maisprofundas do que a simples troca da regência do Planalto.

***

Isso é natural? – Entre os elementos mais perturbadores daatual quadra histórica destaca-se a naturalização do absurdo. Senão, vejamos: oatual líder do regime estadunidense apoia um genocídio, sequestra um chefe deEstado (assassinando, para tal, cerca de 100 pessoas), fabrica uma guerra que –para além do morticínio inaceitável – desestabiliza a geopolítica global,utiliza tarifas como arma e distribui achaques e insultos até mesmo aos aliadosmais tradicionais. Apesar disso tudo, livre de qualquer sanção, é agraciado como “Prêmio da Paz” da FIFA e tratado com subserviência: por exemplo, a próximareunião do G7 (prevista para ocorrer em Évian-les-Bains, na França) teve suadata alterada, pois em 14 de julho Trump organizará um evento de artes marciaisna Casa Branca. Não bastasse, os EUA sediarão, em dezembro, a próxima cúpula delíderes do G20 – foro que Washington cuida de esvaziar –, em local que consistenuma verdadeira explosão semiótica: o complexo hoteleiro e clube de golfe TrumpNational Doral, em Miami, Flórida. Mais que nunca, lembremos o pedidoinsistente de Bertold Brecht: “Nunca digam – isso é natural! – diante dosacontecimentos de cada dia.”

A ida ao bunker – Nesse contexto, a recente visita dopresidente Lula à Casa Branca, cujos elementos ainda não são de todoconhecidos, apresenta sinais diversos, contraditórios entre si, abertos adiversas interpretações. Se o meneio que o chefe de Estado brasileiro precisafazer a um líder como Trump reflete o cenário distópico dos nossos dias, écerto também que a aparente urbanidade com que se desenrolou o encontro ofertaboas lições à extrema-direita nativa e aos jornalões que lhe servem de retaguardatática, sempre cobrando covardia do governo do Brasil – caso especial de OGlobo. Neste sentido, Lula foi cirúrgico ao declarar, na entrevista após oencontro, na Embaixada brasileira: “Não se pode exigir uma guerra contra ocrime organizado enquanto o principal mercado consumidor, financeiro e dearmamentos do hemisfério continuar a alimentar a estrutura empresarial [docrime].” Resta, contudo, saber se essa firmeza e altivez se estenderam aosdiálogos com os norte-americanos sobre outros temas sensíveis, como o dosminerais estratégicos.

Por: Roberto Amaral.

Com a colaboração de Pedro Amaral.

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