Na propaganda, Salvador cabe num voo de drone sobre a orla. Para quem mora nela, a cidade começa no chão: na calçada inexistente, no buraco que obriga o pedestre a entrar na pista, na rua sem árvore, no posto de saúde distante e na escola que permanece como promessa. Depois de mais de 13 anos sob o comando do mesmo grupo político, essa experiência administrativa, construída por ACM Neto e continuada por Bruno Reis, é apresentada por Neto como modelo para governar a Bahia.
Nada do que está escrito aqui é segredo. Todos os dados foram obtidos por meio de pesquisas abertas na internet. Qualquer cidadão pode digitar no Google, ou em qualquer outro buscador, os nomes do IBGE, do Inep, do Todos Pela Educação e dos próprios relatórios da Prefeitura de Salvador para conferir as informações.
O Censo 2022 do IBGE revelou que 43,6% dos moradores de Salvador viviam em ruas sem calçada. O percentual corresponde a aproximadamente 1 milhão de pessoas e coloca a capital baiana na pior situação entre as capitais brasileiras. Em 2010, a parcela era de 37,4%, o que indica uma piora do indicador ao longo do período.
Mesmo nas vias onde existe passeio, circular nem sempre é fácil. Cerca de sete em cada dez moradores convivem com buracos, desníveis, raízes expostas, postes ou outros equipamentos instalados no caminho. O problema afeta de forma mais severa idosos, pessoas com deficiência, famílias com crianças pequenas e todos aqueles que dependem da caminhada para cumprir atividades básicas.
A arborização também piorou. Salvador aparece como a segunda capital menos arborizada do país, com 65,6% da população morando em vias sem uma única árvore. Em 2010, o índice era de 60,4%. Numa cidade marcada por temperaturas elevadas, o déficit amplia a exposição ao calor, reduz as áreas de sombra e limita os benefícios ambientais da vegetação urbana, entre eles a retenção de partículas poluentes.
As dificuldades começam nos primeiros anos de vida. O Panorama do Acesso à Educação Infantil, elaborado pelo Todos Pela Educação com dados da Pnad Contínua de 2024, estimou que somente 31% das crianças de zero a três anos frequentavam creche em Salvador. A taxa nacional era de 41,2%.
Outras 26,1% estavam fora das creches por falta de vaga, distância ou recusa do estabelecimento em razão da idade. Salvador apresentava o quinto maior percentual estimado entre as capitais. Embora o levantamento reúna as redes pública e privada, o resultado dimensiona uma demanda que a política municipal de educação infantil ainda não conseguiu atender. A escassez de vagas interfere diretamente na renda das famílias, sobretudo na vida profissional das mulheres, que assumem a maior parte dos cuidados.
O desempenho da alfabetização expõe outra fragilidade. Em 2024, apenas 36,8% dos estudantes do segundo ano da rede municipal de Salvador foram considerados alfabetizados. A média das capitais e dos grandes municípios chegou a 55,6%; no conjunto do Brasil, ficou em 59,2%, segundo levantamento do Todos Pela Educação baseado em dados do Inep.
Isso significa que quase dois terços dos alunos avaliados encerraram o segundo ano sem alcançar o padrão esperado de leitura e escrita. Quanto mais tarde ocorre a alfabetização, maiores são as dificuldades para acompanhar as demais disciplinas e avançar na vida escolar.
Na saúde, documentos da própria administração municipal expõem limites que não aparecem nas campanhas publicitárias. O Plano Municipal de Saúde 2026–2029 registra cobertura de 66,6% na Atenção Primária, responsável pelos postos e pelas equipes de saúde da família.
O Relatório Anual de Gestão de 2025 mostra resultado ainda mais baixo no atendimento odontológico. A Prefeitura havia estabelecido a meta de alcançar 58% de cobertura, mas chegou a 42,57%. A insuficiência sobrecarrega unidades, prolonga a espera por consultas e faz com que parte dos pacientes procure atendimento somente quando os problemas já estão agravados.
A maternidade municipal é um retrato da distância entre o anúncio e a entrega. ACM Neto prometeu construir o equipamento durante a campanha de 2012. Sete anos depois, em 2019, a Prefeitura ainda informava que estudava o projeto e alegava limitações orçamentárias, conforme registrado pela imprensa.
A primeira maternidade municipal de Salvador foi inaugurada somente em 16 de abril de 2026, com 198 leitos. Entre a promessa eleitoral e a abertura da unidade transcorreram quase 14 anos.
O atraso também marca a renovação do transporte coletivo. Em julho de 2012, quando ainda disputava a Prefeitura, ACM Neto prometeu colocar ônibus com ar-condicionado à disposição da população. No início de 2026, aproximadamente 700 dos 1,7 mil veículos da frota eram climatizados, pouco mais de 40% do total.
A universalização do ar-condicionado foi transferida para 2028. Enquanto isso, a passagem chegou a R$ 5,90. Caso o novo prazo seja cumprido, a promessa feita em 2012 terá levado 16 anos para alcançar toda a frota.
O caso da Escola Municipal do Curralinho acrescenta um componente ainda mais grave. Anunciada em 2021 para atender crianças autistas, a unidade deveria ter sido entregue em 2023, mas permanecia inacabada em 2026. A Câmara Municipal de Salvador informou que R$ 12,5 milhões haviam sido destinados ao projeto.
Em junho, a Prefeitura rescindiu o contrato com a Nordeste Engenharia. Três dias depois, firmou novo contrato de R$ 6,75 milhões com a mesma empresa, sob o argumento de que o procedimento permitiria concluir a obra. Posteriormente, a gestão municipal informou que os trabalhos haviam sido retomados. As famílias aguardam a escola há mais de três anos.
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