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Sob o Sol do Raso da Catarina

Sob o Sol do Raso da Catarina

13/01/2020 10h16 Atualizada há 7 anos atrás
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Sob o Sol do Raso da Catarina

 Foto ilustrativa: 100dias.com


Desde criança que eu ouviahistórias do Raso da Catarina. As primeiras imagens que me lembro são de quealguma mulher muito rica, que tinha um grande pedaço de terras e por isso eratão conhecida, já que muitos adultos falavam sobre ela. A proprietária dafazenda que deu o nome as terras, dizem, teria permanecido, mesmo com todas asdualidades na região, até os últimos dias de sua vida por lá.

Também foi na infância que eutive o primeiro contato com as “terras da Catarina”. Certo dia saímos, eu, meuirmão “Danda” e vários amigos para caçar passarinhos no mato. Como semprenesses momentos, eu era o mais novo entre eles e por isso, minha tarefa eramais a de pegar “balas” (pedras que servissem para serem usadas nas petecas oubaleadeiras).


Nós passamos a manhã andandopelo mato. E enquanto andávamos, eu ouvia uma palavra estranha, mas que memarcou até hoje. Constantemente alguém falava, que estávamos chegando no“Ariado”. Era uma parte do raso onde a terra é fofa e a vegetação, quase todaela, é formada de velame. Daí vem o nome. Para os menos experientes, adesorientação é certa. Era comum se ouvir os gritos de alguém que teria seafastado do grupo e estava desorientado, perdido.

Também ouvi histórias sobreAntônio Conselheiro e seus seguidores. Ele fundou o Povoado de “Belo Monte”, asmargens do Rio Vaza Barris, hoje cidade de canudos. Foi esse povoado o primeirolevante no Brasil contra o pagamento de impostos aos municípios determinadospelo governo federal no ano de 1893. Nasceu lá, o primeiro movimento rebelde eque depois, ataco pela polícia, se tornaram os primeiros guerrilheiros dasAméricas.

Vem do raso também, outrashistórias de lutas e enfrentamentos. Quem circulou durante um longo período desua vida por lá, foi Virgulino Ferreira, o Lampião. Diz uma das lendas que elepassando por Macururé, uma das cidades encravadas na área e teria pedido paraque um sapateiro fizesse alpargatas “Xô Boi” com os calcanhares delas voltadospara a frente. Era, segundo dizem, para enganar “Os Macacos’, como eramchamados pelo bando os policiais da época.

Já adulto, eu voltei a algunspovoados que ficam dentro do raso. Eram andanças em períodos de campanhaeleitoral. Aconteciam reuniões, bate papos e pequenos comícios, sempre aosdomingos, que é quando as populações destas localidades estão mais presentes.

Este ano eu fui convidado porum amigo, o Josivaldo, para visitar o Povoado várzea em Paulo Afonso na Bahia.Da saída da cidade, até o local que fica dentro do raso, gastamos 1 hora e meiaem um carro Uno da marca Fiat. Toda a estrada é em terra batida. A poeiraquando da passagem do carro é tão espessa e volumosa que por minutos nosafastamos e não se consegue ver nada.

É neste clima de deserto que,já a mais de um mês, todos os sábados vamos ao Povoado.

No primeiro dia ao chegarmoslá, já estavam embaixo de dois pés de algoroba grandes, dois senhores nosesperando para uma prosa. A recepção que tivemos foi a mesma de quando chegamospara visitar algum parente mais chegado. Foi cheia de apertos de mãos, abraçose sorrisos. Estávamos entre amigos.

Também foi no primeiro dia queme veio à cabeça a pergunta, “como esse povo consegue viver em terras tãoáridas e de difícil cultivo?”. Não tenho a resposta. Mas percebi que aquelacomunidade, hoje um Povoado com centenas de residências, vive no seu mundo efeliz.

Me surpreendeu o som dospássaros. Que a muito eu não ouvia na cidade. A presença de galos de campina(Paroaria dominicana), rolinha (Columbina picui), e pardais (Passerdomesticus). Mas o canto das Maracanâs (Primolius maracanã) que me encantaram.Eram muitas. Elas sentavam nas arvores perto de onde estávamos. E enquanto aconversa comia solta, eu não parava de olhar aqueles pássaros e suas cores.Ainda há vida no raso. Há pessoas e pássaros que teimam em desafiar as maisduras condições de sobrevivência. Eles vivem em um mundo onde todos os diascomemoram a existência da vida, mesmo com tantas adversidades.

Ser Nordestinos é só para osfortes!
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