Meu pai tinha construindo umacasa, onde viemos a morar por volta de 1973, perto daquelas construções. Elasficaram abandonadas, sem terem seu termino durante um longo período. E era emalgumas delas que muitas vezes foram encontrados corpos de homens e mulheres.
Paulo Afonso já foi uma cidademuito violenta. Nela já passaram alguns dos criminosos que ficaram famosos empáginas de jornais da Bahia. Todos eles vindo de outras cidades. Alguns embusca de se esconderem de crimes já praticados, outros tentando a sorte emempregos nas empresas que construíram as hidrelétricas do complexo Chesf –Companhia Hidrelétrica do São Francisco, mas que enveredaram pelo submundo.
Como a frente da casa do meupai, Argemiro Roque, que fica até hoje na esquina da Rua Duque de Caxias, erauma mercearia e nela havia a venda de bebida alcoólica em dose, no bom estilode Bodega, as conversas aconteciam mesmo no balcão ou na calçada, onde ficavamvárias pessoas sentadas nos batentes a jogar conversa fora. E era assim quebrincando, ou sentados ao lado daqueles adultos, íamos sabendo das coisas dodia a dia da Vila Poty.
Policiais também apareciam porlá para tomar uma pinga e se misturavam com as pessoas. Quando eles apareciamse fazia um silêncio arretado entre todos. Ninguém ousava puxar qualquerconversa. Alguns se levantavam e saiam do local para retornar só depois. Haviaum clima de medo no ar.
Algumas das vezes eram dospoliciais que sabíamos notícias do que acontecia na cidade. E foi em uma dessasque ouvimos a história, em tom jocoso, de policias que estavam acompanhando oTenente Cariri, de que tinham encontrado um homem em uma “carroça de burra” comuma carrada de pedras e sentado nelas. O peso era tão grande que o animal nãoconseguia subir a ladeira. E o homem bateu forte com seu chicote, até que oanimal arrimou.
Nesta hora da narração dahistória o semblante de Cariri ficou paralisado e mostrava raiva. O soldadodisse que, o Tenente quando via a cena, pediu para parar o Jeep e ficouolhando. Quando o animal arriou por não conseguir arrastar a carga e o homemdescer e começar a bater ainda mais, se ouviu o grito, “pare!”
Foi tão alto, que moradoressaíram das suas casas para ver o que estava acontecendo. Cariri então teriaperguntado se o dono do animal achava correto o que estava fazendo. E ouvi aresposta de que o bicho bruto era para isso mesmo, carregar peso.
Naquele momento, Cariri pediupara os policias ajudarem a retirar o animal da carroça e colocar os arreios nodono. E foi feito como ele pediu. Enquanto o homem assustado parecia nãoentender o que estava acontecendo. O tenente pegou o chicote, mandou soltarem acarroça e viu aquele corpo humano arriar com o peso. Foi quando se viu a imagemque até hoje é contada pelos mais velhos da cidade. O policial batia com tantaforça no espinhaço deitado no chão, enquanto dizia, “levante, arraste...”. Acada chicotada que o homem levava, se ouvia gritos que ecoavam por várias ruase pedidos de clamor para que se parasse aquela tortura.
Cariri deu uma olhada de ladoe a história foi interrompida no mesmo instante. Ele gostava de ouvir músicas deVicente Celestino, e sempre pedia para que fosse colocado o disco para elequando aparecia para tomar uma Casca de Pau com seus comandados.
É verdade, mataram um e deixaramoutro amarrado para amanhã. E a conversa como começou, terminou e aqueleshomens foram embora. E os que ficaram, se olhavam uns aos outros até que seouviu, “bota mais uma cachaça que é para espantar os coisa ruim”.
Ser criança em um mundo como esseme fez, já adulto, um contador de histórias. As vezes sento com os meus filhose relembro algumas delas. E lembro quando a minha mãe, Regina Roque, colocavauma lona na calçada de nossa casa a noite e contava tantas outras. Ela falavade Reis e Rainhas, de sonhos que nunca viveu, mas que gostaria de ter vivido.
No sertão, as histórias vão evem com o passar do tempo.