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Tá na internet: Por que o "MERCADO não derruba Bolsonaro?

Tá na internet: Por que o "MERCADO não derruba Bolsonaro?

12/02/2021 08h33 Atualizada há 6 anos atrás
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Tá na internet: Por que o


Querida Vera Magalhães. Eu li seu artigo de hoje, no jornalO Globo. Penso que você está expondo, honestamente, sua preocupação com oimobilismo da elite econômica diante do governo genocida e autoritário deBolsonaro. A turma da Faria Lima, como você a chama, parece não tersensibilidade alguma diante dos números de mortos e da queda do atualpresidente nas pesquisas de opinião. E aí você tenta explicar para o mercadoque retirar Bolsonaro seria melhor para a democracia, para a vida de todos nóse acusa-os de covardia. É compreensível e razoável sua indignação moral comojornalista e cidadã, ainda que você tenha sido negligente quando os avisosforam dados de que Bolsonaro seria uma tragédia para a ordem liberaldemocrática. De igual forma, você não percebeu que a derrubada de Dilma Roussef— agora já entendeu que não foi por pedaladas fiscais? — era só o começo daerosão do Estado democrático de direito que nasceu com a Constituição de 1988.Mas tudo bem, não quero ficar preso ao retrovisor. Você errou e eu erro também,né? Permita-me sugerir uma explicação simples, mas que considero profunda,radical, posto que ela tenta desvendar os mecanismos latentes sem ficar presaao que é manifesto e visível. É preciso olhar para as estruturas se nãoqueremos ficar ingenuamente patinando sobre os dados de superfície. Não é coisafácil, mas proponho que pense o seguinte. Todas as democracias eleitorais (vocêpode chamar de poliarquias, oligarquias eleitorais, democracia liberal, comoquiser) são estruturas jurídico-políticas que administram as demandas sociaisconflitantes numa sociedade de mercado (não vou te aporrinhar com sociedade declasses, sei que você considera esses termos barrocos demais). Essa gestão dopolítico, pelo Estado, que chamamos de democracias eleitorais, não estão naposição de árbitro desinteressado na partida. Ela não paira acima dos conflitossociais concretos. Em outras palavras, nas democracias eleitorais encontramosoutro poder que se utiliza dos seus mecanismos, reforça-os quando necessário ougolpeia-os quando se faz urgente. Este outro poder são as diversas frações daburguesia, perdoe-me, das elites econômicas (setores financeiros, comercial,industrial e agronegócio). São essas elites econômicas, querida Vera, que emúltima instância sustentam ou não os governos nas democracias eleitorais. E asForças Armadas são os seus braços repressivos, os cães usados em situaçõesemergenciais, e os chamo de cães sem querer ofender. É apenas uma metáforapolítica. Você deve estar se questionando. E os políticos? E o Congresso? Sim,os políticos existem, mas eles não formam uma classe, não são alienígenasdentro do conflito social existente. Sei que é comum no jornalismo falar emclasse política, mas na verdade, os políticos são vinculados concretamente a estessetores sociais em conflito na sociedade de mercado. Em outras palavras, ospolíticos não representam a si mesmos, suas consciências livres e atomizadas,mas sim os interesses sociais e econômicos que o elegeram e o sustentam lá noParlamento, seus vínculos orgânicos com o social. Percebe isso, Vera? Não poracaso, dizem os especialistas, quase 90% do Congresso Nacional é formado porempresários ou tem com estes ligações íntimas de vassalagem. Eles nãorepresentam o povo, mas a FIESP, CNI, FEBRABAN, CNA (agronegócio) etc. É porisso que a turma da “Faria Lima” não irá, neste momento, derrubar Bolsonaro.Eles avaliam que o beócio mata, mas está garantindo lucros maravilhosos para osbancos, para os donos do capital. Não vou colocar os dados aqui porque você,como boa jornalista, poderá levantá-los com facilidade. É verdade que a pequenaburguesia (perdoe-me o jargão mofado, leia aqui classe média tradicional) andadesesperada. Reduziu a grana e suas médias e pequenas empresas estão falindo oufaliram. E nem podem ir para os EUA descansar. É chato viver aqui o tempo todo.Também é verdade que a maioria dos jornalistas imploram todos os dias, atravésda grande mídia, que Bolsonaro seja afastado. Você questionou os senhores queassistem covardemente crimes, mentiras e autoritarismos da turma do Alvorada enada fazem. Só que isso não é possível, pelo menos, por enquanto. Presteatenção.

O governo Bolsonaro goza de apoio entre os ricos (eu iraescrever burguesia), tem algumas antipatias na classe média (o pessoal doSérgio Moro, Luciano Huck, Doria e arrependidos como Mandetta são ícones) que oconsidera incivilizado e, se o governo dele aprovar o novo auxilio emergencial,poderá recuperar algum apoio no subproletariado (você os chama de os maispobres). Eu sei que o proletariado (trabalhadores de carteira assinada, grossomodo) sofre com este desastre, mas não está organizado (lembre-se da destruiçãodas estruturas sindicais no governo Temer?), nem mobilizado para fazer frenteao bolsonarismo. Além disso, está desesperado e com medo de perder o emprego.São milhões e milhões e milhões de pessoas sem emprego Vera, sem nada. Oresultado é este imobilismo que você percebe, mas não por covardia do mercado,das elites que nada fazem para deter Bolsonaro. Não é um problema moral, mas setrata de questões objetivas, muito concretas Vera. A turma do mercado não temrazões para derrubar um governo que lhe garante ótimos lucros. Simples assim.Sei que muita gente está morrendo, mas como diz o pacóvio: E daí? A lógica do mercadonão se dá por ladainhas éticas, mas por interesses concretos. E sem o apoio domercado, Bolsonaro permanecerá presidente. Se é que não será reeleito. Gostevocê ou não. O Centrão é apenas a face visível desta turma que joga com atragédia, lucra com a morte e extorque dinheiro de governos fracos. Só temprofissa nesse ramo. Você ainda não está satisfeita e me questiona sobre o povonas ruas, as forças de oposição, mas permita-me encerrar esta carta pública comduas notas. O que você chama de forças de oposição, salvando uns e outros docampo de esquerda, que não chega a 100 parlamentares, é uma piada Vera. Veja aderrota acachapante para os candidatos bolsonaristas no Congresso. Além disso,você foi uma que contribuiu com a desmoralização das forças de esquerda,lembra? Mas tudo bem, prometi não ficar no retrovisor. Deixemos isso de lado evamos nos unir contra o fascismo, certo? Quanto ao povo, em sentido amplo, estálutando para sobreviver neste momento, sonhando com a vacina e rezando para quealgum dinheiro surja para ir no mercado comprar um saquinho de arroz. Écomplicado exigir mobilização política de quem está em condições desumanas. Seas forças políticas mais consequentes não se organizam, não conseguem criarunidade para a ação coletiva, a massa amorfa de pessoas não sairá dosobrevivencialismo para fazer passeatas. E Bolsonaro? Bem, ele continuaránadando de braçada com a ajuda da maioria do Congresso e dessa turma que vocêchamou de Faria Lima, pois o governo é deles, os lucros são ótimos, o BancoCentral segue a receita, as Bolsas estão bombando e há muito orçamento públicoa ser repartido. Mesmo que você grite todas as segundas em sua coluna dejornal, por que eles iriam derrubá-lo para colocar o abestado e ardilosoMourão? Para que correr esse risco se o palhaço mantém os lucros? Não se tratade fé, Vera Magalhães! Essa turma serve ao deus-mercado e não aos princípiosrepublicanos que você julga ter. Compreenda isso. Peço que me perdoe ter tomadoo seu tempo, caso você tenha lido, mas é que eu senti honestidade na suaindignação e penso que poderia lhe fornecer estas pistas para sua compreensãodo jogo democrático, sem nenhuma pretensão de verdade ou lacração, como dizemos jovens. Sei que posso estar errado, tenho consciência dos meus limites, maste digo uma coisa. Aquele barbudo do século XIX ainda nos fornece bonsinstrumentos analíticos. Assim penso. E você? Receba meu abraço carinhoso erespeitoso...

Tá na internet:

Por Marcio Sales Saraiva.

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