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Dóris me levou para conhecer o Caetano

Dóris me levou para conhecer o Caetano

07/03/2021 20h35 Atualizada há 5 anos atrás
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Dóris me levou para conhecer o Caetano

O ano era o de 1997, acho. Nunca fui bom de guardar datas,tanto que em uma delas esqueci o meu aniversário, e quando voltei para casa ànoite, os amigos e amigas que não tinham ido embora, estavam dormindo espalhadospela sala. Era uma festa de aniversário surpresa. Mas o assunto hoje não ésobre isto, é sobre o convite que recebi da amiga Dóris Abreu para ir conhecerCaetano Veloso em Salvador. 

Ela, naquele ano, trabalhava com Gilberto Gil na FundaçãoGregório de Matos na capital baiana. Dóris sabia que eu tinha toda a coleção deLP (Long Play) do Caetano e que gostava muito de suas canções. Ele é padrinhode um dos filhos dela com Tuzé de Abreu, que já foi seu músico do cantor. E foipor isso, que tive a oportunidade.

Recebi uma ligação e no outro dia eu já estava na estrada,indo de Paulo Afonso a Salvador. Saí logo pela manhã e seis horas depois fuidireto à fundação onde a encontrei, e fui apresentado no corredor dainstituição a Gilberto Gil. Dóris fez uma ligação e recebeu a informação de queCaetano estava na praia do Porto da Barra, mas que chegaria logo. Decidimosesperar uma meia hora, e seguimos ao encontro. 

Chegando à Avenida Adhemar de Barros, na casa em que Caetanoestava, e no muro estava escrito, “Caetano leu (nome o livro)” e embaixo alguémescreveu, “e não gostou”. Aquilo foi um choque. Como uma pessoa poderia fazeraquilo com um escritor? 

Fomos recebidos na porta por Paula Lavigne e Caetano. Osdois foram bem receptivos. Ele mostrou um óculos que teria comprado em umaviagem ao Japão. Estava impressionado como a armação que se dobrava toda. Dóriselogiou, e fomos convidados a entrar. 

Tinha uma roda de conversa na varanda no fundo daresidência. Nela estava, entre outros, Waly Salomão, um dos poetas maisbrilhantes que já nasceu na Bahia e com seu vozeirão e sua risada, tomava contadas conversas. 

Pouco tempo depois de estarmos ali, calados e ouvindo, Dórischamou Caetano para autografar os discos. Ele no primeiro momento achouinteressante que alguém tivesse toda a coleção e tão bem conservada. Cada discoestava dentro de um envelope plástico duro que conservava as capas e osLPs. 

Começou autografando o “Caetano” de 1968, seguiu no“tropicália”, se deparou um pouco na capa de transa olhando antes deautografar. Achou interessante eu também ter “Arara Azul”, disco experimental eque eu gosto até hoje de ouvir. Teve um momento que ele disse, vou autografartodos? E sorriu! Até hoje me culpo de não ter dito na hora, “escreva uma poesiadividida em cada capa”. 

Ao ver os dois LPs de “bicho”, o primeiro com ele, suaesposa à época, Dedé Gadelha e seu filho Moreno, nus na capa, disco foiproibido pela censura, e o outro, já sem eles na capa, Caetano riu. 

Mas deixa-me dizer uma coisa que percebi naquele dia, nenhumdos discos emocionou Caetano como o “Caetano”. Que ele está na capa de barba,com um olhar triste e segurando algo do tipo casaco de pele. Ele parou unsminutos, olhou a capa de um lado e do outro, me pareceu muito emocionado, é odisco que ele mais gosta ou que lhe trás maiores recordações. Ao menos foi essaa impressão que tive naquele dia. 

Ele terminou de autografar todos os LPs, e Dóris já foi logochamando para sairmos. Já era noite. E foi assim que conheci, e tenho todos osmeus discos com a assinatura de um dos maiores cantores e compositores que estepaís tem. 

Eu nunca tive a oportunidade de agradecer a Dóris Abreupublicamente por aquele dia. Hoje eu agradeço e digo que, aquele quadro com odesenho de uma das figuras do disco bicho, feita por Caetano, ainda está naminha lista de artigos a ser roubado de dela. 

Relembrei essa história ao ver entrevista de Caetano ontem,07, ao Cultura Inglesa.

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