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O golpe frustrado e o golpe que avança (Por Roberto Amaral)

O golpe frustrado e o golpe que avança (Por Roberto Amaral)

15/08/2021 10h43 Atualizada há 5 anos atrás
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O golpe frustrado e o golpe que avança (Por Roberto Amaral)


Nossas forças, por assim dizer, armadas não estão preparadaspara a defesa nacional. Além de desequipadas para o enfrentamento a qualquer ameaça externa digna derespeito (pois 75% dos gastos da Defesa são consumidos com salários,aposentadorias e pensões paras filhas de oficiais), suas operações dependem dasupervisão do Pentágono, que as condiciona, mediante o monopólio dofornecimento de armas e munições (sempre de segunda linha ou obsoletas), e ascontrola do ponto de vista político-ideológico, sempre na contramão de nossasnecessidades.

A carência, porém, se transforma em potência, quando setrata da defesa do statu quo.

 Para atender ora aolatifúndio, ora aos ganhos de uma burguesia apátrida, ora aos interesses dageopolítica do imperialismo, os generais, recém-chegados de seus cursos deformação nas escolas de guerra dos EUA, tomaram partido numa Guerra Fria quenão nos dizia respeito e, consumida esta, continuaram atuando como braço doPentágono. Essa devoção ideológica periodicamente reavivada  explica o papel nada republicano dosfardados, interferindo desabusadamente na vida política do país. Nenhum desseseventos, que entulham a vida republicana, teve como leitmotiv o interessenacional. Agiram sempre por procuração, a serviço da geopolítica do grandeirmão do norte associado internamente ao grande capital e à alienação de umaburguesia cujos interesses jamais comungaram com os interesses do país e de seupovo.

Sem história própria por preservar, os militares desempenhamo papel de abnegados servidores do sistema.

Ao tempo da Guerra Fria o mundo foi artificialmentedividido, cortado ao meio em gumes como uma laranja. Ou se era pró-americano,ou se era antiamericano, e todo antiamericano, ou nacionalista, eranecessariamente um comunista: este era o discurso  da dominação que a pobreza ideológica (e umamiríade de interesses) nos fez adotar e, em face dele, tomar o partido dos EUA.O mundo caminhou, veio a queda do muro de Berlim, veio e se foi a ditadurainstalada em 1964, veio a debacle da URSS; no entanto, persiste o alinhamento esubserviência aos interesses de Washington, que o capitão parvo e pulha trouxeda caserna para a presidência da república. Assim, depois dos quase 13 nos depolítica externa ativa e altiva, nos transformamos  em eleitores de cabresto dos EUA na ONU,votando com o Departamento de Estado e contra os interesses da periferia docapitalismo. Voltamos a ser aliados incondicionais dos EUA na OEA, envilecidoinstrumento de intervenção nas democracias latino-americanas; sem apoio emqualquer razão, hostilizamos a China, nosso principal parceiro comercial,hostilizamos os países árabes, consumidores de nossas commodities, hostilizamosa Rússia,  a Venezuela e Cuba,hostilizamos a Bolívia, já hostilizámos a Argentina  e brevemente estaremos hostilizando oPeru.  Essa mesma lógica presidiu o golpede Estado contra Dilma Rousseff, a consequente ascensão do governo títere deMichel Temer, e ainda  garante, hoje,contra o sentimento nacional, o desastre bolsonariano e o ódio fardado  a Lula e ao que o PT representa, ou o que acúpula militar, no seu simplismo binário, supõe que representa. O preço dessaidiossincrasia potencializada por má-fé e crassa disposição à subalternidade, é a tragédia nacional de nossosdias.

Essas reflexões me ocorrem ao acompanhar o patético desfilede nossas relíquias bélicas, denotativas da importância que os EUA, nossosfornecedores de armas, equipamentos, munições e ideias dedicam ao seu aliadoincondicional: um dos “tanques”, que a verve do brasileiro logo batizou de“maria fumaça”, era  inofensiva peça dosanos 70 do século passado, e diz a crônica especializada que peças ainda maisvelhas compunham o brancaleônico comboio. Com essa pixotada, o capitão e seusgenerais, almirantes e brigadeiros pretendiam acuar a câmara dos deputados,que, no outro lado da praça dos três poderes, se preparava para rejeitar afarsesca PEC do voto impresso.

O inusitado espalhou temores.

Eram, em princípio, justas aos receios dos parlamentares. Seos exercícios da marinha (pela primeira vez incorporando tropas do exército eda aeronáutica) se repetem desde 1988, jamais haviam sido precedidos do desfilogrotesco com o qual foram anunciados; se, por alegadas razões administrativas,as operações militares anunciadas para o campo de instrução de Formosa-GOestavam programadas há muito tempo, e por isso não podiam ou não deveriam seradiadas, nada porém justificava a manutenção da parada militar na Praça dos Três Poderes   engendrada como pretexto para entregar aopresidente um convite, o qual, se as intenções dos almirantes fossem sinceras,podia ser transmitido por meio de mero telefonema, ou formalizado mediantedespacho de rotina, ou ainda simplesmente levado em mão ao palácio do planaltopor um estafeta engalanado. Inquestionavelmente, a patuscada tinha por objetoameaçar o processo democrático, e, nesse sentido, foi um fiasco. Serviu apenaspara pôr em maior evidência as limitações de fogo de uma força sucateada, e airresponsabilidade de seus comandantes.  O desfile de nossa impotência bélica fez ainda mais flagelada a imagemdas forças armadas, que, assim,  revelaram ao mundo a incapacidade de cumprir com sua real destinação constitucional, a defesa da soberanianacional.

A montanha pariu um rato.

Mas, antes do fiasco, provocou mal-estar entre os poderesdesarmados, ante os partidos e junto à imprensa que,  desta feita, faz cara feia aos arreganhosgolpistas.  A crônica política,porém,  não se dera conta de que  a ameaça de golpe se esvaía em sua desnecessidade.

Sem precisar do acicate da espada, brandida em tantosepisódios de nossa história, o congresso brasileiro vem, desde 2016, violando opacto de que resultou a Constituição Cidadã de 1988. Agora mesmo, a câmara dosdeputados volta a ceifar direitos trabalhistas mediante uma “minirreforma” quecontou com o silencio da imprensa e a anomia do movimento sindical, aoaprovar   medida provisória que permite acontratação de jovens sem vínculo trabalhista, sem férias, sem FGTS ou 13ºsalário,  reduz o valor da hora extra dealgumas categorias e - eis a cereja do bolo! - dificulta o combate ao trabalhoescravo. Assim, prescindindo dos tanques, mas não do apoio dos fardados, avançao golpe progressivo, esse em que padecemos, “suave”, sem, ainda,  lançar mão, porque presentementedesnecessário,  da ruptura da ordemjurídico-legal-formal, mas valendo-se de reformas constitucionais levadas acabo a toque de caixa por um congresso sem legitimidade  constituinte. Não se conclua, porém, que ocapitão e seus áulicos fardados tenham arquivado os intentosdesestabilizadores,  que mais seexacerbarão na medida em que ficar ainda mais claro o fim das  esperanças de reeleição (e dela decorrente daimpunidade penal) com a qual o mau capitão sonha desde que tomou posse.

Bolsonaro jamais se interessou por voto impresso; seu pleitovisava e visa, tão simplesmente, a uma tentativa de desestabilizar o processoeleitoral, para que possa, nos últimos estertores, mais questionar alegitimidade da eleição do próximo presidente da república. O projeto,pretendendo esconder um segredo de polichinelo, padece de qualqueroriginalidade, pois é a transcrição das artimanhas com as quais seu êmulo, odefenestrado presidente Trump, intentou embaralhar sua sucessão. O golpeclássico não deu certo na matriz, e já é pólvora molhada entre nós.

Por: Roberto Amaral - escritor e ex-ministro de Ciência eTecnologia.

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