“Sem consenso em torno da divulgação de uma nota contra asameaças feitas por Jair Bolsonaro à democracia, governadores de 24 Estados e doDistrito Federal decidiram ontem propor ao presidente e a outros chefes dePoderes uma espécie de reunião de pacificação e de normalização institucionaldo País” (O Estado de S. Paulo, 24/08/2021)
A república vive sua maior crise desde o final da ditadurade 1964. Para muitos analistas o desassossego tem nome e sobrenome: JairMessias Bolsonaro. Seria simples e prático reduzir assim o desafio, mas estaríamos simplesmente tomando a aparênciapela realidade, pois o problema temoutra identidade, e por isso mesmo é mais grave: as forças armadas brasileiras,responsáveis pelos graves momentos de desestabilizaçãodemocrático-institucional que caracterizam a história republicana. Elasrespondem pelo projeto de poder que culminou com as eleições de 2018, levadas acabo com os resultados que alcançaram graças ao emprego de modos e meios não republicanos, aos quais nãoestiveram alheios os fardados. E são ainda elas que emprestam sustentação aoatual regime, assumidamente lesa-pátria, que em tão pouco tempo está destruindonossa soberania e condenando a maioria da população à pobreza: 14,8 milhões dedesempregados, 30 milhões de brasileiros na informalidade, 19 milhões passandofome. Em poucos dias somaremos 600 mil vítimas fatais da Covid, contingentesuperior a todas as nossas perdas na guerra da Cisplatina (na qual o exército brasileirofoi fragorosamente derrotado), na guerra do Paraguai e na Segunda GuerraMundial. A calamidade sanitária é o tonitruante certificado da incompetênciados militares, gestores diretos da política de saúde, e do descaso (para dizero mínimo) do capitão. Sua atuação em áreas cruciais como educação, cultura,meio ambiente e ciência e tecnologia vai além da inépcia; sugere o propósitodestrutivo do país.
O fato objetivo é quetemos um delinquente na presidência da república que diariamente desafia asinstituições democráticas, ameaça o processo eleitoral, agride os demaispoderes e, não obstante seus crimes de toda ordem, penais, políticos e éticos, permanece intocável. Protegem-no a guarda engalanada euma câmara dos deputados presidida porum representante do baixo clero. É a pobreza de nossas chamadas liderançascivis.
A História – incontornável e implacável – certamenteesquecerá os Helenos e quejandos, como os Vilas Bôas e os Braga Netos e outrosassemelhados do pelotão palaciano. Mas jamais deixará de julgar a corporaçãoque hoje se confunde com seus chefes passageiros, e lhes dá respaldo em todos os desmandos. Todas as imprecaçõesdo capitão, até mesmo a provocação do voto impresso, têm sidoreferendadas pelos cinco estrelas comandantes.
Os grandes jornais noticiam, sem se darem conta do vexameseus articulistas, que uma luzidia caravana de ex-ministros e similares foi aoencontro dos comandantes militares, para, por delegação de nossosex-presidentes (registre-se a honrosa exceção de Dilma Rousseff) perguntar-lhes se as forças amadas vão ou nãodar golpe no golpe (como reiteradamente vem sugerindo o capitão, com o apoiodos engalanados do terceiro andar do palácio do planalto), e se o eleito em2022 (“fosse quem fosse”) tomaria posse. Os delegados voltaram felizes da vidaporque ouviram um não e um sim: não haveria golpe e o eleito tomaria posse. Eisa pequena estatura política do poder civil (que não se dá ao respeito) e a dimensão nanica de nossademocracia.
Em que país razoavelmente sério a república, prostrada,precisa perguntar aos militares (que vestem farda por delegação sua!) se elesvão ou não dar golpe nas instituições, se vão garantir eleições previstas naConstituição, se darão posse aos eleitos?
A tutela, pois, já prescinde da espada, introjetada,assimilada, aceita pela nossa classe dirigente, que continua desempenhando aquele papel de vivandeiras a que se referiu o ditadorCastello Branco, rondando os quartéis, fazendo rapapés aos fardados, ora lhespedindo que rompam o pacto democrático (quando suspeitam da emergência dasmassas), ora pedindo para que não o rompam.
Aos nossos líderes não ocorreu inverter o jogo e dizer aosgolpistas de todas as instâncias que a democracia rejeita paternidade e tutela.Conquista da sociedade, projeto histórico jamais concluído, permanentementeameaçado, sua sobrevivência é a medida da organização popular.
Os militares, com a inefável contribuição de políticosnotáveis, transformam o Brasil a umoximoro: uma grande republiqueta.
O capitão, que foi a contingência de que se utilizaram osmilitares para a retomada do poder, agora é a espoleta do segundo tempo de umapeça tosca de final conhecido. Provocador, cabe-lhe a agitação. Seu papel,relevante na trama, é preparar o terreno para futuras manobras, construir ocaos, instigar a insubordinação, provocar o conflito, desafiar os poderes,instaurar a anarquia. Na sequência terá que vir alguém para “arrumar a casa”,e, em face da insegurança, todos quererão a ordem: os editorialistas que hojedefendem conosco a democracia, os liberais, os socialdemocratas, a Faria Lima, o grande capital, osespeculadores das bolsas, os rentistas daqui e d'além mar, o Departamento deEstado dos EUA. Aí então, possivelmente ao som de hinos gospel, nossospríncipes da política e nossos homens de negócios concertarão com os fardadosmais uma traficância institucional, e assim voltaremos todos para casa e para otrabalho, para viver tudo outra vez, nessa nossa ópera grotesca sem gran finaleque é a vida republicana sob a tutelamilitar, girando entre a comédia e o drama, a farsa e a tragédia.
Certamente sem sedarem conta do real significado do papel que as circunstâncias lhes destinaram,os governadores se aprestam no palco da salvação nacional. Para denunciar asameaças à ordem institucional? Para exigirem respeito à Constituição? Para dizer aos militares qualé o papel que lhes cabe numa república que se dá ao respeito? Para concertarema unidade do povo em defesa de suas instituições democráticas, tãodolorosamente salvas da ditadura militar? Não, lamentavelmente, não. Sem teremuma só palavra para dirigir ao povo, os governadores se voltam ao capitão paralhe solicitarem bons modos, e chamam os demais chefes de poderes para acomunhão de boas intenções. Em nome da paz, é hora de esquecer as divergências,e jogar para debaixo do tapete os crimes que estão na ordem do dia. O auge datensão é a hora prometida para a conciliação.
Consabidamente, a história não se repete, mas no Brasil elaé recorrente e monótona, desde a colônia. As crises se resolvem mediante aconciliação, que é também transação e traficância, ditada de cima para baixo,pela classe dominante, a casa-grande de sempre. Resolvem-se pelo alto osinteresses do establishment, e empurra-se com a barriga tudo que diga respeitoao povo ou ao interesse nacional.
Os convites dos governadores para o grande convescote com oschefes dos poderes já foram expedidos e certamente ninguém se negará a “umgrande entendimento”. Após cumprimentos de praxe, tapinhas nas costas, cada umvoltará para seu ninho e dar-se-á porfeito o que não foi feito, e tudo continuará como dantes no castelo deAbranches, até o próximo vexame que pode vir a caminho, na sela do 7 desetembro.
E o povo?
Na plateia, como de hábito, será informado no seu devidotempo do que seus representantes terão concertado em seu nome com os donos dopoder.
Nilson Lage – Tales Faria, seu discípulo, nos manda anotícia que há cerca de dois anos temíamos receber: faleceu em Florianópolis(para onde se transferira após a aposentadoria no Rio), o escritor, professore jornalista Nilson Lage, e com ele sevai mais um ator decisivo do moderno periodismo brasileiro. Um quadro raro,pois reunia ao texto primoroso e à argúcia do repórter um caráter absolutamentesem jaça. Fomos colegas na Escola de Comunicação da UFRJ, nas Faculdades HélioAlonso e na Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa na Comunicação. Ondeatuou, foi sempre um exemplo admirado, por isso mesmo formou uma legião dediscípulos, e nos deixa mais sós e mais tristes.
Por: Roberto Amaral - escritor e ex-ministro de Ciência eTecnologia.
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