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Entre o abismo e a transação (Por Roberto Amaral)

Entre o abismo e a transação (Por Roberto Amaral)

02/09/2021 09h33 Atualizada há 5 anos atrás
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Entre o abismo e a transação (Por Roberto Amaral)



Tasso Jereissati, senador e ex-governador do Ceará, édestacado quadro da oligarquia nordestina e brasileira governante: empresário,filho de rico empresário e político influente (Carlos Jereissati, tambémsenador; líder getulista). Foi um dos fundadores do PSDB, ao lado de MárioCovas e Franco Montoro; dentre os atuais dirigentes, se destaca por sualucidez, que, infelizmente, não contagiou seus correligionários.

Trago à balha essas características do político cearensepara pôr em relevo a autoridade de sua crítica ao que corriqueiramente aimprensa denomina de “elite” econômica brasileira, o outro nome da casa-grande,atrasada e burra, inculta e tosca, herdeira do escravismo colonial, semcompromissos com o país ou sua agente. Inquirido pelo Estadão (29/08/2021), seos donos do poder (o repórter usou a expressão “elite empresarial efinanceira”) haviam demorado a compreender o real significado do atual regime,para finalmente decidir-se pela oposição, declarou: “Desde as eleições, essachamada elite, com honrosas exceções, dentro de um clima anti-Lula, fezqualquer coisa que fosse contra o PT. E essa qualquer coisa foi sem nenhum tipode qualificação ou mérito. Quem tinha um pouco de noção previu que isso iaacontecer. Até hoje há movimentos que, em nome do antipetismo, levam o país aocaos em um terreno de ameaça às eleições”.

Essas questões passam ao largo da entrevista do senador.

Antes de mais nada, lembremos, as raízes da tragédia quevivemos – para a qual os bons profetas não anteveem alternativa no médio prazo– não brotam diretamente do desastre eleitoral de 2018. Podendo ser antevistadesde as jornadas de 2013, a traição da chamada elite empresarial apresenta-se,clara como a luz do dia, quando o candidato tucano à presidência da república,o hoje deputado Aécio Neves,  se recusa areconhecer os resultados das eleições de 2014 e o partido dele, e do senadorJereissati,  ingressa no TSE com pedidode recontagem de votos, uma extremada leviandade que tinha por único objetivo,confessado pelo candidato derrotado, criar problemas ao novo governo. No que,lamentavelmente para a democracia brasileira, logrou êxito, uma vitória dePirro, que se repetiria em 2016 com o impeachment de Dilma Rousseff, para oqual contribuíram os votos do PSDB, na Câmara e no Senado. O mesmo PSDB que em2018 engrossou o eleitorado do capitão sociopata, o PSDB que tem votadofielmente com o governo na Câmara dos Deputados, como quando, dias atrás,compareceu com 14 votos a favor da provocação da cédula  impressa. O PSDB, em face do governo, não ésituação mas também não é oposição: seus parlamentares continuam no muro daindefinição, o termo polido da pusilanimidade; quando descem, votam com amaioria.

A entrevista do prócer tucano, sendo uma crítica aos colegasempresários, deve ser lida, também,  comoautocrítica do político e dirigente partidário, que se dá na prática, querocrer, mediante seu recente diálogo com o ex-presidente Lula.

O senador persegue uma terceira via, o Estadão também. Massó nesse ponto há convergência.

O quadro de hoje, nos diz que está quebrado – ou, pelomenos, fissurado – o pacto que elegeu e sustenta o ainda presidente darepública. Se, de um lado, os quatro estrelas de todos os naipes permaneceminsensíveis aos reclamos da nação, se o Congresso Nacional e particularmente aCâmara dos Deputados se conservam, na sela do Centrão, a serviço de umgovernante em litígio com as instituições, de outro, setores empresariaiscomeçam a se deslocar do pacto hegemônico, o que é visível nos editoriais eartigos de opinião da grande imprensa. Mas, há graus distintos de oposição evariados são os projetos. Há os que simplesmente entendem que o capitão é  inepto (e, assim, termina por atrapalhar os interessespara cuja defesa foi posto no planalto), como há os que se convenceram de que o"Posto Ipiranga" é mais uma fraude e, entre uns e outros, há,majoritariamente, os que estão convencidos de que, para preservar o país, éfundamental sustar a continuidade do desarranjo, impedindo a reeleição dodelinquente. O amálgama de razões as mais distintas é, no momento, apreservação do processo eleitoral. É a tese que unifica os movimentospopulares, a esquerda, os autoproclamados liberais, que participaram de toda asaga golpista, e o que restou do “centro”.

O fato complicador, para a direta,  é que a alternativa ao capitão, hoje, é oex-presidente Lula.

O Estadão, como o senador, não quer mais o capitão, queajudou a eleger, mas rejeita, arguindo-se um direito de veto, o candidato Lula.Em nome de um antipetismo hepático, bilioso, o jornal, que foi, ao lado deAdhemar de Barros, um dos principais arrecadadores  de fundos para o golpe de 1964 (CAMARGO,Aspásia & GÓES, Walder. Diálogo com Cordeiro de Farias. Ed. Nova Fronteira,1981, p. 553), não tergiversa mesmo ao risco de levar o país ao caos ou ilidira democracia sem a qual será fechado, quando não mais lhe valerá o socorro daFaria Lima. Não se trata de tentar a construção de uma terceira candidatura,que mesmo Lula admite como legítima, mas de simplesmente dizer, como dizemsetores insubordinados dentre os fardados engalanados, que o PT não poderetornar ao governo, nada obstante o ex-presidente ser hoje a opção majoritáriadas grandes massas, e, dentre as grandes lideranças nacionais, aquela mais aptaao diálogo e à conciliação.

O anti lulismo desvairado é a posição da direita xucra, desetores atrasados do empresariado, em conluio com uma oficialidade despreparadapara o convívio com a democracia. A direita que venceu em 1964 e saiu pelos fundosdo palácio do planalto em 1985. Aquela que retornou com Bolsonaro e  forceja para permanecer no governo, penduradanas muitas tetas da Viúva.

Diferente, registre-se, a postura do senador cearense, que,na citada entrevista, vocalizou o pensamento de uma direita, por assim dizer,civilizada. O senador postula uma terceira via (em princípio é  pré-candidato de sua sigla), e, sem indicarqual é a linha de seu partido, defende o diálogo: “Se nós [PSDB] ganharmos aseleições, vamos precisar ter um diálogo com o PT. Não é bom para o Brasil viverem um clima de confronto. Pelo que conversamos, o presidente Lula estáconsciente disso”.

O outro lado do confronto, que a esquerda não pleiteia, nãopode ser, porém, mesmo com a fiança do PT e de Lula, mais uma soluçãoprussiana, o entendimento de cima para baixo, da elite sobre os interesses damassa trabalhadora, em prejuízo do real processo democrático, da promoção dosinteresses dos excluídos de sempre, da defesa da economia nacional e a apuraçãodos crimes que se vem cometendo (o capitão à frente da súcia) contra asinstituições, contra a soberania nacional, contra os direitos dos trabalhadorese a federação.

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Roberto Amaral - escritor e ex-ministro de Ciência eTecnologia.

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