O 7 de setembro de Jair Bolsonaro vai para a história como o18 Brumário que não deu certo. A farsagrotesca, pré-anunciada pelo desfile das relíquias da marinha no último 30 deagosto, afastou o temido trago da tragédia prometida, mas não deve ser vista como ameaça de todo debelada:continuará conosco por um ainda largo tempo, pois durará enquanto não foralterada a presente correlação de forças e removido o atual polo hegemônico, emcujo diretório têm assento os fardados, os herdeiros da casa grande, os procuradores do grande capital e os delegados do império donorte: o 1% de brancos ricos e milionários que nos governa, sem alternânciadesde a remota origem colonial.
As forças armadas, que já respondem perante a História peloscrimes cometidos durante o mandarinato de 1964-85, e pelos crimes presentes dobolsonarismo, poderão amanhã ser responsabilizadas por grave cisão nacional,destruindo o projeto de unidade construído a tão duras penas em quase cincoséculos de uma civilização ainda por afirmar-se.
Se não foi desta feitaque se efetivou a promessa do Duce tupiniquim de “virada de mesa”, o projeto dogolpe dentro do golpe, visando à opção autoritária, permanece de pé, pois seusarticuladores seguem nos mesmos postos de mando, animados, até, pelasmanifestações do dia 7 passado que revelaram a existência de apoio popular aoprojeto protofascista do qual o capitão é o mais ostensivo pregador. O jogoestá à vista e as cartas na mesa: o mandatário em conflito com a democraciaavança passo a passo e, sempre que insinua recuar, termina subindo mais umdegrau na escalada golpista. Assim tem sido desde a campanha de 2018, e assimserá até alcançar seu objetivo, ou ser defenestrado. Nessa sua arte de “mordere assoprar” para em seguida morder de novo, qualifica de canalha o ministroAlexandre Moraes para, na sequência, mediante a intermediação do inefávelMichel Temer, oferecer ao ofendido o “cachimbo da paz”, que ele aceita pitar. E la nave va.
Há sinais de fissuras no bloco de poder, temeroso de que odesastre político leve de roldão o projeto neoliberal, a verdadeira “joia daCoroa”. Assim são tidos os manifestos e o comportamento da grande imprensa.Setores do grande empresariado (ouvidos pelos fardados), estariam admitindotrocar de posto o capitão, contanto que tudo continue como está, isto é,mantida a natureza do mando. Em síntese, trocar Joaquim por Manuel,preferentemente sem qualquer infração constitucional, embora os militares, pordiversas vezes, com o apoio do empresariado e do império, tenha fraturado aConstituição, sob o pretexto de defendê-la – como ocorreu em 1955, quando ogeneral Lott, com o apoio do Congresso, deu um golpe para impedir que um golpe fosse dado pela dupla Café Filho-CarlosLuz, sob as lideranças do brigadeiro Eduardo Gomes e do almirante Pena Boto.
Posta de lado, portanto, a possibilidade de um “chega pralá” no capitão, ou de sua renúncia, a alternativa constitucional possível é oprocesso de impeachment, em cima do qual, porém, se senta o presidente daCâmara dos Deputados, auferindo gordos dividendos. Ademais desse óbice,concreto, há, assustando liberais de última plumagem, os temores da crise política e econômica que qualquer processo de impeachment implica.Cabe, ainda, considerar que o capitão, no momento, ainda conta com os apoiosque faltaram a Fernando Collor e a Dilma Rousseff. A questão é quasehamletiana: se será muito caro ao país o trauma de mais um processo deimpeachment contra um presidente da república (embora se trate o caso presentede cassar o mandato de um perigoso delinquente), que não cobrará menos de seismeses, é mais certo ainda que o país, seja do ponto de vista político, seja doponto de vista econômico, não suportará mais um ano e quase quatro meses deBolsonaro no terceiro andar do palácio do planalto. Como já foi observado,temerosos de banalizarmos o impeachment, estamos banalizando o crime deresponsabilidade.
Superada essa questão, que podemos considerar instrumental, restará outra, talvez mais grave, porque de fundo. Éque Joaquim deve ser trocado por Manuel, ou seja, trata-se de uma troca semmudança e só nesses termos é que será levada a termo.
Fora um diktat da japona, não há como a direita governante,mais uma vez, e na sucessão de um governo desastroso sob todos os prismas(inflação, queda do PIB, alta do dólar, desemprego, expectativa de apagão),assegurar-se da eleição de seu delfim, que presentemente ela chama de “terceiravia”, uma bandeira à procura de um candidato. Se o encontrar e se o fizercompetitivo, a direita terá que correr o risco democrático de apostar noprocesso eleitoral, que o capitão de há muito tenta desmoralizar.
É pagar para ver.
Trabalhemos, portanto, com essa hipótese: com ou semBolsonaro, haverá eleições e elas serão respeitadas, como não foram em 2014,quando o PSDB se negou a reconhecer o resultado do pleito.
Se as eleições fossem hoje, porém, tudo indica que ocandidato eleito seria, com indicação de vitória no primeiro turno, oex-presidente Lula. Mas a possibilidade de retorno do ex-presidente é vetadapor generais insubmissos e pelos barões da Faria Lima, os mesmos que financiamos grandes jornais e a grande televisão em sua atual e bem-vinda defesa dosprincípios democráticos jogados ao lixo nos idos preparatórios do golpe de 2016e na campanha de 2018.
Respeitadas as circunstâncias históricas, Lula ocupa hoje opapel que foi dado a Getúlio Vargas na campanha de 1950: não deve ser candidato(diz o Sr. Ciro Gomes); candidato, não pode ser eleito (para derrotá-lo a FariaLima fará valer seus cofres); se eleito, não deve tomar posse (dizem as japonasinsubordinadas) e, se tomar posse, deve ser deposto.
Essa postura, felizmente, não conta com a unanimidade doempresariado, pois há os que, na categoria e nos partidos (é o caso do senadorTarso Jereissati), trabalham com a hipótese de um acordo que preserve a ordemdemocrática (que não comunga com vetos) e a soberania popular.
Até aqui, terá observado o leitor, não aparecem as esquerdascomo sujeito histórico. Todo o protagonismo está entregue à direita, sejaa empresarial, seja a militar. E assim permanecerá o cenário, comas consequências que não precisam ser explicitadas, se faltar às nossaslideranças (partidos, movimento sindical, movimentos sociais) a capacidade deconcertação em torno de um projeto comum que, tendo como eixo a preservação doprocesso democrático (que inclui a realização de eleições e o reconhecimento deseu resultado), fale ao conjunto da sociedade brasileira. Essa concertação não anula, e talvez até a exija mais, afrente da esquerda socialista que, a partir do projeto democrático, podeavançar na busca de objetivos concretos, como as transformações radicais denossa estrutura econômica, política e social.
E, finalmente, a esquerda precisa encarar como estratégica abatalha ideológica, que abandonou desde pelo menos a campanha de 2002.
Até lá, com a frente ampla, se possível, sem ela se esta fora contingência, caberá aos partidos e aos movimentos populares e sindicais aretomada da mobilização social, liderando movimento popular pró-impeachment.Diante dele nossos partidos, a começar pelo PT, não podem ter dúvidas.Dependendo de seu nível de organização, o movimento social poderá retomar a direção do processo político. Paratal é fundamental compreender o óbvio: não haverá eleições se o projetodemocrático não derrotar o projeto fascista, ou seja, não é esta a hora deprivilegiar candidaturas, por mais legítimas que sejam.
Roberto Amaral - escritor e ex-ministro de Ciência eTecnologia.
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