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O "Fora Bolsonaro" é o que deve unir as forças populares

O "Fora Bolsonaro" é o que deve unir as forças populares

22/09/2021 13h38 Atualizada há 5 anos atrás
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O que é “Fora Bolsonaro”? Uma palavra de ordem, que é a somadas particularidades de uma situação política objetiva, transformada emproposta de ação. É a chave do que fazer. Ela resume análise e leva àação;  é didática, por serautoexplicativa. Quando Lênin proclamava “Todo poder aos sovietes”, ele tantointerpretava e explicava o processo histórico russo naquela altura, quantotransformava essa interpretação em comando para ação prática das massasrevolucionárias: a tomada pacífica  dopoder. Mas, ao mesmo tempo levava à organização das forças insurgentes e asmobilizava para as tarefas revolução.

No crepúsculo da ditadura de 1964-1985, a palavra de ordem“Diretas já” -- que unificou as grandes massas naquela que talvez tenha sido amaior mobilização popular da história republicana brasileira --, implicava nãosó a retomada do direito popular à escolha de seu presidente, como também seinseria no embate  pelo  fim do regime militar.  Seu corolário era  a redemocratização.

A boa palavra de ordem resume teses.

A consigna “O petróleo é nosso”, nos anos 50 do séculopassado, sintetizava em poucas palavras os pleitos que vinham de décadasanteriores,  enfunados pela saganacionalista que tomava conta  daacademia e dos debates populares: o desenvolvimento econômico como base  da soberania nacional; o monopólio estatal dopetróleo e a criação da Petrobras  comouma necessidade. Sem petróleo não haveria indústria, e sem indústria não teriacomo o país cogitar de sua independência. A questão ainda não foi superada.

Tudo isso estava inscrito naquelas poucas palavras e, aindahoje, quando o governo de Bolsonaro e seus fardados comandantes investem contraa Petrobras, distribuindo com os rentistas da Faria Lima e os procuradores doimpério seus principais ativos,  sabe amemória nacional que, para além de graves atentados à maior empresa brasileira,o que está em jogo é o desenvolvimento nacional. Esse sentimento, no leito dasaga nacionalista, é o que anima ainda hoje a defesa da Eletrobras, da CaixaEconômica Federal, do Banco do Brasil e dos Correios, as próximas  presas anunciadas pelo falido “PostoIpiranga”.

Essas considerações vêm a propósito do “Fora Bolsonaro”, quea muitos parece inconsequente quando o capitão dispõe de sólida maioriaparlamentar e conta com a proteção  de umdelegado do Centrão na presidência da Câmara dos Deputados - o que lhe oferta asegurança de absoluta impunidade. Com o “Fora Bolsonaro”, porém, uma vez maisestamos diante de uma síntese de projetos políticos, indicadora de umaação  concreta. Para além da remoção doperigoso delinquente, a palavra de ordem grita um Não! rotundo ao projetoprotofascista que pretende sobreviver independente de seu porta-estandarte; éum clamor contra o neoliberalismo e, portanto, indica uma tomada de posição emdefesa da economia nacional e dos interesses dos trabalhadores. De fácilcompreensão, como as grandes sínteses, trata-se de palavra de ordem que orientaos militantes dos partidos de nosso campo e o movimento social. E tem, ainda, ocondão de unificar as forças populares (ou, de pelo menos tentar...)facilitando a intervenção política numa contingência de difícil mobilizaçãopopular,  quando essa mobilização se faznecessária e inadiável. É, por fim, possibilitando o debate, um instrumento depolitização das massas, a tarefa-desafio das condições atuais do processosocial.

Para tais efeitos é irrelevante, hoje, a medida daspossibilidades de efetivação do impeachment; cumpre aos desdobramento dacampanha que a palavra de ordem incita criar as condições favoráveis. A campanapelas Diretas não levou à aprovação da emenda Dante de Oliveira pelo CongressoNacional (em abril de 1984), é certo, mas nem por isso pode ser dito que foi derrotada, pois (como a defesa daanistia) se transformou em poderoso aríete contra o regime que tombaria  em 1985 ao dar um rumo comum à ação dasdiversas forças (um extenso caleidoscópio político-ideológico) que enfrentavama ditadura.

O “Fora Bolsonaro” pode não levar ao impeachment, o queseria lamentável, mas sem nenhuma dúvida contribuirá para o combate ao governoque aí está e à defesa do processo democrático, nosso objetivo-fim,   mediante amobilização popular com vistas a garantir as eleições de 2022, ainda maisameaçadas com os fatos que se desdobram desde a noite do último 6 de setembro,marcado pela ameaça de invasão da Praça dos Três Poderes, em Brasília, pelasmilícias bolsonaristas aparelhadas pelo agronegócio.

De lá para cá não ocorreram mudanças substanciais no quadro político, e, quaisquer que sejam as aparências,  o bolsonarismo manterá sua guerra contra asinstituições.

Mais do que um recuo tático do delinquente (useiro e vezeirona arte de morder e assoprar para morder de novo), o que vimos no  dia 9/9 foi um “freio de arrumação” ditado pela casa-grande, senhora dos cordéisque regem os movimentos dos supostos atores de nossa enferma república. Não cogita a Faria Lima do destino dademocracia, mobilizada tão-somente pelo receio de que a turbulência políticapossa ameaçar seus sagrados interesses. Do acordão anunciado com pompa ecircunstância, a cujo concerto não estiveram ausentes os fardados maisengalanados, sabe-se das partes nele notoriamente envolvidas, mas desconhece-secomo as prendas e as prebendas, os avanços e os recuos foram dados, recebidos econcedidos, negociados e trapaceados. Aparentemente,  os togados, antes abespinhados, se deram porsatisfeitos, e  o dito será tido por nãoouvido.  O óbvio ululante é que em rodadade mesa na qual  Michel Temer, o perjuro,desembaralhou e distribuiu as cartas, é impossível pensar num jogo sem ummínimo, que nesse caso deve ser um máximo, de velhacaria.

Quaisquer que tenham sido as apostas e os pagamentos, osganhos e as perdas, o certo é que a traficância terá desconsiderado o interessepúblico, essa figura de retórica do discurso da classe dominante. Vencedorafoi  a ordem da conciliação prussiana quecaracteriza nossa história: os acordos de cúpula, tramados à socapa contra osinteresses nacionais. A trampa, desta feita, é a prorrogação do bolsonarismo(com ou sem o capitão), que, escancaradamente (e até aqui impunemente) forcejaa derruição da ordem democrática. Para os eternos donos do poder, tudo vale apena quando o objetivo é  preservar apolítica neoliberal que destrói a economia nacional, desemprega ostrabalhadores, privatiza o Estado, aumenta a pobreza e a fome. Tragédia para aqual o capitão  conta com a mesma súciade apoios de que desfrutava no dia 7 de setembro: os fardados engalanados, osistema policial, os interesses do capital internacional, os medos da bancafinanceira, a maioria do Congresso e considerável sustentação popular, de umamassa excitada no limite da patologia e do crime.

A manutenção do poder é o ponto de arrimo dessas forças, esua tradução imediata é a incolumidade do atual mandato presidencial, seja salvando-o  do impeachmentreclamado pelas ruas,  seja retirando depauta a cassação da chapa capitão-general, acusada de fraude eleitoral. Se ocapitão se revelar competitivo, as eleições poderão ser garantidas; paratanto  o presidente precisa desfazer-sedas  ameaças de decretação de sua inelegibilidade,face ao extensíssimo rol de crimes de responsabilidades, já objeto de apuração.

A direita, cujo isolamento ficou patente no fracasso de suasmanifestações do último domingo, dia 12 de setembro, procura a alternativa deuma “terceira via”, com a qual também trabalham o  "PIB" e seus jornalões. É parceirada extrema-direita no projeto de inviabilizar a alternativa eleitoral decentro-esquerda tentando colocar no mesmo balaio Lula e o presidente celerado.O ódio à esquerda e a Lula faz a ponte entre a Faria Lima, o Departamento deEstado dos EUA e os generais,  e podeensejar, até, a neutralização do delinquente. Os empresários podem alegar adefesa de interesses reais no projeto neoliberal. Dos militares não se temexplicação, senão subalternidade ideológica, servida de oportunismo. Esta é amarca do golpe de Estado institucional, no qual a aliança da japona com a toganos fez mergulhar em 2016.

A nação jamais conhecerá a ata da tramoia do dia 9, mas éevidente que o elemento unificador do encontro de interesses   é o veto (expressão da caserna) a umaalternância substantiva de governo, como seria tomada a eleição de Lula ou dequalquer quadro à esquerda.

O “Fora Bolsonaro” responde igualmente a esta contingência.A unificação do movimento das forças populares parte do combate ao atualsistema e se completa na defesa da ordem democrática e das eleições de umcandidato de centro-esquerda. Faz a batalha de 2021 para assegurar-se de seupapel em 2022. Nada obstante as condições políticas favoráveis (nacional einternacionalmente) que presidiram as eleições de 2002, o governo Lulaenfrentou sérias dificuldades de sustentação, principalmente em 2005. Dessespercalços não o livraram as concessões à direita e ao sistema financeiro.Nenhum concessão, porém,  salvaria ogoverno Dilma, impedida de governar no segundo mandato e finalmente depostanuma maquinação comandada por dentro do governo pelo seu comandante do exército(gal. Villas Bôas)  e pelo seuvice-presidente, o articulador e principal escrivão da carta  levada para a assinatura do capitão. Não sepense (e principalmente não pensem Lula e o PT) que  a história terminou. Subestimar o adversárioé, na política como na guerra, um erro geralmente  fatal. 

O “Fora Bolsonaro” de hoje, com o capitão no planalto oufora dele, é, como ponto de partida, o chamamento das forças populares à defesada democracia; na continuidade, abrirá caminho a uma candidatura decentro-esquerda, à sua vitória eleitoral e posterior sustentação no governo. Sóum grande movimento de massas poderá pôr cobro à preeminência da farda sobre avida nacional, impor a ordem democrática e salvaguardar os interessesnacionais.

O “sectarismo” da esquerda... Minha querida amiga DeniseRotenburg (do Correio Braziliense) acusa de sectários os militantes do PT e doPSOL porque não foram às ruas, no domingo último, bater palmas para aintolerância da direita que, entre outros insultos, expunha um boneco doex-presidente Lula fantasiado de presidiário e encangado com o delinquenteparanoico.

Allende – Há 48 anos, no dia 11 de setembro de 1973, astropas do general Pinochet bombardeavam o Palácio de la Moneda. Com SalvadorAllende morria a democracia chilena e se instaurava uma das mais pérfidas eluciferinas ditaduras latino-americanas.

Por: Roberto Amaral - escritor e ex-ministro de Ciência eTecnologia.

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