Geral Juntamos

Juntamos forças para formar uma maioria ou nos preparamos para uma ruptura... (Por Roberto Amaral)

Juntamos forças para formar uma maioria ou nos preparamos para uma ruptura... (Por Roberto Amaral)

26/09/2021 12h01 Atualizada há 5 anos atrás
Por:
Juntamos forças para formar uma maioria ou nos preparamos para uma ruptura... (Por Roberto Amaral)



O “Fora Bolsonaro!”, a palavra de ordem que unifica a açãodas massas, cobra da esquerda socialista a tarefa pedagógica de denúncia dasociedade de classes. A campanha pelo impeachment, portanto,  é, a um tempo, tática e estratégica,  pelo seu claro objeto, em si, e porconstituir espaço privilegiado para a retomada do papel de sujeito pelo movimento popular. Para além da remoção doentulho presidencial nosso objetivo mira a construção de um novo pacto queaponte para uma nova ordem econômico-social. Não há hierarquia de metas, massimultaneidade na ação.

O bolsonarismo deve ser denunciado, por si mesmo (trata-sede uma esquizofrenia política)  ecomo  produto da desordem estruturalgestada pelo capitalismo tupiniquim, subdesenvolvido, inconcluso, trabalhadopela dependência ideológica de uma burguesia alienada e forânea, rentista,anti-industrialista e antirreformista. O regime antinacional e antipopulargerado a partir das condições abertas pelo golpe de 2016 exaspera os efeitos dacrise: ela é mais severa do que pode sugerir sua aparência, e não conheceráalternativa no atual regime, que possibilita o governo de 1% de brancosmilionários sobre o conjunto da sociedade brasileira.

Não obstante o caráter dependente e subalterno como o país, à mercê dos interesses dacasa-grande, se inseriu na economia internacional, fracassaram até aqui todasas tentativas de integração com o capitalismo: na primeira república, oliberalismo associado ao latifúndio; o liberalismo da “revolução” de 1930 e ointervencionismo do Estado Novo; a industrialização dependente dos anos 1950; amodernização autoritária do mandarinato militar; o neoliberalismo democráticoapós a ditadura; a integração acrítica ao globalismo com Collor e FHC, e,finalmente, o neoliberalismo autoritário decorrente do golpe de 2016.

Até meados dos anos 1930 do século passado o café respondiapor 70% das receitas brasileiras de exportação. Quando ingressamos no terceirodecênio do século 21 nossa balança comercial é dependente do agronegócio. Aatividade econômica regrediu 7% desde 2014; de 6º parque industrial do mundo,somos hoje o 16º; representamos apenas 1,6% do PIB mundial. Somos  a 10ª sociedade mais desigual do planeta, numranking de 140 países. A colônia pelo visto, não é uma fase ou período de nossaformação histórica, é nossa permanente danação.

Convertidos à condição de pária internacional, permanecemosna periferia do capitalismo e, de regresso em regresso, retornamos à condiçãode economia agroexportadora, a classificação que trazemos da colônia, fundadano latifúndio, na escravidão negra e no genocídio dos  povos nativos. Passados cinco séculos somosainda predominantemente exportadores de commodities: madeira da Amazôniadevastada, minério in natura, soja e outros cereais e proteína animal. Oagronegócio representa ¼ do PIB nacional e 48% do total das exportaçõesbrasileiras em 2020. Quanto mais se desenvolve, isto é, quanto mais seconsolida como empresa capitalista, mais expulsa para as periferias das grandescidades as populações rurais. A indústria, que nos anos 80 do século passado respondia por 40% dacomposição do PIB, hoje gira entre 13% e 11%.

Na segunda metade dos anos 1940, precisamente em  1945, depois das insurgências de 1922 e 1924, do crash da bolsa de Nova York (1929),da chamada revolução de 1930 e da queda dos preços  do café, da intentona de 1932 (levante das oligarquias paulistas contra aspromessas industrializantes do novo regime), depois da Segunda Guerra Mundial –o confronto de potências altamente industrializadas –, isto é,  já no final do Estado Novo, Eugênio Gudin, umdos mais festejados e  poderososeconomistas brasileiros, eminência do monetarismo nacional, contrapunha-se aoprojeto de Roberto Simonsen, empresário paulista, que defendia aindustrialização do país. Escrevia o fundador do  IBRE/FGV: “(...) precisamos é de aumentarnossa produtividade agrícola, em vez de menosprezar a única atividade econômicaem que demonstramos capacidade para produzir vantajosamente, isto é, paraexportar”.  (A controvérsia doplanejamento na economia brasileira. IPEA. 2010)

Naquele então, Roberto Simonsen, até hoje o mais importante intelectual orgânico da burguesianacional (esta categoria em extinção), defendia, na polêmica com Gudin, aintervenção do Estado, o planejamento e a industrialização. No Brasil de nossostristes dias é retirado do Estado seu papel como vetor de desenvolvimento, responsávelpelo crescimento que experimentamos  atéos anos 80 do século passado;  oplanejamento estratégico é descartado e as políticas de  geração de emprego e renda são substituídaspelo arrocho fiscal, que o monetarismo sacraliza como uma razão em si. Aameaça  em 2021 é de mais neoliberalismoe mais arrocho fiscal, menos investimento em educação, em ciência e tecnologia,donde  menos desenvolvimento, menosprodução de riqueza, mais desemprego, redução do PIB (a previsão para 2021 é deum “crescimento’” de 1,0% e de 0,4% para 2022), menor renda per capita, porfim, maior concentração de renda. Nada disso afeta a classe dominante, porqueseus interesses, internacionalizados, independem da economia doméstica.

Um pressuposto de desenvolvimento é a existência de mercadode consumo de massa, base da potência das economias dos EUA e da China. Anecessidade de se constituir em grande mercado é o que levou nações até avéspera em guerra a ensarilhar armas e se reunir na União Europeia. É o caminhocoletivo da Eurásia, consolidando-se como novo eixo hegemônico do mundo. Não é,porém, a opção do capitalismo brasileiro.

Como pensar em mercado interno, no Brasil, com o fim dosinvestimentos públicos, com o aumento dos juros que travam a expansãoeconômica, com o desemprego crescente e a queda da renda dos assalariados?

Temos mais de 15 milhões de desempregados. Cerca de 70milhões de brasileiras e brasileiros integram o mundo dos sem trabalho, dosdesesperançados, dos que não procuram mais emprego, dos que tentam sobrevivermediante atividades informais, biscates, e no precariado, a caminho do lupenato. A única alternativa conhecida pelo neoliberalismo para a crise é aredução dos encargos trabalhistas das empresas e a precarização do trabalho.

A desigualdade de renda – o outro nome da concentração,  – não é um ente monetário, um simplesindicador estatístico. Tem consequências na vida do indivíduo: quanto menosrenda, mais exilado da sociedade: sem terra, sem teto, sem escola, sem saúde.

O Brasil ocupa o 3º lugar no ranking mundial de mortes deadolescentes: 10 adolescentes por dia; sete negros para cada jovem branco(dados do Mapa da violência). Quantos são moradores dos Jardins paulistanos oude Ipanema?

A tendência, porém, no curto e no médio prazos, é oagravamento da concentração de renda. Trata-se de um determinismo docapitalismo monopolista levado aos extremos pelo caráter de nosso capitalismoperiférico e dependente. Esse capitalismo não dá conta das consequênciassociais derivadas do inevitável, rápido e intenso desenvolvimento das novasrelações de produção e suas implicações nas relações de trabalho: as novastecnologias, a era digital, a informática, a robótica, a chamada quartarevolução industrial, de que deriva a redução de mão de obra. O que se pode vera olho nu, é, portanto, o agravamento das condições de vida das grandes massas.O enfrentamento de tais desafios depende da radical alteração  da atual correlação de forças.

Para sair do atoleiro -- uma espécie de ponto mortohistórico, um momento de indecisão entre o passado e o futuro, a inercia e aação, o velho e o novo que o passado sobrevivente  aprisiona --, poucas são as alternativas:juntar  forças para formar uma novamaioria  ou nos prepararmos paraenfrentar o ponto de ruptura  gestadopelo processo social. Em qualquer hipótese, o “Fora Bolsonaro!” é o ponto departida para a ação da esquerda socialista.

Cem anos de Paulo Freire – A atualidade de Paulo Freire,obra e vida,  cresce no inevitávelcontraste com  a triste realidade denossos dias. De um lado a curiosidade, a decifração do desconhecido,  a perquirição e a dúvida metódica, opensamento e o saber como instrumentos de libertação, a aposta no homem comoconstrutor de seu destino,  apromessa   de novo mundo. A esperança,enfim. De outro, a superstição, o arcaísmo, as certezas míticas, as ilusõesmessiânicas, a pobreza de espírito, a regressão histórica, construindo adesilusão e o desengano.  A desesperança,enfim.

Por: Roberto Amaral - escritor e ex-ministro de Ciência eTecnologia.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários