Geral Brasil:

Brasil: as desventuras do gigante ensimesmado (Por Roberto Amaral)

Brasil: as desventuras do gigante ensimesmado (Por Roberto Amaral)

02/10/2021 18h02 Atualizada há 5 anos atrás
Por:
Brasil: as desventuras do gigante ensimesmado (Por Roberto Amaral)


Nos primeiros tempos da colonização ficamos aterrados aolitoral, “arranhando as costas como caranguejos”, como observou Frei Vicente deSalvador em sua pioneira História do Brasil. Quando desbravou  o sertão, nabusca do ouro, da prata e do apresamento dos silvícolas, para a escravidão e otráfico,  o conquistador – frentes depaulistas, nortistas, caboclos e mamelucos – isolou-se ainda mais emaldeamentos perdidos em meio à imensidão do território desconhecido.

O andar da história parece haver aprofundado esse sentimentode insularidade que se manifesta, até, na distante relação que mantemos comnossos vizinhos, vistos sempre de soslaio. No continente somos como uma ilha,uma civilização à parte,  autarquia  de costas para a civilização hispânica.

Para o comum de nosso povo (que em sua maioria vive longedas fronteiras internacionais), o mundo se apresenta de quatro em quatro anos,nas rodadas da copa do mundo de futebol. E mesmo assim só tomamos conhecimentodaqueles países que são escalados para jogar conosco, segundo são apresentadospelos  programas de televisão financiadospelos patrocinadores do evento. Passada a refrega, logo nos esquecemos daspequenas lições de geografia. Fora desses episódios, reina, majestosa, aabsoluta ignorância de outros países e continentes, a começar pela África, de cujos povos, escravizados emartirizados,  descende mais da metadedos brasileiros. A casa-grande se descarta desse passado, como se fossepossível fugir de sua  condição deherdeira do escravismo colonial; detesta nossa formação de povo (e por issomesmo com ele não se identifica) e de país (por isso  não se sente comprometidacom seu destino). Sua  visão de mundo éditada pelos  interesses imediatos, queestão sempre nas metrópoles hegemônicas da vez: Portugal, Inglaterra e, narepública, EUA, principalmente depois da segunda grande guerra, a partir dequando a influência assumiu os contornos de tutela.  Tais interesses e essa dependência, queentrelaça o econômico-militar com o ideológico, presidem a vida nacional emtodos os campos de sua manifestação.

Essa visão provinciana do mundo está grafada nas páginas enas telas  do noticiário da imprensa, ereflete uma leitura reducionista da realidade que nos faz ver a humanidade e ahistória a partir das lentes e dos conceitos de duas ou três agênciasinternacionais de notícias com sede no império. O noticiário dos grandes meiose os comentários e análises dos chamados “especialistas” (no mais das vezestradutores de releases) meramente reproduzem o que nos vendem essas agências,rigorosamente atentas aos interesses de suas matrizes. O mundo para aí. Nostempos da Guerra Fria a fonte de “conhecimento” eram as Seleções do Reader’sDigest, já então arcaicas. Hoje, os mais ilustrados leem The Economist ou oFinancial Times, sem qualquer viés crítico. E passam a desempenhar o papel decorreias de transmissão da propaganda ideológica do Departamento de Estado dosEUA. O insulado país descrito por Lindsey, que só olhava para  seu umbigo,agora se encontra à míngua de identificação, porque o que conhece de si chegapelo prisma da dependência ideológica, necessariamente reducionista, a nosimpedir de ver o mundo em sua complexa heterogeneidade, e a compreender ahistória em seu amplo leque de possibilidades. Cegos e condicionados,renunciamos à escolha de nosso papel, de nossa inserção no mundo.

Esse isolamento, trabalhado pela tutela ideológica, temafastado das análises à tragédia contemporânea a consideração do papeldesempenhado pelo establishment dos EUA na desestabilização do governo Dilma(consabidamente os abalos começam a ser encetados já na presidência de BarackObama), e na organização da extrema-direita brasileira, a partir das eleiçõesde 2018 e vitória do insólito capitão, a que não faltou a participação ativados recursos monetários e políticos da Faria Lima. Os EUA de Trump e Biden nadatêm por reclamar do atual governo brasileiro, posto que se trata de aliadosubalterno  ocupando espaço  estratégico no Atlântico Sul, quando suamelhor atenção – isto é, da diplomacia canhoneira – se volta para a Eurásia,onde está sendo jogado seu destino como potência hegemônica.

A ascensão da China não apenas implica competição econômica(que não ocorria ao tempo da URSS), como sinaliza a aparentemente inevitáveltransição de poder recalcitrante do Ocidente para a Eurásia, transição que nãoconhece precedente histórico que tenha prescindido de conflito militar,preparado, como agora, por escaramuças econômicas e diatribes políticas, comotem lembrado o professor Manuel Domingos Neto em seu curso “Estudo do militarbrasileiro”.

Mais do que nunca o império precisa de segurança em seuquintal, que compreende tudo – gente, povos, países – que se encontre ao sul dorio grande.

O império não pode dispensar nem a aliança automática denossas forças armadas nem a subserviência do atual Itamaraty, tão longe estamosdos bons tempos de política “ativa e altiva” de Celso Amorim, Samuel PinheiroGuimarães e Marco Aurélio Garcia, tão próximos estamos da abjeção dos tempos domarechal Castello Branco, quando o general Juracy Magalhães, nosso embaixadorem Washington, declarava que “o que é bom para os EUA é bom para o Brasil”.

Não avançaremos na exata compreensão do que seja e impliqueo golpe de Estado continuado instalado em 2016, e muito menos avançaremos nadiscussão sobre a estratégia de luta sem nos determos sobre o papel doimperialismo e do capitalismo brasileiro, rentista e dependente, associado aogrande capital financeiro internacional, hoje receoso de cumprir o papel domolusco no choque das grandes ondas contra o rochedo pois este  é o conflito que se avizinha entre EUA eChina. A busca do desfecho é mais agônica para o império, pois vê o tempo comoaliado do fortalecimento econômico e militar do grande adversário e seusaliados, entre os quais se encontra uma Rússia armada de mísseisintercontinentais carregados com ogivas nucleares. Especialistas cogitam de umaalternativa à hecatombe nuclear, que seria uma guerra convencional pelo domíniodo Pacífico...

No quadro de hoje, e se não houver alteração na correlaçãode forças internas, não teremos, sequer, a oportunidade de escolher a forma denossa inserção no conflito, que, embora sendo dos outros, nos atingirá.

A este quadro internacional ensejador de muitasinterrogações do ponto de vista estratégico-militar, soma-se a crise geral docapitalismo  aguçada a partir de 2008 coma explosão da bolha imobiliária nos EUA e a quebra do Lehman Brothers  corroendo a União Europeia, chegando até nós.O analista precatado não deve ignorar a possibilidade do efeito cascata da anunciada bancarrota da gigantechinesa da indústria da construção civil que entre nós afetou o índice Ibovespa, na medida em que derrubou asações  da Vale. No plano nacional, o ditomercado já trabalha com uma inflação de dois dígitos, com o aumento da taxaSelic,  a queda das estimativas docrescimento do PIB (variável entre 1,0 e 0,4% sobre 2020), e, em síntese, com oque os economistas de plantão chamam de estagflação, que nos alcança após maisde dez anos de recessão e desemprego crescente. Os juros crescem pelo segundomês seguido, e alcançam o patamar de 21,1%, enquanto cai o crédito para asempresas.

Beco sem saída? Não. Se não nos faltarem ânimo e competênciapara a organização popular, para levar a cabo o mais amplo esforço visando àpolitização das grandes massas – das quais se afastaram o discurso e a ação daesquerda socialista (principalmente a partir da campanha presidencial de 2002),e dos governos de centro-esquerda, quando confundiram a necessidade tática daaliança conservadora (as “razões de Estado”) com a renúncia estratégica à lutade classes.

E salve a vitória da centro-esquerda na Alemanha!

Por: Roberto Amaral - escritor e ex-ministro de Ciência eTecnologia.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários