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O governo, que já devastou nosso presente, trata de nos negar a chance de futuro (Por Roberto Amaral)

O governo, que já devastou nosso presente, trata de nos negar a chance de futuro (Por Roberto Amaral)

14/10/2021 20h05 Atualizada há 5 anos atrás
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O governo, que já devastou nosso presente, trata de nos negar a chance de futuro (Por Roberto Amaral)



Pois destruir essainstituição, o hoje Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico eTecnológico-CNPq, vinculado ao MCTI,  é oprojeto do governo do capitão, a que se associa a maioria do pior Congresso quenosso país já teve em toda sua tumultuada vida republicana! Em ofício àComissão Mista de Orçamento (CMO) do congresso nacional, o especulador PauloGuedes decidiu, com a aquiescência de todos os partidos (menos o PSOL,registre-se),  cortar os recursos antescarreados à ciência e tecnologia, no montante de R$ 690,00 milhões, para merosR$ 55,2 milhões destinados a pesquisas com radiofármacos (e insuficientes paraesse fim). Trata-se de sentença de morte que pesa sobre os destinos do país,condenando-nos a atraso  irremediável.

O macabro objetivodo bolsonarismo é destruir o Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação,construído numa saga que já completa 70 anos. A razia opera mediante o garrote financeiro. Enquanto os países da OCDEinvestem, em média,  mais de 2% de seuorçamento em ciência e tecnologia, a Coreia do Sul e Israel mais de 4%, oBrasil, em 2020, investiu apenas 1% e ainda reduziu drasticamente os recursosdestinados a 2021! O governo que desconstitui o ensino superior também investecontra a base da escolaridade. Segundo a mesma OCDE, entre 40 países avaliados,o Brasil é aquele em que o piso do professor do ensino fundamental é o maisbaixo.

Em 2020 o MCTI(valores corrigidos) recebeu menos recursos do que em 2009, e o orçamento para2021, tanto quanto o  do MEC, já eraminferiores aos dos anos anteriores.


Para onde vai a“economia”?

Os  recursos desviados do CNPq serão distribuídospelo governo através da artimanha "emendas do relator do orçamento", excrescência da legislaçãoorçamentária que permite irrigar as bases eleitorais dos apaniguados semobedecer ao princípio constitucional da transparência.

Como combater asdesigualdades em país que mais e mais aprofunda a concentração de renda, se nãoinvestimos em educação? Na CAPES-Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal deNível Superior, fundação do Ministério da Educação responsável pelaconsolidação do sistema de pós-graduação no Brasil, os recursos caíram de R$2,8 milhões  em 2020, para R$1,9 milhãoeste ano. Quando no mundo faltam semicondutores, afetando até a produçãoindustrial brasileira, o capitão está liquidando o Centro Nacional deTecnologia Eletrônica Avançada SA - CEITEC, a maior empresa produtora desemicondutores do país, que forma mão de obra, promove pesquisa e desenvolveprodutos para o mercado nacional.  Comotransitar da condição de país economicamente atrasado e politicamentedependente na periferia do capitalismo, como superar o estágio de tradicionalexportador de matérias-primas para a de exportador de produtos com valoragregado, como industrializar-se e competir no mercado internacional, como,enfim, desenvolver-se, quando o sistema nacional de ciência e tecnologia édesmontado?

O governo,  que já devastou nosso presente, trata agorade nos negar a chance de futuro, uma faina à qual se dedica desde o primeirodia em que, com seus engalanados bem comissionados se aboletou em Brasília,perseguindo a inteligência brasileira, cortando recursos fundamentais para oensino, a pesquisa e o desenvolvimento científico.

O Brasil, que nacolônia  foi campeão nas exportações deaçúcar e café e outros produtos tropicais demandados pela Europa, e hoje éorgulhoso exportador de grãos e minérios, no regime que nos atanaza  passa a exportar cérebros para os paísesricos e desenvolvidos.  Desesperançados,  jovens pós-graduados, formados em nossasuniversidades,  são obrigados a migrar,na busca de condições favoráveis para a continuidade de seus estudos e odesenvolvimento de suas pesquisas. O bolsonarismo aprofunda o atrasocientífico-tecnológico, e o projeta para muitas décadas adiante.

Os gastos comcartão de crédito corporativo (pagos pela União, isto é, com nossos impostos)já somam R$ 50 milhões na gestão Bolsonaro. O patrimônio da DreadnoughtsInternational Group, offshore criada em 2014 nas Ilhas Virgens Britânicas,  pelo ministro Paulo Guedes, é de R$ 52 milhões a ponta de um iceberg - que oespeculador admite ter lá depositada em seu nome. Pois R$ 55,2 milhões é tudoque o CNPq receberá para pesquisa com radiofármacos (remédios destinados aocombate ao câncer e também usados para diagnóstico por imagem), cuja produçãochegou a parar em setembro, por falta de recursos,  consequência do corte de 92% das verbasdestinadas ao Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico-FNDCT,desviadas do MCT com a criminosa omissão do astronauta, a quem falta anecessária dose de amor-próprio para pedir demissão.

Mas, para pedirdemissão, o ministro precisaria, antes, ser ético. Como militar candidato a astronauta, passou sete anos em doce ebem remunerada vilegiatura nos EUA, e, para desfrutar de algumas  horasno espaço, obra sem serventia para o país, custou ao erário a bagatela de R$ 37milhões, parte suprida pelo ministério que ainda ocupa. Quando de seu regresso,logo foi mandado para a reserva bem remunerada, montou empresa para gerenciarpalestras - às quais comparecia com o macacão da NASA, até ser repreendidopelos seus chefes na FAB. Resolveu, então, vender colchões e travesseiros, eassim terminou a carreira de garoto-propaganda.

O CNPq, engenhopensado pela inteligência de Álvaro Alberto, seu primeiro presidente, vem desde1951 fomentando a formação de pesquisadores brasileiros em todas as áreas doconhecimento. O que hoje podemos chamar de ciência brasileira é fruto do seu exercício na formação científica, napesquisa básica e na pesquisa aplicada, no desenvolvimento tanto das ciênciassociais como exatas,  e nodesenvolvimento da inovação tecnológica nas empresas. Por isso foi semprerespeitado pelos sucessivos governos, da mais variada cepa, inclusive nomandarinato militar. O primeiro a intentar esvaziá-lo é este que nos assolapresentemente.

Valendo-me daexperiência de ex-ministro de Ciência e Tecnologia, arrisco-me a afirmar quenão há um só pesquisador brasileiro  cujacarreira  em algum momento não tenhacontado com  apoio da instituição. Asprincipais conquistas da ciência brasileira, lembra o professor Wanderley deSouza -- como o desenvolvimento do setor agropecuário, a exploração de petróleoem águas profundas e no pré-sal, a utilização do etanol como combustível, osavanços na área nuclear, a produção de vacinas --,   tiveram a participação do CNPq a quem aindadevemos o apoio  a  instituições fundamentais para odesenvolvimento da ciência brasileira, como o Laboratório Nacional de LuzSincrotron, o Museu Emílio Goeldi, o Instituto Nacional de Pesquisas daAmazônia e o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, instituições cujodesempenho não podem dizer respeito ao mundo de interesse de um relesespeculador financeiro, como é o atual ministro da economia, de um presidente derepública réprobo e de um ministro de ciência, tecnologia e inovações quedesconhece o que sejam tais coisas. Além de um congresso nacional hegemonizadopelo centrão, o que há de mais espúrio na abastardada representação políticabrasileira.

É o indispensávelCNPq que o bolsonarismo, com a inefável colaboração de um congresso vexaminoso,se dedica a destruir: em 2013 seu orçamento foi de cerca de R$ 3 bilhões. Em2021 caiu para R$1 bilhão. Redução de recursos significa, por óbvio, redução doapoio a projetos e menor número de bolsas de estudos - cujos valores, porsinal,  estão congelados  há vários anos. No caso concreto inviabiliza,ainda,  a recuperação de  parte da infraestrutura dos laboratórios eequipamentos, caríssimos, de alta especialização, perdidos com os cortes deverba que vêm atingindo a área desde principalmente 2015. País que não investena formação de quadros superiores é sociedade que renunciou ao seudesenvolvimento, abdicou das esperanças de soberania, conformou-se com a pobreza e se alimenta de profundadesigualdade social. Este o país, em marcha à ré,  que estamos condenados a herdar em janeiro de2023, se antes não tivermos condições de nos livrar da satraparia governante.

Legado de Bolsonaro-Guedes: nos últimos 12 meses o gás debotijão subiu 34,17% (mas vem crescendo ininterruptamente há 16 meses), aenergia elétrica 64,77%, a gasolina 39,6% e o etanol 64,77%. E o generalJoaquim Silva e Luna reafirma a política de aumentos constantes doscombustíveis,  para garantir  bom rendimento aos acionistas da Petrobras. Acesta-básica passa de 60% do salário mínimo, quando 50% da população com maisde 16 anos vivem  em residências cujareceita não ultrapassa dois salários mínimos. Num corte de 40 países, o Brasilconquistou o campeonato da desigualdade, como aponta estudo da FGV com dados doGallup World Poll (Estadão, 11/10/21). Estagflação é o fenômeno que já estamosvivendo, como resultado do encontro de uma inflação alta (10,25% com estimativa de 18%) com um PIB per capita de 1,3%.É o avanço do retrocesso.

Sertânia- O filme de Geraldo Sarno é a boa sugestão paraquem gosta de arte. Argumento clássico da saga nordestina, direção e fotografiaexcelentes.

Pro: Roberto Amaral i escritor e ex-ministro de Ciência eTecnologia

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