A classe dominantebrasileira é uma das mais longevas do mundo, porque competente na preservaçãodo mando político-econômico, o mesmodesde a colônia, imune como se mostra a transformações sociais, políticas eeconômicas. Seu poder foi regado no escravismo e sobreviveria com a abolição eo trabalho assalariado, mediante as mais variadas formas de exploração; projeçãodos interesses reinóis, sobrevive na independência, e no império transitou dodomínio português para o serviço docolonialismo britânico. Hoje é agente subalterno dos EUA. O país caminha do agrarismo à industrialização noséculo 20, da vida rural ao urbanismo; conhece insurgências de toda ordem, e emtodas elas o povo é massacrado; desfaz-se da monarquia anacrônica, a última docontinente, e adota a peculiar forma republicana de governo sem povo, dedemocracia juncada de golpes de Estado e ditaduras. Os antagonismos se resolvemna conciliação, sob o comando da classe dominante, que não permite reformas defato. Seu objetivo, lembrava José Honório Rodrigues, foi sempre acomodar asdivergências dos grupos hegemônicos e jamais conceder benefícios ao povo, postode lado, capado e recapado de seu papel de sujeito histórico, como escreveuCapistrano de Abreu.
O país conheceumomentos de turbulência e momentos de progresso e expansão capitalista. Háquarenta anos convive com a estagnação econômica, de par comdesindustrialização e brutal concentração de renda. O poder da casa-grande,porém, mais se fortalece. O paísexportador de açúcar e algodão, na colônia, enriqueceu a oligarquia paulista na república com as exportações de caféa preços subsidiados pelo resto do país; hoje exporta grãos e minério innatura, além de cientistas e pesquisadores, aos quais nega emprego, apósinvestir em sua formação. Aos trancos ebarrancos, o Brasil se modernizou e hoje é uma das dez principais potências domundo, sem haver combatido as desigualdades sociais, o que revela o projeto desociedade que nos governa. Em 500 anos de construção histórica, nadaameaçou a classe dominante, impávida,insensível, intocada, reproduzindo o mando da velha casa-grande, na colônia e narepública, o poder da terra e do capital concentrado, financeirizado, globalizado.
Em 1930 comandou uma “revolução” que não arranharia aordem social e econômica; um de seuslíderes, o governador mineiro Antonio Carlos de Andrada, proclamava: “Façamos arevolução antes que o povo a faça”. Modernizando o país a partir de umaditadura (o “Estado novo”), o movimento de 1930 fortaleceu a ordem capitalista,e a “elite” econômica conservou o mando que não admite concessões à emergênciade interesses nacionais ou populares. Talvez, nesse processo histórico,estejamos próximos de encontrar explicação para o atraso da burguesia aquivivente (e daí o atraso do país “que não dá certo”): sendo brasileira, não énacional, pois jamais se conciliou, seja com os interesses da nação, seja comos interesses de seu povo; não tendo sido, jamais, progressista, nunca seconflitou com a aristocracia feudal, nem conheceu a menor contradição com osinteresses do imperialismo, do qual desde cedo se fez sócia menor. A contradiçãocapital nacional versus imperialismo se resolveu numa composição de interesses.
Para essaburguesia, o povo é um incômodo e qualquer sorte de projeto nacional umanacronismo.
Essas observações mechegam com a leitura de entrevista concedida ao Estadão (16/10/2021) pelopresidente do conglomerado controlador do banco Itaú e uma série de outrasempresas. O banqueiro pede mais reforma trabalhista; não está satisfeito comos direitos já surrupiados dos trabalhadores.Quer mais abertura econômica, mais privatizações, defende o aumento de juros,embora saiba que não sofremos de inflação de demanda. É calorosamente contra oimpeachment de Bolsonaro. Com o mesmo entusiasmo se diz eleitor de João Doria,que considera “um grande gestor público”, injustiçado pela avaliação popular. Aentrevista é longa. Nenhuma palavra lhe ocorreu, porém, sobre o desemprego, queatinge 14,7% da população ativa do país. Nada sobre a carestia que maltrata apopulação brasileira: a cesta básica passa de 60% do salário mínimo, e 50% dapopulação brasileira com mais de 16 anos mora em residência cuja receita nãoultrapassa um salário-mínimo. O endividamento das pessoas representa 59,9% darenda média nacional, o pior resultado desde 2005, quando o indicador começou aser apurado. Pelo menos 110 milhões de brasileiros convivem com algum grau deinsegurança alimentar (dados de 2020).
Nenhuma palavrasobre as mais de 603 mil vidas levadas pela pandemia.
Muitas palavras,porém, para defender uma alternativa aBolsonaro que não seja Lula. O sr. Alfredo Setúbal não é um ponto fora dacurva, pelo contrário: suas opiniões, sua visão de mundo e de Brasil refletem opensamento da atrasada classe dominante brasileira.
Há algumas poucassemanas, um analista da política visitou as praças do Rio de Janeiro e SãoPaulo para conhecer a visão do grande empresariado sobre o quadro políticobrasileiro e as expectativas para 2022, delineadas a partir das pesquisas deopinião, fartamente divulgadas pela imprensa. De suas entrevistas colheu amanifesta rejeição à candidatura do ex-presidente Lula, a mesma rejeição que agrande oficialidade não cuida de disfarçar. É essa gente desapartada do país e do povo que dita o ritmo da políticae economia. É com ela, portanto, que Lula terá de sentar para discutir um pactode governabilidade, se conseguir se eleger mais uma vez. Não será fácil; Dilmanão conseguiu.
O povo passa fome mas os bancos... Segundo o Relatório de Estabilidade Financeira,divulgado pelo Banco Central (18.10.21), a rentabilidade dos bancos no 1ºsemestre deste ano retornou ao nível pré-pandemia. O lucro das instituiçõesfinanceiras também cresceu. Já o Retorno sobre o Patrimônio Líquido, conhecidocomo ROE, chegou a 14% nos 12 meses encerrados em junho deste ano, índice maiselevado desde maio de 2020.
Ilustração da miséria - Vídeo que circula nas redes sociaismostra um grupo de pessoas catando restos de alimentos de um caminhão de lixoem Fortaleza, em frente a umsupermercado no bairro Cocó, área nobre da cidade.
Por: Roberto Amaral - escritor e ex-ministro de Ciência eTecnologia.
Brasil Lula reafirma compromisso com Justiça e transparência em entrevista ao Jornal Nacional
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