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O imponderável mundo novo (Por Roberto Amaral)

O imponderável mundo novo (Por Roberto Amaral)

08/11/2021 11h48 Atualizada há 5 anos atrás
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O imponderável mundo novo (Por Roberto Amaral)

Sugeridos pelaexpectativa das próximas eleições – para muitos a possiblidade de mudança com aqual podemos contar –, partidos políticos e fundações as mais variadas, grupossociais, entidades de classe e sindicatos se voltam para a formulação de planose programas de governo. O ponto de referência é o quadro trágico de nossarealidade, que deita consequências para além dos  tristes dias de hoje. O concursocivil-militar governante desde 2016 não se satisfaz em destruir o presente dopaís e de seu povo – condenado à desesperança – e cuida mesmo de nos privar dofuturo, mediante o combate sem tréguas ao conhecimento científico, atacando aeducação e a cultura de um modo geral, mas concentrando seu poder de fogo omais letal contra a universidade pública, centro de produção de algo como 90% da pesquisa acadêmica, sejaem ciências sociais, seja em ciências exatas. Universidade onde são formadosnossos cientistas e pesquisadores, nossos mestres e doutores, nossos melhoresespecialistas; onde são cultivadas a ciência e a inovação, sem as quais  não há como cogitar de desenvolvimento, sejaeconômico, seja social. No mundo da revolução tecnológica, um continuum deavanços  encadeados,  assistimos de braços cruzados à destruição dosistema nacional de ciência e tecnologia. A universidade, porém,  conserva-se aquietada sob o peso de seusinteresses corporativos. O que espera para pôr-se de pé? O milagre da fênix?Diante do criminoso projeto do bolsonarismo permanece silente o empresariadoindustrial, como se esse desastre não lhe dissesse respeito, como se fossepossível pensar em indústria sem desenvolvimento científico-tecnológico.Comprometidas com esse desastre, estão as forças  armadas brasileiras,  como se fosse possível pensar em defesa semindústria nacional. E se o país não tem como defender-se, como justificar  o custeio de uma estrutura tão cara? Poroutro lado, em festa está  o complexoagrário-exportador, exportando minério bruto enquanto o país importa trilhos,exportando matéria-prima para importar produtos manufaturados, exportando sojae milho in natura e proteína animal quando mais da metade da população dopaís  vive em condições de insegurançaalimentar. Ignora o papel da Embrapa no aumento da produtividade agrícolabrasileira, e observa com indiferença o desmonte da pesquisa que alicerçou seuslucros. Como na colônia e no império, vive a economia do país, em plenoterceiro milênio, em função das bolsas de commodities, mirando Walt Street parasaber a quanto anda a desvalorização de nossa moeda, aumentando juros paracombater uma inflação estrutural. Como se fosse um destino irremovível viver naperiferia do capitalismo.

Enquanto o capitão Bolsonaro e a súcia de engalanados que omantém no terceiro andar do palácio do planalto trabalham dia e noite contra odesenvolvimento científico-tecnológico brasileiro, a China acaba de lançar seucomputador quântico, o Zuchonhzhi-2. Baseado na tecnologia de fótons de luz, écapaz de atingir a velocidade 100 sextilhões de vezes maior do que os maisrápidos computadores convencionais (Physical Review Letters, 25/10/2021), essesque ainda não fabricamos.

A média das reflexões e das propostas de programas degoverno, como a da Frente Brasil Popular, parte do ajuizado pressuposto segundoo qual nada do que é necessário para alterar o presente imediato, ponto departida para pensar em um novo país, simplesmente aquele no qual os pobrescaibam no orçamento, pode ser cogitado sob a atual ordem político-militar,  o que, de logo, define o que fazer. A tarefaprimordial para a esquerda brasileira é, pois, a remoção do entulho, para oque, se a canoa não virar, temos encontro marcado em 2022. Para lá chegar,porém, estamos desafiados a construir uma nova correlação de forçaspolítico-social capaz de assegurar a mudança, evitando uma nova frustraçãonacional. É o desafio de construir uma nova maioria, o que pede um discurso quefale sobre o futuro das grandes massas marginalizadas de nosso tempo. Algo queainda não será a sociedade sem classes, a promessa de bonança futura, quando opobre vive a tragédia social do cotidiano. Se o ponto de partida é o  indispensável sucesso eleitoral, aefetividade da mudança dependerá da arquitetura de uma nova ordem políticafundamentada em um pacto nacional-popular capaz de fazer frente ao pacto daselites, a ordem  da casa-grande, legadocolonial de escravismo e latifúndio que sobrevive na sociedade urbana eindustrializada.

Em síntese e na fronteira do óbvio, ressalta-se: não bastaganhar, pois é preciso ganhar em condições de executar um programa que, emboraainda muito distante de qualquer sonho revolucionário, precisará serdecididamente reformista, preparado para realizar, ainda nos termos docapitalismo dependente e atrasado, a reforma do Estado, a reforma agraria, areforma tributária, a reforma política, a reforma do poder judiciário, aregulamentação dos meios de comunicação tecnológicos, a reforma universitária,para citar aquelas mais ingentes. Nesse novo governo, novo porque sustentadopor uma nova correlação de forças, o Estado retomará o planejamentogovernamental e a intervenção na economia como vetor de desenvolvimento, aexperiência que, nascida na sequência da “revolução” de 1930, chegou aos anos1980 com o Brasil ostentando níveis de crescimento em torno da média anual de10%. Ou seja, ser reformista já será muito, consideradas as condições atuais deluta e o nível da organização social. Reconhecer o atraso político é o primeiropasso para encontrar a porta de saída.

Qualquer plataforma de governo é,  antes de mais nada, um projeto político, oque pressupõe uma visão de mundo e de sociedade. É evidente que no quadrovisível a olho nu seria irresponsável as forças de esquerda suporem aexistência de condições objetivas para a mudança de mando. Mas o outro lado dovoluntarismo não pode ser a renúncia niilista à luta, porque simplesmente ahistória não acabou, e há, sempre, tarefas por cumprir. Sem descartar oestratégico  que é a ruptura, sabem ossocialistas que há   muito o que fazer nosentido do progresso social – ainda nos limites trágicos de nosso capitalismotemporão, atrasado e  dependente. Porqueentre nós o enfrentamento da sociedade de classes compreende o enfretamento auma burguesia que jamais foi progressista e jamais comprometida com o interessenacional, sempre desinteressada pela democracia e o progresso social. Seuhistórico é de serviçal do capital financeiro internacional. Nem mesmoreformista é; pois impedir as reformas meramente burguesas edesenvolvimentistas  propostas por JoãoGoulart foi a justificativa para seu apoio político e  financeiro ao golpe militar de 1964, e sua adesão, recompensada, à ditadura, até omomento em que os militares se sentiram sem condições de manter o regime, eresolveram negociar uma transição inconclusa para a democracia e o poder civil.Suas restrições ao lulismo têm origem na recusa a qualquer sorte de emergênciadas massas. A aversão ao varguismo, industrialista e desenvolvimentista,remonta à ligação do ditador reformista com os trabalhadores, e sua veianacionalista. Essa classe dominante que hoje se banqueteia com o bolsonarismo éherdeira do escravismo e do latifúndio colonial, filha do engenho de açúcar eda lavoura do café; defensora do statu quo, é desafeita ao progresso, inimigada mudança, senão daquela que signifique a consolidação de seu poder, sobre aterra, o país e sua gente. Mesmo a burguesia industrial, aquela que pôde brotarem meio ao atraso secular, está desvinculada do interesse nacional, conformadacom o papel de associada menor das multinacionais.

Nenhum   projeto defuturo imediato (uma formulação que pressupõe “passar a limpo” esses anos dedestruição nacional) pode ver a história como um processo  linear, ou o país imune às profundastransformações que se operam no mundo, com a transição da hegemonia político-ideológicae econômica do ocidente para a Eurásia, do Atlântico para o Pacífico,desconcerto que se opera concomitante com a transição da hegemoniapolítico-econômico-científica dos EUA para a China, anunciando traumasprofundos nas relações internacionais, mais profundos do que aquelas crisesparticulares do desenvolvimento capitalista ocidental-europeu que marcaram ahumanidade no século passado, com duas guerras mundiais.

Esse “novo mundo” cobra reflexões inovadoras, releitura delições antigas, o abandono de certezas axiomáticas, eis que estamos diante defatos novos.

O pano de fundo da história presente é a revoluçãotecnológica -- sob a qual já vivemos mesmo na periferia do capitalismo --,anunciando rupturas das relações de produção e no mundo  do trabalho, cujas consequências apenas seanunciam, desafiando a imaginação dos profissionais da futurologia.   Modificações, por certo, mais profundas doque aquelas que na segunda metade do século XVIII anunciaram a revoluçãoindustrial.

Esse imponderável novo mundo de desafios pode estaroferecendo ao Brasil um quadro de alternativas impensável  poucas décadas passadas. Podemos ser, comoagora, mero instrumento (sem vez, sem voz, sem querer) no choque das grandesalternativas, repetindo o papel do molusco na guerra entre o rochedo e omar;  como também poderemos ser atordecisivo, se nos sobrar engenho e arte para construir nosso próprio destino. Senada podemos esperar da classe dominante brasileira, alienada e forânea, tudopassamos a depender da construção de uma nova maioria nacional.  


Plantão econômico – A inflação, segundo os analistas demercado, chegará até o final do ano na temida escala dos dois dígitos: 10%. Masa inflação dos alimentos, segundo cálculos da PUC-Rio, já está em 15,96%, quando 90% dos reajustes sindicais ficaramabaixo da inflação estimada.

Brava gente – O TSE, finalmente, concluiu que o capitão e ogeneral se valeram de fake news na campanha de 2018 o que constitui crimeeleitoral, punível com a cassação dos mandatos. Mas, abrandado a bravura,decidiu que só punirá a prática se os meliantes o repetirem em 2022.

Um gesto que ilumina – A Academia Brasileira de Letras ficoumais brasileira, mais jovem e mais contemporânea com a eleição de FernandaMontenegro.

Fiapo de esperança – Se ainda sobrevive um mínimo dedignidade no PSB de hoje e no PDT de sempre, suas executivas devem fecharquestão e determinar às bancadas na Câmara dos Deputados o voto não à PEC docalote, quaisquer que venham a ser os prejuízos pessoais de um ou outroparlamentar. 

Por: Roberto Amaral - escritor e ex-ministro de Ciência eTecnologia.

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