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No Brasil o pobre passa fome e o rico ri à toa (Por Roberto Amaral)

No Brasil o pobre passa fome e o rico ri à toa (Por Roberto Amaral)

14/11/2021 16h35 Atualizada há 5 anos atrás
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No Brasil o pobre passa fome e o rico ri à toa (Por Roberto Amaral)

O Brasil, queperdeu a primeira revolução industrial (porque a casa-grande optou pelapersistência de  uma arcaica sociedadeagrário-exportadora fundada no latifúndio e no escravismo),  corre o risco de mais uma vez deixar passarvazio  o bonde da história; quando omundo avança tão celeremente  no domíniode novas tecnologias, abrindo um leque inimaginável de transformações políticas e sociais, com a atividade econômica exigindo cada vez mais conhecimentocientífico e tecnológico, ou seja, mais escolaridade, o Brasil do capitãoBolsonaro, da burguesia financeira e dos engalanados que lhe dão sustento viraas costas para o ensino, a pesquisa e a inovação. Breve, o fosso tecnológicoque já nos separa dos desenvolvidos – os países produtores de conhecimento–  será intransponível, condenando asfuturas gerações a novas formas de subdesenvolvimento,  com seu contingente de fome e injustiça social.

Quando seexacerbam as rivalidades de blocos, anunciantes do confronto entre oimperialismo norte-americano e a emergência eurasiana, liderada pelaChina,  ensejando a países com as nossascaracterísticas a oportunidade de abrir seu próprio caminho, o governo docapitão, dos generais  comissionados edos empresários sem pátria opta pela aliança subalterna à geopolítica do grandeirmão do Norte. É o preço de uma classe dominante alienada e forânea, refletidano bolsonarismo.

No plano interno,o saber é visto sob suspeita; a escola pública é mal a ser erradicado; aprodução do conhecimento, mormente aquele que enseja a autorreflexão, é chaga aser combatida. O Brasil dos sonhos do reacionarismo não precisa de técnicos, decientistas, de pesquisadores ou de professores, simplesmente porque nãovislumbra projeto autônomo de sociedade e país.

Este verdadeiroantiprojeto nacional, no qual se empenha o bolsonarismo, é, contudo, obrapartilhada pela classe dominante, porque dele usufrutuária; não se ouve, atéaqui, um pio de protesto do chamado empresariado quando o governo, com oconcurso de um congresso dominado pelo fisiologismo do “centrão”,   corta quase todo o orçamento do CNPq, 90%das verbas destinadas à pesquisa. O país vai mal; o povo, desempregado,subempregado ou desalentado, de mal a pior; mas a casa-grande ri a bandeirasdespregadas.

O neoliberalismodo ministro da Economia levou o país à estagnação, os trabalhadores aodesemprego; no entanto, quanto mais aumenta a pobreza, mais crescem osdividendos da burguesia rentista, beneficiária de um capitalismo demarginalização social, cujo leitmotif é aumentar o lucro dos que já têmtudo.  Dos pobres se extrai o salário, aprevidência, o trabalho e a esperança. Se o real –arrastado pela estagnaçãoeconômica – é desvalorizado, os especuladores, como o inominável Paulo Guedes,acumulam dólares nos paraísos fiscais onde enfurnam suas fortunas, que nãoparam de crescer enquanto  a economianacional desliza ladeira abaixo.

Os números são escandalosos:em dez anos o crescimento de favelas corresponde a 95 mil maracanãs.

Possuímos umaorgulhosa agricultura,  altamentecapitalizada, de alta produtividade e de alta lucratividade,  mas que não alimenta a população. Hoje, nasegunda década do terceiro milênio, 112 milhões de brasileiros sofrem algumgrau de insegurança alimentar e 20 milhões enfrentam a fome, diariamente(Dados  da Rede Brasileira de Pesquisa emSoberania e Segurança Alimentar).

A produçãoindustrial, enquanto a FIESP nem tuge nem muge, observa a quarta queda mensalconsecutiva e a sétima em nove meses, imposta por redução de demanda.  Caiu em outubro (0,4%) quando em setembro jáestava em 19,4% abaixo de maio de 2011, assinalando um comportamento negativopersistente. Qualquer hipótese de desenvolvimento vai requerer investimento,uma dependência do mercado interno que não se conjuga com concentração de rendae desemprego.

A panaceia doespeculador sentado no ministério da economia é a redução de direitos trabalhistas,  mantra do sistema financeiro, enquanto ofracasso rotundo do neoliberalismo de oitiva favorece a persistente alta dodólar, alimenta a inflação e aciona a espiral dos juros que congela oinvestimento privado.

O perversocasamento da inflação com a recessão, constrói a estagflação, o pior dosmundos.  O PIB deste ano deve girar emtorno de 1% (se podemos nos fiar nas projeções do Banco Central).  Já relativamente a 2022 as estimativas variamentre “crescimento” zero e  0,5%(murmúrios do “mercado”).  A inflação nãodeve conformar-se nos  10% de hoje,índice já bem acima da meta (3,7%). Começaremos 2022 com uma expectativa de 11%de juros (Selic). A queda das vendas do varejo (o outro nome da queda doconsumo) de setembro último em comparação com setembro de 2020 foi de 5,5%(IBGE). Mesmo a construção civil, que se tinha como restabelecida, revela asconsequências da crise que, política, invade a economia, e se revela de corpointeiro na queda do Índice de Confiança, calculado pelo Ibre/FGV, a primeira emseis meses.

Um general daativa desmontou o Ministério da Saúde, e assim o exército contribuiu para  o aumento das vítimas da pandemia, que ocapitão batizara de “gripezinha”; um general da reserva, com saláriossuperiores a 300 mil reais,  empenha-sena destruição da Petrobrás que colegas seus de outra cepa ajudaram a construir. Quando  o Brasil alcança a  autossuficiência em petróleo, a gasolinaatinge o maior valor do século, e é vendida nas bombas à média de R$ 8,00 olitro.

O país vai de mala pior: queda da bolsa, queda da produção industrial, alta do dólar. A inflaçãode dois dígitos,  com tendencial decrescimento, corrói  a economia e consomeo poder de compra dos trabalhadores.  Odesemprego – que alcança quase 14% da população ativa --  dá as mãos à estagnação econômica, e aexpectativa de recuperar o desenvolvimento recua às calendas gregas; milhões debrasileiros passam fome – catando comida em caminhões de lixo e ossos emaçougues. Mas a burguesia financeira tem todas as razões para soltar balões,pois os bancos  jamais  lucraram como agora! O trio  Santander, Itaú e  Bradesco vê os ganhos  crescerem 28,5% no  findo terceirotrimestre. É mais um “prodígio” do capitalismo brasileiro, a fazer inveja aoprofessor Delfin Neto, o mago do “milagre econômico” da ditadura militar.  O Bradesco registrou lucro líquido de R$6,767 bilhões uma alta de 34,5% em relação ao mesmo trimestre do ano passado. Osegundo maior resultado da história do conglomerado. Mas não deixou seus irmãosde oligopólio chupando o dedo: o Itaú anuncia um lucro de R$ 6,77 bilhões, umcrescimento de 34,7% e o Santander, no mesmo trimestre, um lucro de R$ 4,27bilhões, o que representa uma alta de 12,1% sobre o mesmo trimestre do anopassado. Não há emprego, não há renda, não há consumo, produção em queda, mas ocapitalismo brasileiro é capaz de produzir assombro como esse.

 

Por isso, noBrasil, faça chuva, faça sol, rico ri à toa.

A retomada  de desenvolvimento com  progresso social está a depender de a futuranova ordem governante – na expectativa de um governo de centro-esquerda –dispor, ademais de firme decisão política, de sustentação em uma nova maioria, de que careceram os governos Vargas(1951-1954), Jango e Dilma, com as consequências conhecidas.  Essa nova correlação precisará ser concertadamediante amplo e franco debate político com toda a população, quando o programade governo (ainda só reformista) deverá ser exposto com exemplar clareza, comoem um verdadeiro plebiscito. Só nesses termos a eleição do novo presidenterepresentará a opção programática do povo, que, assim,  poderá ser mobilizado para a defesa de seusinteresses.  

 

Um país embrutecido – É estarrecedora a quase frieza com aqual o país recebeu a morte de Nelson Freire, um dos dois ou três gênios quenossos 500 anos de desencontro civilizatório conseguiram produzir.

Abaixo o arrocho salarial – Nosso apoio aos confrades de OGlobo, Valor, Estadão e Folha de S. Paulo em sua luta por condições dignas detrabalho.

Gilberto Gil imortal – Aquele abraço!


Por: Roberto Amaral.


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