Mas evidentemente a debacle fica mais evidente quandotratamos das revistas e jornais impressos. No Rio de Janeiro, nos últimos dezanos, desapareceram mais de uma dúzia de veículos diários, e no país cerraramsuas portas todos os vespertinos. Além dos vespertinos, chegamos a ter, nosanos 1960, inumeráveis diários que circulavam à noite, como o Diário da Noitee A Noite, no Rio de Janeiro, e a Folhada Noite em São Paulo. Em todo o país, hoje, não há mais de dois veículos disputando concorrência nas capitais, e asemissoras de televisão locais não passam de repetidoras das programaçõesgeradas em São Paulo e no Rio de Janeiro, sedes das grandes redes. Ao mesmotempo, deixaram a cena potentados daindústria gráfica, como os grupos Abril e Manchete (que chegou a comandar umarede de rádio e televisão) entre outros. Da diversidade, caímos no oligopólioempresarial, e daí no monopólio ideológico. No país, como ainda formadores deopinião, sobrevivem, ditando a uniformização editorial, O Globo, Estadão e Folha de São Paulo.Os chamados jornais de província sãorepetidores da linha política dos três líderes, que, por seu turno, reproduzem,ipsis litteris, as matérias das agências internacionais. Por lentes estrangeirasé que nossos leitores e telespectadores são levados a formar opinião sobre omundo, sobre outros países e outros povos, a amar a uns e a odiar outros, quasesempre sem saber por que, e sempre contra nossos próprios interesses,sotopostos pelos valores e pela hegemonia do centro imperial.
Abundam explicaçõespara o fenômeno. Registre-se as características presentes do desenvolvimento dasociedade de massas e do capitalismo monopolista, e o preço pago à liberdade deopinião pelos condicionamentos da Guerra Fria. Associe-se esses fatores à revoluçãocontemporânea da comunicação, impondo fusões, economia de meios e, porconsequência, a substituição do debate pelo monopólio ideológico. O caráter atual brasileiro das comunicações,oligopólio empresarial e monopólio ideológico, é o resultado desse processo,agravado pela inexistência de uma burguesia comprometida com o interesse nacional, pois a que temos oscila entre adefesa do statu quo e o retrocesso político-econômico cuja melhor ilustraçãosão os anos presentes e as apreensões que a expectativa do futuro imediato nos traz.
Por essas e muitas outras alterações no processo de produçãoeditorial, perdida pelos grandes meios a corrida em face da instantaneidade dainformação fornecida pelos novos meios, que transforma um celular em instrumentode comunicação mais amplo que a maioria dos veículos clássicos, os grandesmeios contemplam seu próprio fracasso como formadores de opinião, o últimosítio de luta pela sobrevivência.
Sobre o processo internacional, o Brasil oferece umaparticularidade, que é a crise mortal da queda de credibilidade. Simplesmenteporque não há relação fática entre o discurso contemporâneo de defesa dademocracia e a história própria de cada um de nossos veículos, gradualmenterevelada.
Refletindo a alienação da burguesia nacional, aimprensa aqui produzida jamais estevecomprometida com os interesses do país, principalmente em suas contradições como imperialismo. Não se trata, nestas linhas, de rever a história recente da imprensabrasileira, mas uns poucos exemplos são suficientes para pôr em relevo essepapel nocivo. Os grandes jornais da época se perfilaram contra a campanha pelopetróleo, e sempre resistiram à Petrobras. O principal veículo de informação demassa era o Repórter Esso (título que diz tudo) primeiro no rádio (a partir e1941), na televisão em sua última fase (1952-1070). A grande imprensa (a especificidade daÚltima Hora não altera a análise do fato), combateu o governo constitucional deGetúlio Vargas, e palmilhou o caminho do golpe de 24 de agosto de 1954; reuniu-se a militares insubordinados e tentouimpedir a posse de Juscelino; frustrada pela reação legalista, juncou seugoverno com unânime e virulenta oposição; unanimidade que repetiria na oposiçãoa João Goulart e às reformas de índole burguesa, como a reforma agráriadefendida por José Bonifácio na Assembleia constituinte de 1823. Assumiu acampanha pelo golpe de 1º de abril de 1964, para o qual O Estado de São Paulo,por exemplo, extrapolando o que se pode entender como papel de um órgão deimprensa que presa a liberdade, foi acentral da arrecadação de fundos da intentona golpista, e seu diretor, Júlio deMesquita Filho, um agente ativo. O depoimento é do general Cordeiro de Farias,autointitulado chefe militar da subversão em São Paulo: “[...] as fontesprincipais de arrecadação eram duas: o governador Ademar de Barros e o jornal OEstado de São Paulo, através do Júlio Mesquita. [...] No fim da campanha,quando as necessidades aumentaram, o volume de dinheiro cresceu. Nesse ponto,praticamente todos os recursos foram depositados em contas bancárias de O Estado de São Paulo, cuja coletaera bem maior que a de Ademar de Barros”. (Cf. Aspásia Camargo & Walderde Góes, Diálogo com Cordeiro de Farias, pp 553-4).
Nessa faina e a seguir na defesa da ditadura, o vetustojornal dos cafeicultores paulistas marchava de braços dados com o sistemaGlobo, bem recompensado baluarte da ditadura. Ficou para a história o agradecimento do ditador Médici: “Sinto-me feliztodas as noites quando ligo a televisão para assistir ao jornal [Nacional].Enquanto as notícias dão conta de greves, agitações, atentados e conflitos emvárias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É comose eu tomasse um tranquilizante após um dia de trabalho”.
A Rede Globo esmerou-se em seus atentados à democracia.Em1982, por exemplo, comandou uma frustrada tentativa de fraude eleitoral(conhecida como “caso Proconsult”) quevisava a impedir a eleição de Leonel Brizola ao governo do Estado do Rio deJaneiro, transferindo parte de seus votos para o candidato da ditadura,Welington Moreira Franco. Construiu a candidatura Collor de Melo e manipulou oúltimo debate da campanha de 1989 para prejudicar, como conseguiu, o candidatoLula e eleger o seu delfim.
Agora há pouco, aimprensa, professando anti-jornalismo, se fez arauto da chamada operação LavaJato, associando-se aos crimes cometidos pelo hoje candidato Sergio Moro(ex-juiz, ex-ministro do presidente que beneficiou na campanha, ex-advogado deempresa norte-americana interessada em processos ligados às suas decisões) eseus asseclas do ministério público. Trata-se de um dos episódios maisvergonhosos da imprensa brasileira, pois reuniu, num empreendimento de notóriamalversação da verdade, tanto jornalistas quanto os donos das empresas decomunicação, operando em associação com o conluio de juiz e procuradores, emmovimentos casados. Foi ingente o esforço por destruir a empresa nacional. Seudesempenho foi fundamental no impeachment contra Dilma, a prisão e ainelegibilidade de Lula, movimentos essenciais para a eleição do capitão que aíestá, catapultado em meses dos porões do Centrão para a liderança naspesquisas.
Essas observações são despertadas pela leitura, na CartaCapital, de informação segundo a qual a UNESP inicia um trabalho deinvestigação de uma série de empresas que contribuíram com a repressão militar.O financiamento da pesquisa vem da indenização paga pela Volkswagen, condenadano âmbito de processo promovido pelo Ministério Público Federal. Entre asempresas acusadas de conluio com a repressão está a Folha de São Paulo, hoje,como o Globo, o Estadão e seus fractais, seletivamente preocupada, com a “repressão” chinesa a muçulmanosinsurgentes e o “populismo” da dupla Alberto Fernández-Cristina Kirchner. Avelha imprensa, seus editoriais e seus colunistas, gastaram pólvora contra oex-presidente Lula por não haver-lhe arrancado a solicitada crítica à reeleiçãode Daniel Ortega, que ela e o Departamento de Estado dos EUA consideram um “ditador”.
Durante a ditadura militar, a Folha de São Paulo, quecumpriu papel decoroso na campanha das Diretas Já, escreveu uma história muitotriste que está à espera de autocrítica, já esboçada pela Globo. É acusada dehaver cedido viaturas aos serviços de repressão da ditadura e fornecido fichasde seu departamento de pessoal para apolícia localizar e prender funcionários e ex-funcionários acusados de“subversão”, pelo DOI-Codi ou pela Operação Bandeirantes. De um caso eu sei, odo jornalista Renato Viana Soares, meu amigo. Para prendê-lo (nos malditos anos1970), o DEOPS obteve sua ficha de funcionário fornecida pelo Departamento dePessoal do jornal.
Esse fato, a ponta de um novelo que a UNESP vai desenrolar,não encerra a história toda do jornal, mas é um indicador da fragilidade doscompromissos democráticos dos empresários da indústria da comunicação. Nestemomento de revisão política, a Associação Brasileira de Imprensa prestaria umgrande serviço à história e ao jornalismo, e à nossa profissão, se promovesseum amplo debate em torno do papel dos jornalistas e da imprensa lato sensotanto na construção de episódios, como este de que é acusada a Folha, quanto namontagem de graves desvios éticos como a ação conjugada de repórteres,policiais, promotores e magistrado no maior escândalo judicial brasileiro,afinal posto à luz do dia pela ação destemida do The Intercept. A democraciabrasileira, sempre em construção, e sempre ameaçada, agradecerá.
***
Tudo em casa – O capitão, na sequência dos avanços sobre oSTF, resolveu comprar uma vaga de ministro do TCU. Foi fácil, pois bastouoferecer ao ministro RaimundoCarrero (de quem se diz apaixonado) aembaixada do Brasil em Lisboa. Ocorre, porém, que o ainda ministro e futuroembaixador é o relator das contas do presidente no TCU. E não vê conflito deinteresse. Vai relatar e depois em seguida descansar em Lisboa. Dolce far nientàs custas do contribuinte.
Quando não julgar é condenar – A 1ª Turma especializada doTribunal Regional na 1ª Região está, há anos, para julgar a apelação doAlmirante Othon Pereira, condenado pelo juiz Marcelo Bretas, frustrado clone dojuiz ladrão (na precisa definição de deputado Glauber Braga), a 43 anos deprisão
Democracia racial – No Brasil, os brancos ganham 73% a maisdo que os negros.
Por: Roberto Amaral.
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