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Lula e Alckmin: é hora de debater o que importa... (Por Roberto Amaral)

Lula e Alckmin: é hora de debater o que importa... (Por Roberto Amaral)

18/12/2021 19h20 Atualizada há 5 anos atrás
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Lula e Alckmin: é hora de debater o que importa... (Por Roberto Amaral)

O noticiário dos grandes e pequenos meios é dominado peladiscussão em torno do perfil do candidato a vice na futura chapa doex-presidente Lula, e, em meio a mil e uma conjecturas, o nome que vem à bailaé o do ex-governador Geraldo Alckmin. A maioria dos “especialistas” aposta naaproximação dos antigos adversários, e políticos com currículo em ambos oslados do alambrado reclamam sua necessidade, seja para garantir a eleição dopetista, seja para assegurar a futura governabilidade. Os mais vividos lembrama impetuosos petistas que não se deve contar com o ovo ainda no fundo dagalinha; outros, gatos escaldados, recordam a frustração do segundo mandato dapresidente Dilma Rousseff, impedida de governar, quando lhe faltaram apoiopopular e maioria no Congresso. Mas há, igualmente, os que se perguntam qualcampanha política e qual programa de governo pode harmonizar a socialdemocraciapetista e a direita neoliberal. A última experiência deixou muito a desejar.

 O nome doex-governador paulista é apresentado em rodas conspícuas do PT como aalternativa que falaria à alma do presidente, que, certamente, estaráconsiderando a distância ética que separa o ex-tucano do vice imposto a DilmaRousseff em 2014. Mas outras hipóteses são aventadas (como o atual presidentedo Senado) e outras costuradas à luz das velas, enquanto os habitantes daplanície nos distraímos com o to be or not to be de Alckmin.

Tomando a aparência pela realidade, a imprensa, e com ela ochamado “mundo político”, termina por evitar o debate sobre o essencial: ocaráter político-programático que devem assumir as candidaturas, a começar pelado ex-presidente, em face de seus compromissos históricos com as esquerdasbrasileiras, e com o país que promete reconstruir naquele que pode ser o últimoe maior projeto de sua vida. Como desdobramento da proposta programática faz-senecessário considerar os meios de sua realização, que passam, inevitavelmente,pelo Congresso Nacional, onde as forças progressistas são esmagadas por umamaioria corrupta e reacionária. Discutir a construção de novas bancadas passa aser, portanto, uma questão também estratégica.

Bloquear este  debateé um lastimável desserviço à democracia.

São  graves os riscos,para a democracia e para o futuro governo (tratando-se do projeto de um governode centro-esquerda), se a campanha eleitoral, discutindo uns poucos nomes,ainda que ilustres, tiver como sua marca a ausência programática. Ficará notoma-lá-da-cá que, se é da essência da “pequena política”, consagrada peloCentrão, deve ser rejeitado pela esquerda. Não nos basta a satisfação deimpedir a continuidade do processo de desconstituição econômica, política eética do país. Ainda que esta seja a grande tarefa, a eleição de Lula não é umfim em si mesma. É preciso dizer o que faremos, que Brasil queremos, que Brasilpretendemos legar ao fim do mandato. Essa discussão é fundamental como tática eestratégia, porque tanto assegura a eleição quanto indica as bases desustentação do governo; é fundamental para o compromisso de todos os queaderirem à frente partidária (de factibilidade ainda discutível) e contribuirápara a elevação da cultura política das massas, uma preocupação que não podeser descartada pelos socialistas e pelas esquerdas no seu amplo lequeideológico. Não se trata, portanto,  deum compromisso simplesmente moral, embora o procedimento ético deva ser umfundamento de nossa política. Se devemos satisfação à sociedade à qual vamospedir o voto de confiança, precisaremos de seu apoio quando as forças do atrasose levantarem - e se levantarão, ninguém duvide - contra nosso projeto. Adireita civil e militar, a burguesia reacionária, os milicianos nãoensarilharão as armas. Os tempos vividos de 2016 até aqui estão ainda muito próximos para que suas lições possamser esquecidas.

Igualmente, não podemos ignorar que no 7 de setembro últimoestivemos à beira da consolidação do golpe de Estado militar que o capitãodesde lá atrás maquinava com o apoio de seu bando. Como não podemos deixar depôr as barbas de molho quando o sedicioso general chefe do Gabinete deSegurança Institucional da presidência da república declara precisar tomarLexotan  na veia “para não levar JairBolsonaro a tomar  atitude mais drásticacontra esse STF que está aí”? Que medida seria essa? A ameaça insólita foiditada no Curso de Aperfeiçoamento e Inteligência para agentes da AgênciaBrasileira de Inteligência (Abin), e por essa grei de arapongas vazada. Deoutra parte, o presidente do TSE precisa vir a público para explicar a nomeaçãodo ex-ministro da defesa, general Fernando Azevedo, para o cargo deDiretor-Geral do Tribunal, exatamente quando nos preparamos para uma das maistensas eleições na história republicana, e nas quais o ex-chefe do general,despojado de escrúpulos, é diretamente interessado.

As esquerdas de um modo geral, e os comunistas de um modomais específico, herdaram do velho PCB a crença, ou fé (pois sem apoio narealidade), no legalismo da caserna. Em 1947, no governo Dutra, viram osacordos de cúpula rasgados, quando o registro do partido e o mandato de seusparlamentares foram cassados. Em pleno 17 de março de 1964 (Conferência dePrestes na ABI), ainda apostavam na impossibilidade de golpe militar. Daqui emdiante a persistência na ingenuidade chamar-se-á burrice.

Diante da história, o petismo deveria considerar que asdisputas pelo poder, e é disto que se trata, são resolvidas por uma equação quese chama correlação de forças. E a força de que dispomos, ou mais precisamente,de que podemos dispor, é a da mobilização popular. Foi o povo nas ruas,sensibilizado e organizado, que derrotou o golpe de 1961. Por outro lado, foi nossafragilidade (nela a crise de nossos partidos e do movimento sindical) quepermitiu o golpe de 2016 e seus desdobramentos, como a prisão de Lula, que,sabemos, nada obstante sua violência e sua arbitrariedade, não provocou atemida reação das massas.

O ex-presidente Lula representa, na política e no processoeleitoral, a antinomia do bolsonarismo, e, por isso mesmo, galvaniza a vontademajoritária da sociedade, desejosa de ver-se livre do engodo representado pelaaliança do capitão com os engalanados que o cevam e se cevam em sinecuras edoces vilegiaturas, como a que regala o inepto general Eduardo Pazuello.

Mas, para  bem epara  mal, a campanha que se avizinha,como qualquer outra,  não se encerra nadisputa clássica, simplesmente porque, como ensina a história recente, apolítica não entra de férias após a proclamação dos resultados pelo TSE. Aovitorioso cabe o ônus da governança, e esta traz à ribalta a chamadarealpolitik. É quando a porca torce o rabo. O governo precisará,essencialmente, de maioria no Congresso e pelo menos da boa-vontade do PoderJudiciário, além de  diálogo com ooligopólio da imprensa e com a poderosa Faria Lima, onde tem assento uma burguesia desapartada dos interesses dopaís e de seu povo.

Independentemente dos interesses desse mafuá de negocistasque é o Centrão, um  governo de direita,ou extrema-direita como o atual, ou de centro direita, contará sempre com oapoio do establishment. Basta anunciar largo programa de privatizações,autoritarismo na política e neoliberalismo na economia, restrições aos direitosdos trabalhadores e, na nas relações internacionais, alinhamento serviçal aosinteresses do império hegemônico. Outro, porém, é o desafio que se colocará aum eventual governo de centro-esquerda, pois sua  sustentação dependerá doapoio político que lhe possa oferecer a sociedade. O desafio será conservar (ese possível aumentar) no governo o apoio popular auferido no processoeleitoral.  Em 1954, o golpe contraVargas só foi exitoso porque o presidente não logrou preservar o apoio dasmassas  que o levara à consagradoravitória eleitoral de 1950. Em 2016, inumeráveis fatores concorreram para a desestabilização da presidente DilmaRousseff, a começar pela maquinação golpista de seu vice em conluio com opresidente da Câmara dos Deputados, cuja eleição não conseguira evitar. Mas oingrediente decisivo no golpe de Estado concluído foi a dificuldade demobilizar as grandes massas na defesa do seu mandato. A questão democrática e alegitimidade de seu mandato  não serevelaram  suficientes para mobilizar asruas.

A esta altura, não é necessário lembrar que 2022 não será orepeteco de 2002, tanto quanto seu possível terceiro mandato não será um “valea pena ver de novo” dos dois anteriores. O Conselheiro Acácio lembra que omundo mudou nesse vinte anos, e mudou o Brasil, com ele mudaram muitas das nossas concepções, e, principalmente, mudaramas condições históricas. Mudou também, por óbvio, o ex-presidente, mudou suavisão de mundo e do país que governou. O silêncio de Lula relativamente ao quepretende fazer tem muitas possíveis explicações, desde seu engenho tático,adiando definições para facilitar composições, às próprias dificuldades de seupartido de encontrar consenso em torno de questões centrais, como a políticaeconômica de um modo geral, o que fazer com a privataria levada a cabo pelo consórcio governante, a reforma fiscal, asreformas trabalhista e previdenciária, a necessidade de revisão do federalismo,a reorganização política, a revogação da PEC 95 etc.

Do que pode ser o futuro governo, só podemos vislumbrar, atéaqui,  a política externa. A presença deCelso Amorim no grupo mais próximo de Lula, e as recentes viagens do candidatoà Europa e à Argentina, indicam a retomada daquela política ativa e altiva que,nos orgulhando, tanto bons serviços prestou ao país. Este ponto é da maiorrelevância. A eleição de Lula é importantíssima não apenas para nosso país. Elaé aguardada pelas forças progressistas da América do Sul como um fator deunificação, estabilidade e avanço político. Para o mundo, Luladesempenhará  papel  essencial na liderança da América Latina,disseminando o diálogo quando Joe Biden, dando continuidade a Trump, ensaia areativação de uma guerra fria que não interessa a um mundo às voltas compandemias, desemprego, fome e devastação ambiental. O Brasil, com Lula,dialogando, como é de seu feitio, com as mais diversas tendências mundiais,poderá ser o condutor de uma nova política de paz.  Para o velho continente representamos,liderando a América do Sul, a expectativa de barreira à onda direitista.

Por óbvio, nem o Pentágono nem o Departamento de Estadoignoram esse quadro. Jamais outro governo careceu, como carecerá o eventualgoverno de centro-esquerda a ser eleito em 2022, do amplo apoio das grandesmassas. Esse apoio, porém, não cairá do céu como benção dos deuses. Cobra muitotrabalho, que já tarda.

***

A retomada da temporada de caça aos oposicionistas – Aagressão a Cid e Ciro Gomes atinge pessoalmente o pré candidato do PDT, masantes agride  os fundamentosrepublicanos, ameaçados, e está a exigir a pronta e a mais enérgica reação dospartidos e das forças políticas comprometidas com a preservação do processodemocrático e a ordem jurídica.

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