O pavor à mudança é o tempero da política de conciliaçãomediante a qual a classe dominante amarra o embate social no ambiente dacasa-grande, que o manipula: “A conciliação empequeneceu muitos líderes e não foifeita para benefício do povo e do país, e sim para defesa de interessesminoritários, já que aparou as divergências pessoais e não solucionou osproblemas prático-reais do povo” (JoséHonório Rodrigues, Conciliação e reforma no Brasil), porque simplesmente o povonão é sujeito-histórico.
As mudanças, traficadas por uma classe dominante aferrada àconvicção da continuidade, quase sempre se acrescentam ao passado, raramente o suprimindo.
Nossa história é profundamente conservadora. Fomos dosúltimos no processo da independência, o último a abolir a escravidão, aderradeira monarquia. Discutimos a reforma agrária desde pelo menos a frustradaConstituinte de 1823, com o texto de José Bonifácio.
Voltemos a Florestane à carta referenciada: “O país – acrescenta o mestre – acolhe melhor asreformas necessárias, desde que elas percam o caráter ideológico (e raramenteo possuem, pois costumamos andaratrasados: quando aceitamos uma ideia nova, ela já não é mais ideologia, mastradição envelhecida e em processo de substituição nos países de origem) epossam ser implantadas com a segurança de que não alterarão muito a rotinapreestabelecida [...]”. Isto é, quando não é mais uma ideia-força, um projeto,um programa.
Bom exemplo do empenho da casa-grande em preservar o passadoé oferecido pela resistência da velha imprensa na defesa que faz do neoliberalismo, nadaobstante seu fracasso mundial, e o rotundo desastre de sua introdução entre nóspelo aprendiz de feiticeiro que ainda está no ministério da Economia.
Na segunda metade dos anos 40 do século passado aindadiscutíamos se o país deveria fazer a opção industrialista. O planejamentogovernamental só foi admitido quando perdeu os ares e as cores da culturamarxista.
A necessidade da chancela conservadora ultrapassa os limitesdas “ideias liberais” e agora entra no campo das propostas políticas.
Uma questão candente,o caráter de um eventual governo de centro-esquerda – a discussão que dizrespeito aos interesses do povo brasileiro –, não tem espaço na imprensabrasileira, não conquista políticos e muito menos “especialistas”, porqueinevitavelmente colocaria na ordem do dia o debate sobre a arquitetura dopoder, o nó górdio da política. Este é tema exorcizado, tanto quanto o caráterdas composições partidárias, e no espaço vazio discute-se, por exemplo, quemdeve ser o vice na futura chapa do ex-presidente Lula. E o líder nas apostas,hoje, diz a mídia, é Geraldo Alckmin. A candidatura do ex-governador paulistase apresenta como a chancelaconservadora indispensável para viabilizar a candidatura petista, a qual, nadaobstante as lições oferecidas por dois governos (2003/2011), ainda precisariade passaporte para circular pela Av. Faria Lima.
Em outras palavras, sinalização de nosso abissal atrasopolítico-ideológico, o pleito de uma candidatura socialdemocrata estribada emuma longa carreira política e na experiência de oito anos de governo aindacarece do nihil obstat de seus adversários ideológicos para que sejam afastadosos temores dos conservadores, sem cujo apoio a centro-esquerda não teria condições de governar.
É difícil de crer que a simples presença de Alckmin na chapapresidencial seja suficiente para estabelecer o modus de convivência civilizadados conservadores com Lula, considerando que a vice-presidência por si só nãoassegura ao titular qualquer sorte de capacidade de ingerência no governo.Muito menos de ditar-lhe diretrizes. É mais razoável crer que a Faria Limaquererá discutir com o candidato seu projeto de governo. Em face, porém, dascaracterísticas e condicionamentos da candidatura de Lula, o que se podeesperar (e mais do que tudo, desejar) é que essa discussão em torno de programade governo e outros compromissos políticos, com Alckmin ou outro nome qualquer,com os partidos e demais instituições da sociedade, seja feita da forma a maisampla e a mais transparente possível.
Nada obstante a obviedade constrangedora, é preciso repetirmil vezes que a história não se repete. O próximo 2022 não guarda a mais remotalembrança dos idos de 2002, e as condições que aguardam o eventual terceiromandato de Lula nada dizem respeito às condições históricas que presidiram seus dois mandatos a partir de 2003.Ademais das óbvias alterações da conjuntura internacional, o quadro brasileiroque se descortina para 2023 é histórica e substancialmente diverso. Não setrata mais de recuperar o pacto democrático desenvolvimentista da NovaRepública de Ulisses e Tancredo, masde restaurar a democracia e reconstruira nação, como projeto. Antes de lançar as bases do país que queremos, é precisosalvar – política, econômica e ideologicamente – o pais que temos, este que vamos herdar do pesadelobolsonarista, a recidiva do 1º de abril de 1964.
É evidente que, na contramão dos tempos de hoje, que militamno conflito e na dilaceração do tecido social, é preciso construir um consensoem torno da salvação nacional. A partir de um programa mínimo de emergência,limitado a conter a hemorragia, deverá ser construído, com a sociedade, umprograma de governo de longo prazo, que, visando ao desenvolvimento, apontepara a construção de uma sociedade livre do conflito de classes.
Mas, sabemos, este é ainda um projeto muito distante do que,nas condições atuais, nos pode oferecera promessa de um futuro governo Lula,com Alckmin, Joaquim ou Manuel.
***
Sérgio Sérvulo da Cunha, o militante que nos deixa.Advogado, procurador do Estado, jurista,filósofo e poeta, mas acima de tudo um caráter sem jaça. Corajoso e firme comoos homens de bem. Participou ao lado de Evandro Lins e Silva da bancada deacusação no julgamento pelo Senado do impeachment contra Fernando Collor. Atuouao lado de Márcio Tomaz Bastos no Ministério da Justiça, foi a alma de muitas conferências nacionais de advogados eassessorou várias presidências do Conselho Federal a Ordem dos Advogados doBrasil. Combatente da democracia contra a ditadura, lutou sem desânimo emdefesa dos direitos humanos. Militamosjuntos em saudoso partido socialista (chegou a ser eleito vice-prefeito deSantos), e tive a honra de colaborar com ele em vários textos e na escritade livro sobre direito constitucional-eleitoral. Guardo a honra de saber queintegrava as fileiras de seus amigos.
Bahia Preço da Hora Bahia aponta produtos mais em conta para ajudar na economia doméstica
Alagoas Polícia Militar resgata jaguatirica em área urbana no município de Penedo
Alagoas Aplicativo do Programa Saúde Até Você Digital alcança mais de 140 mil consultas
Bahia PNUD seleciona consultoria para elaboração do Plano de Governança de Dados da SEI
Alagoas Polícia Militar de Alagoas registra 10 crimes eleitorais durante a votação do segundo turno
Bahia OSBA apresenta obras de Mahler e Tchaikovsky em concerto da Série Jorge Amado Mín. 23° Máx. 39°
Mín. 23° Máx. 36°
Tempo limpoMín. 22° Máx. 37°
Tempo limpo