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Quem fará o discurso da esquerda? (Por Roberto Amaral)

Quem fará o discurso da esquerda? (Por Roberto Amaral)

15/01/2022 00h30
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Quem fará o discurso da esquerda? (Por Roberto Amaral)

A burguesia aqui operante, desapartada dos interesses dopaís, vem garantindo o império de sua ordem, nada obstante a periódica trocanominal de governantes que promove e a sucessão de partidos políticosconservadores que no mais das vezes se confundem na mesmice de programas(escritos por mera exigência legal) e na prática comum de vícios, dentre osquais aflora o descompromisso com o que quer que mesmo de longe sugira umprojeto nacional, a cuja carência debitamos grande parte de nossas mazelas. Opoder pelo poder – a ocupação das sinecuras e os “negócios de Estado”– é o fime a justificativa do concurso partidário, elevado aos píncaros da biltrariapelo Centrão, conglomerado de reacionários e negocistas de que se vale a classedominante para manietar o Congresso e, por seu intermédio, impedir reformas eimpor retrocessos políticos. Mediante esse controle, custeado pela ingerênciado poder econômico nas eleições, asfixia os eventuais governos populares(sempre um episódio fora da curva), impondo-lhes a rendição, como ocorreu com ogolpe de Estado parlamentar que sequestrou o mandato de Dilma Rousseff.

O antipetismo e o anti esquerdismo de um modo geral sãoherdeiros de tudo isso. 

Nas poucas oportunidades nas quais o mando se viu ameaçado,ameaçado de fato ou só aparentemente ameaçado em seu monolitismo, a classedominante não titubeou em fraturar o pacto e interromper o jogo democrático –jogado, aliás, segundo as regras por ela ditadas. Promovendo a fratura institucional,seu intuito é evitar a ruptura da ordem política hegemônica, cujas rédeaspermanecem em suas mãos, qualquer que seja o governo.   A soberania popular fala a cada quatro anos,é verdade, mas sua vontade terá sempre de conviver com a vontade da casa-grande.  A conciliação impede a fissura das estruturasarcaicas, e a “manutenção da lei e da ordem” funciona como dique contra oprogresso; nem revolução nem reforma, nem mesmo as mais consentâneas com ocapitalismo, como a reforma agrária e a reforma tributária. Nada que mesmo deleve, e mesmo sob controle, possa ameaçar a estabilidade das velhas estruturasque asseguram o domínio da nação por apenas o 1%  de brancos e milionários.

Vez por outra a classe dominante ruge, dá estudados  sinais de incômodo,  mas é apenas jogo de cena; ela temconsciência de que, no frigir dos ovos, controla o espetáculo.

Dão-se as mãos a caserna, o centrão e a Av. Faria Lima, osgrileiros e as mineradoras, o capital financeiro nacional e internacionalizadoe o agronegócio, e seu aparelho ideológico, os grandes meios de comunicação demassa.

Quinhentos anos tentando dar vez à emergência de um  povo; duzentos anos de Estado independente;133 anos de República, passados quase 70 anos de um império que já nasceuvelho;  um sem-número de golpes deEstado, duas longevas ditaduras. A única revolução vitoriosa, o movimento de1930 – liderado por três governadores de província –, resultou de uma cisão naclasse dominante. Exatamente por isso, venceu. Levada a cabo para assegurar ademocracia e as liberdades, a “verdade eleitoral”, terminou por instaurar umaditadura de 15 anos.

Qualquer sinal de alteração do sentido dos ventos é vistocomo fator de desestabilização sistêmica, ameaça à calmaria que acomoda omando;  a resposta é a intervenção dobraço armado do poder, cumprindo com seu papel de instrumento da ordem:  a conservação do statu quo, a preservação dopassado no presente.

A história de nossos dias registra dois marcos desse intervencionismo reacionário: a ditadura de1964-1985 e o golpe de 2016, que, depondo a presidente Dilma Rousseff, abriucaminho para a ascensão dessa chaga que é o bolsonarismo. Por intermédio docapitão, a direita brasileira, militar e civil, teve a primeira oportunidade,na República, de chegar ao governo pela via institucional e, com a proteção dosengalanados, empreender a exótica experiência de regime a um tempo neoliberal eprotofascista. Enquanto teve fôlego, o fantoche estapafúrdio entregou ocontratado aos senhores de seus cordéis: o aprofundamento da desindustrialização, da precarização dos direitostrabalhistas, da derruição da previdência social e, em plena faina,  a desmontagem dos instrumentos de governoque, desde 1930, vinham permitindo ao Estado brasileiro cumprir com seu papelde vetor de desenvolvimento, cujo melhor atestado é a extraordinária taxa médiade 6% de  crescimento anual alcançadaentre 1930-1980, contrastando com a estagnação de nossos dias, de que éindicador a expectativa do PIB para 2022, estimado 0,5% pelo Boletim Focus doBanco Central.

Anistórico a mais não poder, o projeto Bolsonaro – reunindoa marginalidade política, empresários e fardados (exército, marinha,aeronáutica e forças auxiliares) – deu com os burros n’água, empurrado porhistórica desaprovação popular que esvazia as pretensões de continuidade pelavia eleitoral, depois de fracassada a tentativa de golpe do 7 de setembro de2021, na qual investira o terceiro andar do palácio do planalto, ora com osilêncio beneplácito, ora com a articulação de seus generais, milicianos e empresáriosdelinquentes.

Os dados de hoje dizem que voltou à ordem do dia a regra dojogo democrático clássico, com a qual parece conformar-se a grande burguesia,olhando atenta para o que ocorre na Argentina, na Bolívia, no Peru e no Chile,e já aflita com o que podem oferecer as próximas eleições colombianas. Teremoseleições e, com os dados de hoje, elas serão respeitadas. O trumpismo, porenquanto, é de pouca valia, e pouco pode a direita brasileira esperar de uminseguro Joe Biden, às voltas com a pandemia, as eleições legislativas dejunho, Putin e Xi Jinping, adversários de respeito.

A burguesia brasileira, mandante desde a colônia,caracteriza-se pela  alta maleabilidade,sua capacidade de vencer obstáculos e manter-se no comando da política, sempre aptaa ceder alguns poucos anéis de latão para conservar os dedos. 

Com o esvaziamento da candidatura do capitão, consequênciade sua catastrófica passagem pelo governo, a Faria Lima e  adjacênciasenfunaram todas as velas na direção da chamada “terceira via”, a panaceia deseus estrategistas. O fracasso, porém, nada obstante a comovente obstinação dagrande imprensa,  foi o mais contundente.Não sentou praça o “conflito dos extremos” clamando por uma alternativa ao“centro”, e as candidaturas Lula (em ascensão) e Bolsonaro (em quedavertiginosa) continuaram polarizando, e assim deverão chegar às eleições deoutubro. A menos que o capitão abandone a raia.

A classe dominante não tem compromissos senão com seusinteresses e, em função deles, sabe identificar a estratégia mais segura, nãoraro parecendo recuar quando, de fato, cuida de avançar. Se de todo não é maisviável a candidatura in pectoris do capitão, construa-se uma alternativa;indisponível esta, a saída, que o andar de cima não rejeita, é procurarapaziguar-se com o “sapo barbudo” seja indicando-lhe a parelha, seja,onipotente, ditando o modelo de esquerda, dita “moderna”, que nossaesquerda  “atrasada” (PT à frente),, deveseguir.

O figurino, cantado em prosa e verso pelos grandes jornais,diz que a esquerda brasileira, para modernizar-se, precisa, em síntese, deixarde ser de esquerda, pois impõe-se deitar fora os “velhos temas”, como a luta declasses (vencida pela conciliação), a reforma agrária (vencida peloagronegócio) e a defesa do Estado e da empresa nacional (vencida pelaglobalização). 

Vitoriosa essa linha, que pode encantar os que reduzem apolítica ao processo eleitoral, as esquerdas, nomeadamente a esquerdasocialista, seriam condenadas à afasia, renunciando ao dever do proselitismo,do qual, aliás,  se afastou desde aseleições de 2002, com as consequências consabidas, e delas destaco afragilidade atual do movimento sindical e o atraso ideológico das grandesmassas, cujo índice é a penetração do bolsonarismo  entre as chamadas classes subalternas.

Inicia-se uma longa caminhada de pouco mais de nove meses. Eela só terá sentido histórico, para as esquerdas (assim mesmo, no plural), sese constituírem em oportunidade de mobilização e organização popular, políticae ideológica. O processo eleitoral, com as condições de articulação e debateque assegura, com o acesso aos grandes meios de comunicação que propicia, com oambiente de liberdade e movimento que enseja, deve ser visto pelos partidos eorganizações populares e progressistas como a grande oportunidade de contatodireto com as massas. Derrotar a chaga do bolsonarismo não pode ser visto comoum fim em si mesmo, fito que tudo justifica.

***

Barriga de aluguel – Para emprestar sua legenda aoex-governador Geraldo Alckmin, dando-lhe assim condição jurídica de ocupar avaga de  vice na chapa de Lula, o PSB –que vem de sua aliança com Aécio Neves em 2014, e do seu comprometimento com acampanha de  Eduardo Cunha à presidênciada Câmara em 2015, ponto de partida para o golpe – exige o apoio do PT a seuscandidatos em Estados nos quais, como no Rio de Janeiro e RS, não tem votos, ouem Pernambuco, onde seu proclamado candidato renunciou à propositura. Isso, nodicionário de Antônio Houaiss, que foi presidente da sigla quando esta buscava  o socialismo, está grafado como chantagem.

Homenagem a Eny Moreira – Francis Bogossian, presidente doInstituto Brasileiro de Estudos Políticos-IBEP, informa que a instituiçãorealizará uma mesa-redonda sobre a vida e a atuação da criminalista Eny Moreira,minha querida amiga recentemente falecida. A homenagem será no próximo 5 deabril, quando a  destemida advogada depresos políticos na ditadura completaria 77 anos.

Por: Roberto Amaral.

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