O antipetismo e o anti esquerdismo de um modo geral sãoherdeiros de tudo isso.
Nas poucas oportunidades nas quais o mando se viu ameaçado,ameaçado de fato ou só aparentemente ameaçado em seu monolitismo, a classedominante não titubeou em fraturar o pacto e interromper o jogo democrático –jogado, aliás, segundo as regras por ela ditadas. Promovendo a fratura institucional,seu intuito é evitar a ruptura da ordem política hegemônica, cujas rédeaspermanecem em suas mãos, qualquer que seja o governo. A soberania popular fala a cada quatro anos,é verdade, mas sua vontade terá sempre de conviver com a vontade da casa-grande. A conciliação impede a fissura das estruturasarcaicas, e a “manutenção da lei e da ordem” funciona como dique contra oprogresso; nem revolução nem reforma, nem mesmo as mais consentâneas com ocapitalismo, como a reforma agrária e a reforma tributária. Nada que mesmo deleve, e mesmo sob controle, possa ameaçar a estabilidade das velhas estruturasque asseguram o domínio da nação por apenas o 1% de brancos e milionários.
Vez por outra a classe dominante ruge, dá estudados sinais de incômodo, mas é apenas jogo de cena; ela temconsciência de que, no frigir dos ovos, controla o espetáculo.
Dão-se as mãos a caserna, o centrão e a Av. Faria Lima, osgrileiros e as mineradoras, o capital financeiro nacional e internacionalizadoe o agronegócio, e seu aparelho ideológico, os grandes meios de comunicação demassa.
Quinhentos anos tentando dar vez à emergência de um povo; duzentos anos de Estado independente;133 anos de República, passados quase 70 anos de um império que já nasceuvelho; um sem-número de golpes deEstado, duas longevas ditaduras. A única revolução vitoriosa, o movimento de1930 – liderado por três governadores de província –, resultou de uma cisão naclasse dominante. Exatamente por isso, venceu. Levada a cabo para assegurar ademocracia e as liberdades, a “verdade eleitoral”, terminou por instaurar umaditadura de 15 anos.
Qualquer sinal de alteração do sentido dos ventos é vistocomo fator de desestabilização sistêmica, ameaça à calmaria que acomoda omando; a resposta é a intervenção dobraço armado do poder, cumprindo com seu papel de instrumento da ordem: a conservação do statu quo, a preservação dopassado no presente.
A história de nossos dias registra dois marcos desse intervencionismo reacionário: a ditadura de1964-1985 e o golpe de 2016, que, depondo a presidente Dilma Rousseff, abriucaminho para a ascensão dessa chaga que é o bolsonarismo. Por intermédio docapitão, a direita brasileira, militar e civil, teve a primeira oportunidade,na República, de chegar ao governo pela via institucional e, com a proteção dosengalanados, empreender a exótica experiência de regime a um tempo neoliberal eprotofascista. Enquanto teve fôlego, o fantoche estapafúrdio entregou ocontratado aos senhores de seus cordéis: o aprofundamento da desindustrialização, da precarização dos direitostrabalhistas, da derruição da previdência social e, em plena faina, a desmontagem dos instrumentos de governoque, desde 1930, vinham permitindo ao Estado brasileiro cumprir com seu papelde vetor de desenvolvimento, cujo melhor atestado é a extraordinária taxa médiade 6% de crescimento anual alcançadaentre 1930-1980, contrastando com a estagnação de nossos dias, de que éindicador a expectativa do PIB para 2022, estimado 0,5% pelo Boletim Focus doBanco Central.
Anistórico a mais não poder, o projeto Bolsonaro – reunindoa marginalidade política, empresários e fardados (exército, marinha,aeronáutica e forças auxiliares) – deu com os burros n’água, empurrado porhistórica desaprovação popular que esvazia as pretensões de continuidade pelavia eleitoral, depois de fracassada a tentativa de golpe do 7 de setembro de2021, na qual investira o terceiro andar do palácio do planalto, ora com osilêncio beneplácito, ora com a articulação de seus generais, milicianos e empresáriosdelinquentes.
Os dados de hoje dizem que voltou à ordem do dia a regra dojogo democrático clássico, com a qual parece conformar-se a grande burguesia,olhando atenta para o que ocorre na Argentina, na Bolívia, no Peru e no Chile,e já aflita com o que podem oferecer as próximas eleições colombianas. Teremoseleições e, com os dados de hoje, elas serão respeitadas. O trumpismo, porenquanto, é de pouca valia, e pouco pode a direita brasileira esperar de uminseguro Joe Biden, às voltas com a pandemia, as eleições legislativas dejunho, Putin e Xi Jinping, adversários de respeito.
A burguesia brasileira, mandante desde a colônia,caracteriza-se pela alta maleabilidade,sua capacidade de vencer obstáculos e manter-se no comando da política, sempre aptaa ceder alguns poucos anéis de latão para conservar os dedos.
Com o esvaziamento da candidatura do capitão, consequênciade sua catastrófica passagem pelo governo, a Faria Lima e adjacênciasenfunaram todas as velas na direção da chamada “terceira via”, a panaceia deseus estrategistas. O fracasso, porém, nada obstante a comovente obstinação dagrande imprensa, foi o mais contundente.Não sentou praça o “conflito dos extremos” clamando por uma alternativa ao“centro”, e as candidaturas Lula (em ascensão) e Bolsonaro (em quedavertiginosa) continuaram polarizando, e assim deverão chegar às eleições deoutubro. A menos que o capitão abandone a raia.
A classe dominante não tem compromissos senão com seusinteresses e, em função deles, sabe identificar a estratégia mais segura, nãoraro parecendo recuar quando, de fato, cuida de avançar. Se de todo não é maisviável a candidatura in pectoris do capitão, construa-se uma alternativa;indisponível esta, a saída, que o andar de cima não rejeita, é procurarapaziguar-se com o “sapo barbudo” seja indicando-lhe a parelha, seja,onipotente, ditando o modelo de esquerda, dita “moderna”, que nossaesquerda “atrasada” (PT à frente),, deveseguir.
O figurino, cantado em prosa e verso pelos grandes jornais,diz que a esquerda brasileira, para modernizar-se, precisa, em síntese, deixarde ser de esquerda, pois impõe-se deitar fora os “velhos temas”, como a luta declasses (vencida pela conciliação), a reforma agrária (vencida peloagronegócio) e a defesa do Estado e da empresa nacional (vencida pelaglobalização).
Vitoriosa essa linha, que pode encantar os que reduzem apolítica ao processo eleitoral, as esquerdas, nomeadamente a esquerdasocialista, seriam condenadas à afasia, renunciando ao dever do proselitismo,do qual, aliás, se afastou desde aseleições de 2002, com as consequências consabidas, e delas destaco afragilidade atual do movimento sindical e o atraso ideológico das grandesmassas, cujo índice é a penetração do bolsonarismo entre as chamadas classes subalternas.
Inicia-se uma longa caminhada de pouco mais de nove meses. Eela só terá sentido histórico, para as esquerdas (assim mesmo, no plural), sese constituírem em oportunidade de mobilização e organização popular, políticae ideológica. O processo eleitoral, com as condições de articulação e debateque assegura, com o acesso aos grandes meios de comunicação que propicia, com oambiente de liberdade e movimento que enseja, deve ser visto pelos partidos eorganizações populares e progressistas como a grande oportunidade de contatodireto com as massas. Derrotar a chaga do bolsonarismo não pode ser visto comoum fim em si mesmo, fito que tudo justifica.
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Barriga de aluguel – Para emprestar sua legenda aoex-governador Geraldo Alckmin, dando-lhe assim condição jurídica de ocupar avaga de vice na chapa de Lula, o PSB –que vem de sua aliança com Aécio Neves em 2014, e do seu comprometimento com acampanha de Eduardo Cunha à presidênciada Câmara em 2015, ponto de partida para o golpe – exige o apoio do PT a seuscandidatos em Estados nos quais, como no Rio de Janeiro e RS, não tem votos, ouem Pernambuco, onde seu proclamado candidato renunciou à propositura. Isso, nodicionário de Antônio Houaiss, que foi presidente da sigla quando esta buscava o socialismo, está grafado como chantagem.
Homenagem a Eny Moreira – Francis Bogossian, presidente doInstituto Brasileiro de Estudos Políticos-IBEP, informa que a instituiçãorealizará uma mesa-redonda sobre a vida e a atuação da criminalista Eny Moreira,minha querida amiga recentemente falecida. A homenagem será no próximo 5 deabril, quando a destemida advogada depresos políticos na ditadura completaria 77 anos.
Por: Roberto Amaral.
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