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Lições de um Patriota (Por Roberto Amaral)

Lições de um Patriota (Por Roberto Amaral)

31/01/2022 11h44 Atualizada há 5 anos atrás
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Lições de um Patriota (Por Roberto Amaral)

Não sei com quantos estadistas o processo social contemplounossa frágil república. Mas, principalmente na sequência dos anos 1930, doisnomes saltam à vista:  Getúlio Vargas eLeonel Brizola.  O primeiro inaugura ociclo trabalhista; o segundo, encerrando-o, cede caminho para a emergência dolulismo, vertente que negara o varguismo, cadinho de todos os vícios dosindicalismo brasileiro, na conclusão primária da socialdemocracia paulista,que, no governo, prometeu “enterrar a era Vargas”.

Getúlio – dominando a política e o imaginário nacional desde1930, e, com o pequeno intervalo de 1945-1950, governando o país por 19 anos –constitui-se, até aqui, como nossa maior liderança popular. Riquíssima, é aomesmo tempo personalidade política a mais contraditória,  ao transitar da revolução conservadora de1930 (movimento liderado por três governadores de Estado e operado pela elitedo “tenentismo”)  à modernização do pais,da democracia representativa de 1934 à ditadura do “Estado novo”, para enfimencerrar seus dias de forma trágica na condução frustrada de um governodemocrático e nacionalista. Deixou como herança, em um rol extensíssimo, alegislação trabalhista, uma plataforma nacionalista e um partido políticopopular, bem como duas lideranças, seus conterrâneos João Goulart e LeonelBrizola.

Embora jamais lograsse a presidência da república, que tantoperseguiu, e para a qual se preparara no curso de sua longa carreira política –deputado estadual, prefeito de Porto Alegre, governador do Rio Grande do Sul,deputado federal pelo antigo Estado da Guanabara, duas vezes governador do Riode Janeiro - Brizola foi sem dúvida o mais influente e longevo quadro dapolítica brasileira a partir dos anos 1960, quando, com seu voluntarismo e suacoragem quase temerária, alterou o curso da história escrita pela classedominante e impediu o golpe militar de 1961, por meio da Campanha daLegalidade. A posse de Jango mantinha de pé a ordem institucional e ensejaria àjá então enferma democracia representativa brasileira, uma dramática sobrevidade quase quatro anos, com o permanentemente contestado governo Goulart, duranteo qual o país, nada obstante as contradições que militavam em seu bojo,assistiu, ainda que aos trancos e barrancos, a um dos  mais largos  períodos  de liberdades democráticas e debates em torno de suas vicissitudes  e alternativas, ponto de partida para aelevação da educação das massas, que apavorou as classes dominantes.

A fonte desse Brasil posto em discussão, a ser “passado alimpo” na academia e nas assembleias, como reclamava Darcy Ribeiro, remontavaàs lides de agosto de 1961.  Não fôra,porém, uma rebeldia qualquer aquela do jovem governador gaúcho, poismaterializava-se mediante a mobilização popular, levantando o país amorfo na defesade um princípio tornado caro: a legalidade democrática.

A conciliação que se seguiu, qual seja, a condicionante doparlamentarismo de fancaria, traficada no Congresso com os militares e osrepresentantes de sempre da casa-grande, não diminui os méritos do levantegaúcho, e mais ainda justificará o radicalismo que pautará a atuação políticade Leonel Brizola, daí em diante, correndo o país que pretendia organizar,conhecendo as fragilidades do regime democrático (e, nele, do governo Jango), ecertamente antevendo a retomada golpista, pois a partir de certo momento aconspiração se fazia à luz do dia: da Campanha da Legalidade resultara asemeadura da lição de que o povo organizado pode decidir seu destino, o quesobressaltava, e sobressalta ainda, os herdeiros do escravismo e dasubserviência colonial.

Com seus acertos e seus tantos erros, as esquerdasbrasileiras e as forças  trabalhistas epopulares de um modo geral (aí incluídas as correntes comunistas tradicionais)haviam assumido um novo papel na política, e os temas paroquianos foramsubstituídos pelas questões que diziam respeito à soberania nacional, aodesenvolvimento e ao combate às injustiças sociais.

Explica-se, pois, a ojeriza com que Brizola sempre foitratado pelos militares, cujos 21 anos de mandarinato fustigou, como poucosdentre os chamados “grandes exilados”. Aliás, com Miguel Arraes, outro políticolongevo e de raízes populares próximas do antigo petebismo, seria o únicosobrevivente da República de 1946 e da frustrada experiência liderada por JoãoGoulart, contestada internamente pela onda conservadora daqueles anos, edesestabilizada pelos governos dos EUA, de John Kennedy a Lyndon Johnson, aquem caberia ligar o sinal de partida para a conclusão do golpe, operado pelosmilitares brasileiros.

Sobreviveriam, ambos, Brizola e Arraes, também ao ocaso daditadura militar e, cada um ao seu modo, os modos distintos do gaúcho e dosertanejo, com idas e vindas, convergências e conflitos, terminariam porcontribuir, nas últimas décadas do século passado, para a ascensão do PT deLula e do “novo trabalhismo” ao poder.

Os velhos caciques fizeram chegar bandeiras avançadas àsgrandes massas,  sotopostas desde o ocasodo varguismo e a crise das esquerdas, e por isso mesmo devem ser vistos como  tributários talvez conscientes da eleição de Lula em 2002, decisiva para oestabelecimento de uma nova correlação de forças, essa que com altos e baixoschega esperançosa aos nossos dias, após os desarranjos que levaram à ascensãodo protofascismo. 

Brizola trouxe para o debate nacional a denúncia doimperialismo, levantado por Vargas em sua carta-testamento. Ambos semprecontaram com a resistência da burguesia associada dos grandes cartéis,servidoras das grandes potências, da Inglaterra aos EUA, cujos interesses eleafrontou ao nacionalizar a filial da International Telephone & Telegraph(ITT) no Rio Grande do Sul. A grande imprensa nunca lhe perdoou por isso.Brizola foi duramente combatido pelos poderosos “Diários e rádios associados”de Assis Chateaubriand e pelo poderosíssimo Grupo Globo que, considerando serinsuficiente enxovalhar sua imagem pública, tentou, numa operação associada como poder militar, surrupiar-lhe a eleição de 1982 para o governo do Rio deJaneiro.

 Que a felizcoincidência do centenário de Brizola com a expectativa da eleição de Lula sejaa oportunidade de uma reflexão dos brasileiros sobre a crise política que nosalcança em seu ápice. A figura do líder gaúcho chama a responsabilidade cadauma de nossas organizações e lideranças comprometidas com a democracia, odesenvolvimento e o combate sem recesso à ignominiosa desigualdade social que,em pleno século XXI, impede a construção da nação que merecemos ser.

Por: Roberto Amaral.

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