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A guerra clássica e o fim da hegemonia anglo-saxã (Por Roberto Amaral)

A guerra clássica e o fim da hegemonia anglo-saxã (Por Roberto Amaral)

14/03/2022 12h53 Atualizada há 4 anos atrás
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A guerra clássica e o fim da hegemonia anglo-saxã (Por Roberto Amaral)

Ninguém cede poder por boa vontade. Olhando para a história,mudança na ordem mundial é um processo multifacetário, alongado, com lancesimprevisíveis e necessariamente sangrento. A mudança não será pacífica.Hegemonia internacional rima com hecatombe. O sangue correrá em proporções inimagináveis.

A guerra da Ucrânia ainda não é o armagedom do Ocidente, maspode chegar até lá,  porque a batalhareal, que se trava em todos os quadrantes do planeta, diz respeito à disputa danova ordem mundial,  anunciada pelo  encontro da emergência da China com  a decadência dos EUA. Essa guerra, global,  estratégica, permanente, já se opera em todos os níveis, no plano econômico tantoquanto no plano político, no plano diplomático tanto quanto nas esferas  ideológica e comunicacional. (A propósito,a  cobertura oferecida pelaRede Globorevela seu  extremo engajamento, ou seja,uma extremada parcialidade. Não se trata, porém, de fato isolado. Ela segue opadrão dominante da mídia internacional, que copia a linha editorial do The NewYork Times).   A novidade nessa guerra, éo ensaio bélico levado a cabo na Ucrânia, que cobrará imprevisível rol de vidashumanas perdidas. Pode ser o preludio do choque inevitável que os deuses doOlimpo intentam adiar, enquanto os guerreiros aqui na Terra afiam suas adagas.

 À Ucrânia foidestinado o papel do molusco na briga entre o mar e o rochedo.  Pagará alto preço.

 No centro do conflitoarmado – um dos cenários do confronto global, político, econômico,estratégico-- temos um ator que não se apresenta no ringue, a saber, os EUA, ainteligência que comanda o espetáculo remotamente, como um videogamemonstruoso, pois seus personagens são reais: soldados, homens e mulheres,velhos e crianças. A personagem que aparece é o presidente da Ucrânia,  marionete dos EUA, a quem se deve o golpe deEstado que derrubou o presidente Viktor Ianukovytch, ponto de partida para  tomada do poder pela extrema direita.Coube-lhe dar a motivação da crise com o pedido de ingresso da Ucrânia na OTAN,e ao permitir  a instalação em seuterritório de artefatos de destruição em massa, na fronteira com a Rússia. Eracutucar o velho urso com vara curta.

O mundo todo, aterrorizado, clama pela paz ante a agressãoda Rússia.  O que, porém,  significa defender a paz num conflito como oque se dá na Ucrânia? Condenar a Rússia e exigir sua rendição, sem garantias?Ignorar que as ações empreendidas por EUA/OTAN há pelo menos 15 anos são,também, atos de agressão? Ou considerar que não houve invasão do territórioucraniano pelas tropas de Moscou?

Mas o adversário é a China, atingida por tabela, na medida em que o conflito põe em xeque  seu principal aliado,  a Rússia. A Ucrânia não é sujeito no processo. 

A estratégia norte-americana até aqui funcional, é levar aRússia (o maior estoque de artefatos nucleares e o segundo exército do mundo) àexaustão, como levou no século passado a URSS à debacle, forçada a uma corridabélica superior aos seus recursos. Sua tática é promover a guerra porprocuração, livrando-se dos percalços sofridos lá atrás no Vietnã, e maisrecentemente no Afeganistão. A Ucrânia, assim, é uma contingência, quase umexperimento,  e a guerra uma oportunidadede ouro para o complexo industrial-militar de que nos falou o general Dwight D.Eisenhower, no discurso de transmissão da presidência dos EUA a John Kennedy,responsável pela fracassada invasão de Cuba (1961).  Assim, a continuidade desse conflito e aabertura de outras frentes, principalmente fora da Europa e longe dos EUA,atendem a uma vasta gama de interesses, dos mais variados matizes.

Como dito, a guerra, no momento, atende ao planejamento doImpério, empenhado em impedir ou adiar a troca de guarda com a China, o queexplica a OTAN (sob seu diktat)rejeitar a hipótese de  uma Ucrânia neutra, negando à Rússia asgarantias de segurança que os EUA e toda potência militar consideram comodireito inalienável. A resistência à Rússia visa a enfraquecer o principalaliado da China, de resto também ameaçada pelo poder de fogo dos EUA instaladoem Taiwan, um verdadeiro “porta-aviões terrestre”, a apenas 230 quilômetros desua costa. A Ucrânia é o sparring que os EUA escolheram para desafiar a Rússia.Esta, por seu turno, invadindo sua vizinha, ferindo sua soberania, nutre aesperança de livrar-se da instalação de mísseis da OTAN em suas fronteiras.

A guerra, no atual estágio, ainda um foco isolado na Europa(enquanto o morticínio corre solto no Oriente) tem por objetivo táticoenfraquecer a coalizão eurasiana. Os EUA jamais considerarão uma troca pacíficade poder, como aquela orferecida pela autodissolução da URSS, e nada sugere quea China e seus aliados, com destaque para o poderio bélico russo, aceite comofato natural o desafio do “Ocidente”, na contramão do processo histórico queanuncia, para além de uma nova governança mundial, o fim da hegemoniaanglo-saxã, no pódio desde 1815, trazendo em seu prontuário dois séculos decolonialismo e imperialismo, duas guerras mundiais, um incontável número deguerras localizadas, guerras terceirizadas, invasões e genocídios.

Moscou, com a China às suas costas,  e na atual contingência, luta parasobreviver; não pode perder, pois a brutal alteração do quadro de forças podeprecipitar o conflito EUA/Otan x China/Rússia - o que, presentemente, nãointeressa a nenhum dos contendores. A estratégia chinesa conta com o arsenalatômico da Rússia e a experiência de suas forças armadas. A negociação, o fimda beligerância significando um armistício em face do conflito maior entre asduas coalizões, encontra, porém,  umabarreira na lógica da guerra: pois quanto mais durar o conflito, mais a Rússiaenfrentará dificuldades (econômicas e políticas), e mais ganharão os EUA e seusaliados. Além do alto custo de uma guerra, não se deve subestimar  o peso das sanções econômicas em proporçãojamais vista. De outra parte, o conflito constitui   preciosa fonte de recursos para os EUA e seus aliados, sôfregos pela venda dearmas e equipamentos, pela conquista de mercados, pelo estabelecimento de áreasde influência, pela desestabilização de concorrentes.  Enquanto esse for o cenário, não interessaráaos EUA qualquer sorte de negociação. Sua tática deverá ser a de esperar aexaustão do adversário, aparentemente surpreendido com a lentidão do progressode suas forças, que deve ensejar tanto maior resistência da Ucrânia quantomaior desgaste, militar, estratégico, político e econômico da Rússia. Sem darum tiro, sem precisar desembarcar no cenário da luta, poderão os EUA ganhar,mesmo que a Rússia não perca militarmente; basta prolongar a guerra fornecendomunição à Ucrânia, por exemplo) e assistir de longe tanto o desgaste das forçasde Moscou no campo de batalha (que  sesupunha não passaria de uma Blitzkrieg)  quanto o desgaste de Putin no   front   interno. Há alguma similitude entre essaestratégia e aquela que levou à debacle da URSS, em 1991.

O fortalecimento da resistência ucraniana,  é, certamente, o primeiro passo paraprorrogar o conflito contra a estratégia do invasor, como ocorreu no Afeganistão.É possível, igualmente, que o  grandeencontro apocalíptico  se materializenuma  serie de conflitos de menorenvergadura. Um  insurgente exércitoucraniano (financiado e treinado pela OTAN) pode prolongar o conflito e imporpesados danos ??às forças russas. A resistência dos vietnamitas e as perdasimpostas ao exército invasor construíram nos EUA a reação da opinião públicacontra a guerra. Assim também a resistência da guerrilha afegã contra apresença das tropas soviéticas é contabilizada como um dos fatores queapressaram a debacle do regime de Moscou.

É um risco, já vivido por outras poderosas potênciasmilitarmente vitoriosas, que a Rússia se veja na continência de refém de suaprópria vitória, não podendo abandonar, para não perdê-lo, o espaço conquistado,permanecendo porém sem garantias para sua segurança. Precisará de um pretextopara o armistício, quando este se oferecer como do interesse dos EUA.. Peloandar da carruagem, e considerando o investimento na guerra,  é improvável que Moscou, ao fim e aocabo,  se contente com menos que agarantia de sua segurança, cujo condicionante fundamental é o não ingresso daUcrânia na OTAN e a autonomia das províncias do Donbass.

De uma forma e de outra, tanto Washington quanto Moscousabem como as guerras começam, mas que é impossível predizer seudesenvolvimento e principalmente seu fecho. Desta feita, todas as alternativassão plausíveis, desde uma solução pacifica a uma escalada contínuaconvencional, que chegará ao limiar da opção atômica. Uma paz amarga imposta auma Ucrânia derrotada, tanto quanto a retirada das tropas russas de mãosabanando, são hipóteses difíceis de serem admitidas hoje.

O caminho lógico para a paz parece, hoje, interditado, emais distante ainda ela parecerá na medida em que o conflito de blocos, já emum crescendo, avance.

O embate de nossos dias é explicado pela principalpreocupação de segurança nacional dos EUA, que é a competição estratégica delongo prazo  com a China e a Rússia. Oque está em jogo é a decadência do grande império do Norte, e a emergência daChina, a hegemonia mundial das próximas décadas, o futuro do"Ocidente". Está em jogo a possibilidade da hecatombe, porque opróximo conflito mundial, se houver, será nuclear. A guerra final. É umaquestão, pois, que diz respeito a todos os povos.

Os tempos responderão se é possível uma troca de comando daordem internacional sem o horror de uma guerra.

Por: Roberto Amaral. 

* Com a colaboração de Pedro Amaral.

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