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O doloroso parto de uma nova era (Por Roberto Amaral)

O doloroso parto de uma nova era (Por Roberto Amaral)

20/03/2022 08h39 Atualizada há 4 anos atrás
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O doloroso parto de uma nova era (Por Roberto Amaral)

A debacle da União Soviética – simbolizando a vitória docapitalismo sobre as experiências do “socialismo real”– , deveria haverensejado tanto o fim da Guerra Fria quanto a dissolução da OTAN, em face doesvaziamento do objetivo comum: o combate à "ameaça” comunista. Não foi,porém, o que se viu, quando a URSS, em 1991, não só renunciava,unilateralmente, ao comunismo, como se decompunha perdendo de saída, com aindependência de várias de suas repúblicas, cerca de 40% de seu território. Aantiga “sede do mal”, agora capitalista – porém um país capitalista pobre eexangue –, se oferecia ao Ocidente, que, vitorioso, tonitruava o fim dahistória. Soberbo, fez menoscabo da adesão do adversário derrotado. Reinava,desde Carter, a doutrina Brzezinski, que via a Eurásia, independentemente desua quadra política, como um possível obstáculo ao domínio global dos EUA, quequeriam incontestável, seja pelo adversário ideológico da Guerra Fria, seja poroutra potência econômica capitalista que viesse a emergir.  Em 1991, no governo de George H.W. Bush, a“Orientação de política de defesa”, referindo-se ao mundo que se sucedia àqueda do bloco comunista, afirmava que a prioridade estratégica dos EUA (istoé, da guerra), era impedir, no futuro, o surgimento de qualquer corrente globalpotencialmente ameaçadora da liderança de Washington. Paul Wolfowitz,subsecretário de Defesa, seu principal redator, esclarecia as preocupações doPentágono, posto que a Rússia, mesmo capitalista e fragilizada, “continuariasendo a potência militar mais forte da Eurásia”. Potência que, hoje, permanececomo o segundo exército do mundo, dispondo, ademais, do maior acervo de ogivasnucleares do planeta, e se candidata à liderança de uma nova ordem mundialresultante do encontro da decadência do Império com a emergência da China comopotência econômica, política e militar.

Impunha-se, então, nada obstante a opção pelo capitalismo, atarefa de desconstituir a Rússia ou, no mínimo, mantê-la sitiada. Essa políticacontinha o antigo império e fragilizava a estratégia chinesa, anulando apotência de seu principal aliado militar.

A estratégia dos EUA, vitoriosamente levada a cabo,consistiu em atrair  para a órbitaocidental (ou seja, da OTAN), sob seu comando, os Estados que compunham oantigo Leste Europeu. Em 1999, se incorporam à organização militar a RepúblicaTcheca (já desmembrada a Tchecoslováquia), a Hungria e a Polônia. Em 2004 é avez da Bulgária, da Estônia, da Letônia, da Lituânia, da Romênia, da Eslováquiae da Eslovênia. Em 2009 ingressam Albânia e Croácia; em 2017 Montenegro e em2020 a Macedônia do Norte. Essa politica de balcanização já destruíra aIugoslávia, mediante guerra sangrenta, de que resultou seu despedaçamento empequenos enclaves. O mesmo processo seria mais tarde levado a cabo no Iraque eno Afeganistão. Com a “Primavera árabe” chegaria à Tunísia, à Líbia, ao Egito eà Síria, ainda em guerra intestina.


Moscou estava destinada à asfixia.

Para os objetivos dos EUA, portanto, a absorção da Ucrâniapela OTAN é o coroamento de uma política de expansão militar bem sucedida; paraMoscou, impedi-la transforma-se em um imperativo de sobrevivência. A violênciada invasão é seu desdobramento.

O “Comunicado Final da reunião de chefes de Estado e degoverno da OTAN”, realizada em Bruxelas em 14 de junho de 2021, confirmavaoficialmente que Bósnia-Herzegovina (fruto da destruição da Iugoslávia),Geórgia e Ucrânia aspiravam a se tornarem membros da Organização. O documento,em sua essência, deixava claro que antes e depois da debacle, antes e depois daadesão ao capitalismo, antes e depois de seu desastre econômico, antes e depoisde Bóris Iéltsin, antes e depois de seu soerguimento sob Vladimir Putin, aRússia fôra sempre uma obsessão para os estrategistas do Pentágono. Na últimaoperação, preparatória da crise desses dias, os EUA haviam promovido o golpe deEstado na Ucrânia (2014) que derrubou o presidente constitucional ViktorYanukovych, abrindo caminho para a ascensão de governos hostis à Rússia e àsminorias russas, atacadas pelo exército ucraniano e milícias nazifascistas. Onovo governo, um títere pró-EUA, transforma o projeto de adesão à OTAN emmandamento constitucional. Na sequência do golpe, em 2019, o Parlamentoucraniano modifica a Constituição para, já no preâmbulo, reafirmar a“identidade europeia do povo ucraniano e a irreversibilidade do curso europeu eeuro-atlântico da Ucrânia". Mas a declaração de guerra viria no parágrafo5º do artigo 8º ao incumbir ao Parlamento o dever de implementar “o cursoestratégico do Estado rumo à plena adesão da Ucrânia à União Europeia e àOrganização do Tratado do Atlântico Norte".

Tratando-se de sua sobrevivência, Moscou não se estabeleceulimites, e a resposta ao que considera ameaça à sua soberania foi a invasão; ofracasso da diplomacia impôs a guerra, na qual todos estamos envolvidos,fundamentalmente em suas perdas, porque toda guerra é uma tragédia.

Como observou Aldo Fornazieri (“Uma guerra do século XX”,Carta Capital, 9/03/2022), "Antes da invasão da Ucrânia, a Rússia tinha avantagem moral, pois suas demandas eram e ainda são legítimas. Mas ao agredirinjustificadamente, colocou a vantagem moral na boca de líderes ocidentais quetêm as mãos sujas de sangue". Ocorre, porém, que a vantagem moral daRússia jamais foi considerada pelos EUA e seus servidores.

Putin, embora reconhecido como bom jogador de xadrez, parecehaver subestimado a resistência dos ucranianos e ignorado a capacidade doOcidente de impor sanções. A Rússia enfrenta um isolamento que mesmo a URSSjamais conheceu. E de bandeja entrega aos EUA bandeiras que sempre pertenceramà esquerda, como a defesa da autodeterminação dos povos, da paz e da negociaçãocomo instrumento de solução dos conflitos.

EUA e União Europeia, enquanto os embates se desenrolam naUcrânia, estão massacrando os civis do Iêmen, armando a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. Mas isso não fazsangrar os corações piedosos: os iemenitas são apenas árabes, não têm cabelosloiros nem olhos azuis.

Sob o pretexto da guerra, a pauta internacional anuncia maisexércitos, mais armas e mais conflitos. Sob os aplausos da EU a Alemanha deOlaf Scholz promete um reforço de 100 bilhões de euros nos investimentosmilitares, a elevação do orçamento do exército de 1,5% para 2% do PIB,  ao tempo em que anuncia um programa deexportação de armas. Em festa o complexo industrial militar. A periferia que secuide.

Para alguns analistas, Moscou caiu em uma armadilha dosamericanos. Se vero, terá sido a segunda vez, pois antes tropeçara namalsucedida intervenção militar no Afeganistão, uma guerra que começou perdida,enquanto a CIA, sob as ordens de Jimmy Carter, fortalecia as organizaçõesterroristas que nos anos seguintes iriam ensanguentar metade do mundo. ZbigniewBrzezinski, o estrategista da Casa Branca, perguntado se não se haviaarrependido de haver armado o terrorismo que ousara o 11 de novembro, respondeudizendo que a destruição da URSS era a grande compensação. Para todos osefeitos, aos olhos do império ora declinante, a Rússia é a sucessora da URSS.

A batalha da Ucrânia tem todos os ingredientes para setransformar em um estorvo mundial, posto que o que menos pesa é a integridadede seu território ou o direito de seu povo à autodeterminação. O que está emjogo corre por fora de seus interesses. Nesta briga, a Ucrânia (apesar deinvadida e em guerra), não exerce o papel de sujeito. O que está em jogo não ésua soberania ofendida, mas o doloroso parto de uma nova ordem mundial; um jogode poder, vital para as potências envolvidas, as quais, numa disputa de vida ede morte, de sobrevivência ou extinção, não conhecerão limites. Os EUA podemchegar ao final dessa guerra que alimentam sem a perda de um só homem: em seunome morrem civis e militares ucranianos. O que está em disputa, e é pelo quevelam os norte-americanos e a Europa submissa, é a definição da nova ordemmundial, pois vivemos os últimos tempos da hegemonia anglo-saxã, reinante desdepelo menos 1815, superada pela emergência da Eurásia. Trata-se do dolorosoparto de uma nova hegemonia, que põe em xeque a decadência do Império ante aemergência da China; trata-se do possível trânsito do poder do Ocidente para oOriente, do Atlântico para o Pacifico.

A História não conhece transição pacifica de poder, e adisputa da história presente comporta todas as hipóteses de desfecho.Descartada a eventualidade de uma vitória esmagadora de um dos lados, tantopodemos caminhar para um limitado acordo de paz, que será mero interregno antesdo próximo embate, quanto podemos caminhar para uma escalada de conflitoslevando a economia mundial a uma crise sem precedentes, anunciadora de inflaçãoe depressão – o que, sabidamente, é mais um elemento alimentador da guerra.

 

Este raciocínio não considera a ameaça do suicídio atômico.

Há um óbvio jogo. Aos EUA, em face do progressivocrescimento da China, é mais conveniente antecipar o desfecho. E, quando põe emrisco a sobrevivência da Rússia, parceira fundamental de Beijing, Washingtonestá mirando a China, seu verdadeiro adversário. Para a China a guerra éindesejável,  pois espera ascender aopódio conduzida pelo processo histórico que vê a seu favor.

Se sobreviver um mínimo de bom senso, os senhores dahistória presente evitarão vitórias (e derrotas) esmagadoras, e assim, darãomais tempo de vida à humanidade.

 

***

Advertência – Que o Peru nos sirva de aviso sobre os riscosde uma governabilidade conservadora. Pedro Castillo fez as concessões que podiae não podia à direita, e ainda assim quase ninguém acredita que encerre o anono cargo de presidente. As tratativas visando à sua deposição são comandadaspor três partidos de direita, liderados pelo Força Popular, da ex-candidataKeiko Fujimori, que perdeu para Castillo as eleições do ano passado.

Luz no fim do túnel – A dois meses das eleiçõespresidenciais, a esquerda colombiana foi a grande vencedora nas eleiçõesprimárias e legislativas. O ex-guerrilheiro e senador Gustavo Petro obteve 4,4milhões de votos e ampliou a bancada no Congresso.

* Com a colaboração de Pedro Amaral

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