É o exemplo que nos oferecem a luta e vida de NelsonMandela, contrapostas à entrega voluntarista de Che Guevara. Nesta quadrabrasileira, nenhum socialista pode, fora do delírio, antever a possibilidade da revolução social,nosso leitmotiv. Diante de nós, arealidade expõe os limites de uma peleja limitada à defesa da ordemdemocrático-burguesa que herdamos dos constituintes de 1988. Nem por issopodemos renunciar à politica, muito menos à luta estratégica, sonho ou utopia.
Caso avancemos eleitoralmente em 2022 – se para tantoajudar-nos o engenho e arte ausente em outras oportunidades, lograremos tambémafastar da ordem do dia o projeto protofascista que nos ameaça desde 2016, umaameaça tanto presente quanto grave, quando não mais nos é dado ignorar suaidentificação com ponderáveis camadas de nosso povo, para além da casa-grande.A emergência dessa peçonha ao poder, fato por si grave, cresce em riscos para a democracia e o progresso social,na medida em que o neofascismo continua crescendo no mundo, nomeadamente naEuropa (França e Itália, Hungria, Polônia e demais países do Leste europeu,) enos EUA – agora em plena campanhabelicista, que nos levará a uma guerra cujas proporções não podem serdefinidas, mas que, desafortunadamente, não poupará mesmo a periferia docapitalismo, aparentemente situada fora do teatro das conflagrações.
A ascensão do pensamento e da ação de extrema-direita noBrasil não deve ser vista como uma excepcionalidade, posto que simplesmentereproduz a própria história de nossa formação social, fundada no escravismo, noautoritarismo e no império da casa-grande, o poder dos 1% de brancos ricos quenos governam desde a colônia, com uma fértil variação de nomes e regimes, que,todavia, jamais altera o mando e a sotoposição das grandes massas.
Na curta vida republicana já conhecemos um sem número degolpes de Estado levados a cabo pela direita contra os interesses dos trabalhadores,e duas longevas ditaduras, o Estado Novo de Vargas (1937-1945), e o recentemandarinato militar (1964-1985), cujas piores heranças são cultuadas pelocapitão governante e seu séquito de engalanados. A questão urgente e ingenteque se coloca pela realidade, retardando a frente de esquerda e o projetosocialista, é, pois, ainda, a frente ampla necessária eleitoralmente paraderrotar a aliança civil-militar que ameaça a democracia, os direitos dostrabalhadores e a soberania nacional. A consolidação democrática é conditiosine qua non da defesa dos interesses dos trabalhadores.
É nessa contingência que nos encontramos presentemente, e énela que somos chamados a atuar como uma das forças em confronto. Cabe-nos,conscientes sempre de que as eleições (nada obstante importantes eimprescindíveis) são apenas um dos muitos espaços da batalha política, lutarmos, alargando as brechas possíveis, emdefesa dos interesses dos trabalhadores e do país. Ou seja, cabe-nos fazer dacampanha eleitoral um momento de educação das massas e de proselitismosocialista, à esquerda da campanha do PT. Não é muito, nem é pouco. É o possível, hoje. A alternativa é o niilismoou a alienação paranoica dos que confundem o sonho com a realidade. Onirismoque na política é sinônimo de fracasso, de que certamente se lamentam hoje asforças progressistas francesas, assistindo, pela terceira vez seguida, o pleitopresidencial cingir-se à disputa entre a direita e a extrema-direita, quando aunidade das forças socialistas e de esquerda teria assegurado a presença de umsocialista no debate e na disputa, Jean-Luc Mélenchon, que logrou avançareleitoralmente sem fazer concessões ideológicas.
Aqui, fracassadas as inumeráveis tentativas de construiruma candidatura de “centro” (subsumido pelo lulismo), o pleito marcharáinevitavelmente para a polarização centro-esquerda x extrema-direita, democracia x ditadura, o quepredefine o papel dos socialistas que é, na campanha de Lula, fazer o discursoda esquerda, discurso que, condicionado pelascircunstâncias eleitorais, o antigolíder sindical não pode mais fazer.
Desvanecido o sonho, o Lula de 2022, e sua campanha, é o possível que se tornou necessário; nossopapel, das esquerdas, é, pois, fazer dessa probabilidade uma certeza: o eventualterceiro governo do ex-presidente, porém, nada obstante as limitações impostaspelo processo social, será uma obra emconstrução, de que deveremos participar, pois refletirá o nível de organização do movimento popular, que será, de igualmodo, a garantia da sustentação dogoverno, aquela que faltou ao segundo governo Dilma, possibilitando o golpe deEstado e a ascensão da direita aopoder.
Em outras palavras, se é certo que o possível futurogoverno, uma coalizão que vai da direitaà esquerda, não poderá corresponder ao projeto dos socialistas, cumprirá aestes lutar pela vitória do projeto eleitoral, assegurar a defesa do governopara nele influir visando à maiorabertura político-social, de particular na proteção dos direitos dos trabalhadores,na luta contra a desigualdade social e a defesa da soberania nacional. Estastrês e cruciais tarefas, às quais se soma o combate à direita civil e militar,golpista, e o desmantelamento das milícias, dependerão de uma questão primáriana política, a saber, a correlação de forças na composição do poder. Nossacapacidade de influência (disputada legitimamente com outras forças) serámedida pela nossa capacidade de organização das massas, exercício ao qual ossocialistas, bem como os trabalhistas e a esquerda de um modo geral, de hámuito abdicaram.
As conhecidas manobras de Lula repetem a estratégia de2002: preparar a governança ainda na campanha eleitoral, inaugurada com aescolha de um empresário para compor a chapa e com a “Carta aos brasileiros”,que agora se diz dispensável. Àquela carta-compromisso, com a qual o candidatoprocurava aplainar os temores da casa-grande, seguiram-se as nomeações de umfuncionário do Banco de Boston para a presidência do Banco Central, de um sócioda Sadia para o ministério da indústria e comércio, e de um graduado líder doagronegócio para o ministério da agricultura. A nenhum de nós agradaram essasiniciativas, mas como dizer agora que constituíram opção equivocada, se mesmoassim seu governo não foi uma estância em Passárgada? Pois sabemos que em 2005 Lula teve ameaçada aestabilidade do governo, salva pelalealdade de José Alencar, um brasileiro de primeira água, a que se soma o erro de cálculo do PSDB, que, convencido dodesgaste irremediável do presidente, apostou em seu fim por si mesmo: “Vamosdeixá-lo sangrar”, sentenciaram os cardeais do tucanato. Ao invés de deixar-seimolar, Lula foi ao encontro do seu eleitorado e recolheu o apoio que tornouvazias as articulações golpistas. Para ganhar as eleições e conservar agovernança, será fundamental a organização dos núcleos populares, politizados,e assim em condições de ser mobilizados.
Lula sabe que será difícil governar, agora mais que antes.O quadro internacional, de guerra e polaridade política e militar, já apontapara grave crise econômica que não nos poupará, nem aos nossos vizinhos nem aosnossos principais parceiros comerciais e políticos; e ofantasma que assombra o mundo é uma recessãoassociada a uma onda inflacionária, que nos EUA já alcança índices sóconhecidos em 1981. De outra parte, o novogoverno encontrará a economia nacional depauperada, em acelerado processo dedesindustrialização; alto índice de desemprego; desorganização geral do serviçopúblico; desmonte do Estado; venda de estatais estratégicas na bacia das almas.Forças militares, partidarizadas, facciosas, armando-se com Viagra e prótesespenianas, corrupção à solta, uma imprensa uníssona e adversa, uma classedominante ardilosa e um Congresso do qual não se deve esperar colaboração.Porque, desgraçadamente, a próxima legislatura dificilmente diferiráda atual, em sua poltronice e absoluta ausência de espírito público, pois, paraesse objetivo, o planalto abriu asburras do Estado distribuindo milhões de reais (os que faltam para a educação,a ciência e tecnologia, ao SUS, e ao saneamento básica) para o financiamentodas eleições de deputados e senadores a serviço do pior da política, tão bemrepresentado pelo atual presidente da Câmara dos Deputados.
Este é outro desafio: como mudar a feição do atualparlamento brasileiro, se as forças populares não se dedicarem ao trabalhopermanente de educação das massas?
Por: Roberto Amaral.
* Com a colaboração de Pedro Amaral.
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