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É Com o que sonham os militares? (Por Roberto Amaral)

É Com o que sonham os militares? (Por Roberto Amaral)

03/06/2022 14h45 Atualizada há 4 anos atrás
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É Com o que sonham os militares? (Por Roberto Amaral)

Em circunstâncias de normalidade política, que o paísdesconhece desde os idos de 2016, tratar-se-ia de documento sem maiorrelevância. O debate que reclama não decorre, portanto, do seu volumosoconteúdo, mas do fato de o “projeto” vir a público respaldado por instituiçõescomprometidas até o gorgomilo com o atual governo, vinculadas que estão à suagênese, à tomada do poder em 2018 e, agora, ao continuísmo golpista anunciadoem prosa e verso pelo capitão, e acolitado pelos seus engalanados. Estamos, pois,diante de uma peça de operação política destinada a engrossar as águas docontinuísmo militar. É disto que se trata. No mais, temos um texto muito ruim,confuso na forma, prolixo, repetitivo, ridículo nas proposições; suas análisespartem de pressupostos grosseiramente falsos, e as propostas  (o “programa de governo”) revelam a paranoiaanti-esquerdista, de rendosa indústria, velha mazela que afeta a chamadacomunidade militar. O texto ainda fala - pasmem - em “ameaça comunista”.

Reporto-me ao “Projeto de nação”, editado pelo InstitutoSagres, associado ao Instituto General Villas Bôas e ao desconhecido  Instituto Federalista. A coordenação geral édo general Rocha Paiva.

Visto do ponto de vista político, como algo que pode serconsiderado estratégico “balão de ensaio, o “projeto de nação” (de fato umambicioso programa de governo que se estende de agora até 2035!) érepresentativo da média do pensamento (mais precisamente: das distorçõesideológicas) dominante em nossas casernas, o que dá a medida das ameaças quepesam sobre a democracia brasileira, frágil como o lume de uma vela.

Expõe o projeto de ditadura autobatizada de“conservadora-liberal-evolucionista-antiglobalista” (sic), em gestação, o quenão nos diz nada de novo, até porque seria uma contradição em termos requerernovidade do pensamento de uma direita dependente ideologicamente, como a nossa.O “projeto de nação”, ao fim e ao cabo, resume-se à transformação desses quasequatro anos de tragédia bolsonarista num programa de governo que não nosdeixaria antes de 2035.

O que terá levado os militares à produção e divulgação desseverdadeiro catecismo de má conduta?

Pela voz dos fardados, a casa-grande anuncia o que pretendepara os próximos 13 anos. Mandões, donos da verdade, da História e da pátria,os chefes militares, sempre a serviço da manutenção do statu quo, dizem o quedeve ser a sociedade, a nação (que ousam pretender moldar!), o país, o governo,o futuro enfim. Os militares que ditaram o caos no qual nos enredamos,forcejando para dele livrar-nos pelo processo eleitoral, planejam agora suaretificação formal. Dominação com ares de ciência.

O conglomerado de erros começa com o próprio título da peça,ensimesmado, autoritário, prepotente e revelador de crassa ignorância  das lições mais elementares de ciênciapolítica e história. As fileiras, que intentam reescrever a História, redefinirdemocracia e liberdade (condicionadas pela “disciplina” cívica), refazer oEstado e impor um novo direito e uma “nova ordem”, pretendem nada mais nadamenos do que refazer a nação, e para tal efeito apresentam um “projeto”.Ora,  nação não se projeta, não seconstrói, nem se reconstrói, não se predefine, não se pré-constitui. Fenômenohistórico-social de existência autônoma, a nação é ser vivo, existe por si  mesma (Ernest Renan, “O que é a nação” 1882).Não se improvisa, não se constitui pelo decreto das baionetas. Não se confundecom o país nem com o Estado. Não é um território, nem uma fronteira. Como é queos senhores a querem talhar?

O audacioso projeto parte de pressupostos que não demonstra(por exemplo: a sociedade brasileira é liberal-conservadora) ou deinvencionices paranoicas para justificar alternativas autoritárias. O discursoideológico, enredando os interesses da classe dominante, acusa de ideológicatoda e qualquer visão que não se enquadre nos estreitos limites do pensamentoautoritário-conservador. Importa da direita trumpista o conceito de “guerraideológica” e acusa a esquerda de movê-la entre nós.

O ponto central da análise canhestra aponta como fonte detodas as mazelas nacionais, da corrupção ao subdesenvolvimento, a“ideologização nociva dos sistemas de ensino e de cultura, com os escalõessuperiores dominados por lideranças ideológicas, radicais e sectárias, nãodemocráticas, o que colabora para a polarização da Nação, enfraquecendo suacapacidade de enfrentar o jogo do poder mundial.” Olhando e descrevendo um paísque só tem rosto no imaginário paranoico, os militares falam de um Brasil noqual nossas crianças sofrem “com a ideologização do sistema educacional, com adoutrinação facciosa efetuada por professores militantes de correntesideológicas utópicas e radicais” que submetem as crianças a “agressões físicas,mentais e psicológicas.” A alternativa, pregam, é “combater a revolução cultural promovida pelas correntes ideológicasradicais” (...) nos três níveis da Educação”, mediante, por exemplo,  valorização da disciplina dos alunos.Trata-se, aliás, de experiência já testada. Com efeito, o único programaeducacional do bolsonarismo em funcionamento cuida de fazer estudantesmarcharem e baterem continência, como se soldados fossem, em escolas transformadasem arremedos de quartéis.

Não poderia faltar a voz do agronegócio condenando “ascampanhas internacionais caluniosas” que visam a “comprometer a imagem doBrasil como não cumpridor de critérios de preservação ambiental”.  A pauta ambientalista, longe de cuidar dapreservação da natureza, como se anuncia, estaria a reboque de interessesestrangeiros. Tudo o que se sabe de desmatamento e depredação ambiental,portanto, passaria doravante ser invencionice de governos estrangeiros e ONGspor eles financiadas.

O “projeto de nação” da caserna extremista fala pelo queexplicita e fala muito quando silencia. Denotativa da deformaçãoprofissional-ideológica das forças armadas de que dispõe o Estado brasileiro éa pobreza das poucas páginas dedicadas a segurança e defesa nacional, que,supostamente, é/seria o que as justifica. O tema se esgota em pobres duaspáginas, capituladas após divagações sobre a “Integração da Amazônia aoBrasil”, e nada nos diz, seja a propósito do conceito geral de “soberanianacional”, seja daquilo que se poderia chamar de “doutrina nacional de defesa”,seja mesmo de logística e estratégia. Mas não é de todo insatisfatória aleitura, pois o último item registrará a “Baixa integração das Forças Armadasno desenvolvimento de projetos estratégicos voltados diretamente à defesanacional, dispersando recursos e comprometendo a eficácia operacional”. Aconfissão de ineficiência e mediocridade salva a leitura do lamentáveldocumento.

 

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Lira não tem vergonha – O presidente da Câmara dos Deputados,expressão anacrônica de jagunço alagoano, assumiu como meta ameaçar o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ). Como seviu no último dia 31/05, após o inefável Arthur Lira anunciar que pretendeviabilizar a privatização da Petrobras por meio de lei ordinária, assimdriblando as dificuldades de uma emenda constitucional, o deputado fluminense,denunciando a chicana, lhe fez a pergunta indispensável: "O senhor não temvergonha?" Tosco e autoritário, réplica malfeita dos coronéis da RepúblicaVelha, Lira deixou de lado a obediência que deve à Constituição Federal e, apóscortar o microfone do parlamentar, ameaçou acionar os seguranças para retirar ooponente do plenário. Em seguida, terceirizou a tentativa de intimidá-lo pormeio de representação ao Conselho de Ética: a tarefa coube ao notório ValdemarCosta Neto, presidente da legenda que abriga o capitão Bolsonaro. O tiro podesair pela culatra: pela conduta abusiva, Lira foi denunciado por Glauber àCorregedoria da Casa, e pelo seu partido, ao mesmo Conselho de Ética. Ali, se a legalidade prevalecer, ficaráclaro qual dos dois viola o dever de promover a defesa do interesse público eda soberania nacional, obrigação que o Código de Ética e Decoro Parlamentar docolegiado impõe a todos os deputados e deputadas.

Rosa da Fonseca – Beijo a alma invicta da companheira quepartiu, legando-nos o exemplo de uma vida dedicada à defesa dos “humilhados eofendidos”.

Por: Roberto Amaral.

* Com a colaboração de Pedro Amaral

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