A ainda chamada grande imprensa, que fracassou até aqui natentativa de construção artificial de uma terceira via na disputa pelapresidência, já dá sinais de seu incômodo, revelado na campanha que move, pormeio sobretudo de seus editoriais, contra a candidatura do ex-presidente. É suaforma envergonhada de fazer o jogo do capitão. Primam nessa linha Globo e Estadão; carentes de autonomia, títeres do sistema, simplesmente revelama indisposição de seus financiadores, o grande capital nacional einternacional, um e outro sem compromisso seja com o nosso desenvolvimento,seja com o processo democrático, posto que sempre estiveram firmes na defesa docapital estrangeiro contra o interesse nacional - assim no combate à Petrobrase ao monopólio estatal, como no apoio às alternativas de força e autoritarismo.Seu compromisso com a legalidade democrática é bijuteria vendida como gemarara. Combateram o trabalhismo nacionalista do Vargas da fase democrática eforam decisivos na preparação do golpe que levou o ex-presidente ao suicídio;tentaram impedir a posse de Juscelino e combateram o quinquênio desenvolvimentista; tentaram impedir aconstrução de Brasília, a que devemos a incorporação do centro-oeste à vida e àeconomia nacionais; apoiaram a tentativa de golpe contra a posse de Jango em1961 e cerraram fileiras no combate o mais feroz ao seu governo, participandodas articulações que levaram ao golpe de 1º de abril de 1964, e sustentaram aditadura e seus crimes até o momento em que o regime militar decidiu sair de cena.Na preparação do golpe, o Estadão funcionou como um arrecadador de fundosfinanciadores da conspiração (remeto o leitor às memórias do General Cordeirode Farias); durante a ditadura, a Rede Globo assumiu o indecoroso papel deporta-voz dos militares, escondendo da opinião os crimes contra os direitoshumanos e a um só tempo denunciando os adversários do regime. E todosmanipulando a informação, a serviço da ditadura. A chamada operação Lava Jato, um dos momentosmais ominosos do sistema judiciário brasileiro, com seu rol de crimesessenciais ao golpe de 2016 e à eleição de Bolsonaro, não teria alcançado osucesso conhecido se não contasse, do primeiro ao último momento, com o apoioconsciente e irresponsável dos meios de comunicação de massa.
Não se conte, portanto, com essa imprensa a fundo perdido,nada obstante seu mal-estar diante da truculência do presidente. No essencial,o neoliberalismo, o privatismo, estão em paz. Seus donos, os donos aparentes eos donos reais, o sistema financeiro, têm, é certo, restrições ao toscocapitão, mas em face de Lula a distância e o desacordo são de essência:trata-se de uma questão de classe.
As fileiras, comandantes e tropa, majoritariamente, estãodispostas a sustentar o projeto bolsonarista, muito pelo que o capitão e suashordas representam como apelo reacionário; mas o que as move , mais do quetudo, é a irracional resistência a Lula, visto como promessa de emergênciapolítica das massas. A caserna (com uma casta dirigente hoje embriagada deprivilégios) é visceralmente hostil a qualquer mudança social.
O governo do capitão e do falido "Posto Ipiranga"prima pela incompetência, como se vê, mas, reconheça-se, não traiu seuscompromissos com o capital estrangeiro e o grande empresariado. Essa gente nadatem a reclamar do golpe de 2016 e das eleições de 2018, e por isso mesmo nãopode se sentir tranquila quando divisa a possibilidade do novo governo de Lula,que promete voltar a perseguir a distribuição de renda (é de seu discursocolocar o pobre no orçamento da União e os ricos no Imposto de Renda - como, deresto, manda a Constituição). De Lula deve-se esperar a taxação das grandesfortunas e a retomada da política externa ativa e altiva que consagrou seusdois mandatos. Mas tais expectativas, que nos enchem de estímulo e trazem boasexpectativas quanto ao futuro, não podem agradar os EUA de Biden, como nãoagradaram ao de Barak Obama. É, pois, uma tolice pensar que os EUA resistiriama mais um golpe de Estado no Brasil, eles que tantos outros fomentaram, aqui emundo afora; pelo contrário, a continuidade da conhecida política externabolsonarista soa como acalanto para Wall Street, quando o Departamento deEstado deve suas atenções para o contencioso europeu e a insegurança de seumando na América Latina, sua área primária de preeminência - onde despontamnichos de resistência que tendem a se fortalecer com a eleição e Lula que,certamente, retomará os projetos de autonomia regional intentados em seugoverno. E não é preciso dizer que Lula voltará a prestigiar os BRICS, onde oBrasil tem como sócios, além da Índia e da África do Sul, nada menos que aRússia e a China.
O golpe, pois, não é uma certeza, mas uma probabilidade coma qual devemos contar.
O golpe ao qual me refiro não remonta às nossas quarteladas,de há muito superadas, com os vencidos conceitos clássicos da ciência políticaclássica. O golpe à vista, este de que falam as especulações, não lembra mais a“tomada de assalto do palácio de inverno”, nada tem a ver com putsch, o golpede mão, a ação de surpresa; pode mesmo dispensar a movimentação de tropas. Comas fileiras aquarteladas, o Congresso pode implementar reformas antissociais econtrárias ao interesse nacional; Executivo, Legislativo e Judiciário podemdesconstituir o Estado, romper o pacto político que ensejou a Constituição de1988, destruir a ordem econômica e impedir o desenvolvimento, como agora. Podemabolir os direitos trabalhistas e previdenciários, destruir o meio ambiente,assassinar os povos originários, estimular a cizânia nacional, promover oarmamentismo, congelar o desenvolvimento científico-tecnológico, condenar acultura à inanição. Podem alimentar o que há de mais atrasado em nossasociedade, como o racismo e a misoginia, destruir a escola pública e o sistemaúnico de saúde - o que, aliás, está no “Projeto de nação”, sistematização de umprograma de governo de extrema-direita que os militares apresentam como metadeste país até 2035.
O que vemos como ameaça no curto prazo é o aprofundamento de um sistema que se instalouem 2018, via processo eleitoral, ou seja, sem ruptura política, e que se vemmantendo até aqui, dilatando-se a cada passo e que, em face de determinadascircunstâncias, pode sobreviver a 2022, isto é, pode sobrevir à derrota deBolsonaro e estender-se no possível governo Lula. Essa contingência já foibatizada de “ golpe de Estado continuado”, e podemos chamá-la “golpe híbrido”.Tendo em seus alicerces as forças armadas (e nelas compreendidas as corporaçõespoliciais, civis e militares e suas adjacências, como as milícias) e o podereconômico, nacional e internacional (a Faria Lima e Wall Street), esse sistematrabalha com a informação e a desinformação, mediante o que omite e o que cria;onde deveria estar a liberdade de informação como o outro lado do direitodemocrático de ser corretamente informado, instala-se a informação manipulada; a unilateralidade toma o lugar dapluralidade ideológica. Mesclam-se táticas de guerra política, que vão de SunTzu a Goebbels, com táticas de guerraconvencional (como a grotesca parada dos tanques fumacentos da Marinha emBrasília, em 2021); movimentações de massa com táticas neofascistas como agressões morais e físicas, as ameaçaspolíticas, o vandalismo, as agitações de rua e a utilização de modernastécnicas de controle das redes sociais.
São os tempos em que vivemos. Formalmente, não se pode dizerque houve um “golpe de Estado” em 2018, mas é verdade que se trata de um regimede exceção que se implantou sem o apelo clássico à força: operou-se segundo asregras vigentes, sem quebra, portanto, da ordem constitucional. Mas não deixade ser uma fratura do pacto político.
Esse regime, resultante dessa nova forma de golpe, podesobreviver às eleições. Para essa eventualidade, todavia, não parecem alertas aforças políticas do campo democrático, pelo menos nos primeiros ensaios decampanha eleitoral que se apresenta despolitizada, ou seja, confinando a política aos objetivoseleitorais, relegando a plano secundário, mais do que a oportunidade, anecessidade de discutir com o eleitorado, inclusive, as questões acimalevantadas, para poder, estabelecendo uma nova maioria, rever o sistemapolítico resultante do golpe de Estado detonado em 2016, operado pelo Congressocom o apoio das forças armadas e a demanda do sistema econômico-financeiro.
É preciso dizê-lo: ainda que logremos a vitória eleitoralindispensável, será muito difícil o quadriênio. Para governar, fiel ao programade campanha, Lula dependerá tanto demaciço apoio popular quanto de alianças e composições que talvez suaexperiência e sua arte política consigam concertar. O ponto de partida serásempre a vitória no primeiro turno.
Por:
* Com a colaboração de Pedro Amaral.
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