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Os desafios pós-pesadelo (Por Roberto Amaral)

Os desafios pós-pesadelo (Por Roberto Amaral)

26/06/2022 07h44
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Os desafios pós-pesadelo (Por Roberto Amaral)

É majoritária entre os analistas dacena  republicana a convicção de quecaminhamos para a mais importante das eleições presidenciais desde o fim daúltima ditadura. Serão, porém, eleições graves, e disputadas em clima deexacerbado antagonismo, ensejador da violência política, terreno pelo qual aextrema-direita brasileira (como suas congêneres mundo afora) tem demonstradopredileção. Mais que indicar o próximo inquilino do palácio do planalto,estaremos, em outubro próximo, definindo que país pretendemos construir. Opróprio embate, reduzido a duas candidaturas antípodas, a opostas visões demundo, de país e de sociedade, dá ao pleito o seu caráter plebiscitário, semmeio termo, pois estaremos decidindo entre a promessa de futuro e a persistênciade um passado que enodoa a história.

O futuro presidente, e a hipótese com a qual trabalho é a daeleição do ex-presidente Lula, defrontar-se-á com uma sociedade cindida epolarizada como jamais esteve, opondo os interesses irreconciliáveis dacasa-grande contra as grandes massas dos deserdados do capitalismo. Aosexorbitantes lucros do sistema financeiro corresponde o desemprego e a queda derenda dos trabalhadores. Nada menos de 33 milhões de  brasileiros passam fome, quando seu país é umdos três maiores produtores de alimentos do mundo, quando a humanidade produzalimentos como nunca. Nossa burguesia, alienada e alienígena, governa uma dasmaiores concentrações de renda do planeta. Somos o paraíso de 1% de brasileirosbrancos, milionários e bilionários,  osherdeiros da casa-grande colonial, do império escravagista e da república dolatifúndio e do agrarismo.

Alimento a expectativa de que o candidato Lula e os cardeaisdo PT já estejam convencidos de que dias mais graves desafiarão a resistênciado processo democrático brasileiro, contra o qual investe, despudoradamente, oainda  presidente e seu séquito deáulicos, civis e militares, uns ainda fardados e outros já de pijama, aos quaisse junta o atual presidente da  Câmarados Deputados, que, como bem assinalou o deputado Glauber Braga, não temvergonha de conspirar contra o patrimônio público. Porque se trata da versãoatualizada de Eduardo Cunha. O ex-presidente da Câmara, comandante do impeachmentcontra Dilma Rousseff, e o atual,  sãoirmãos siameses em despudor e truculência a serviço do que há de mais abjeto napolítica brasileira. Eduardo Cunha, corrupto de carteirinha, abriu as porteiraspara a ascensão do bolsonarismo. Lira, fruto tardio do latifúndio e dapistolagem que por tantos anos presidiram a política alagoana, não conhecelimites – morais ou legais – quando se trata de prorrogar o bolsonarismo einvestir contra o interesse nacional, como quando opera contra a Eletrobras e aPetrobras. É esse serviçal do atraso, já candidato à reeleição, que presidirá aCâmara dos Deputados no curso da campanha eleitoral e até a posse do novopresidente.

Por consequência, a realização de eleições limpas e segurase a posse sem traumas do eleito elevam-se à categoria de prioridade para asforças democráticas brasileiras. A eleição de Lula, nesse cenário, será areafirmação do processo democrático. Não se trata, mais, de um projeto pessoal,ou de um partido, ou de um conjunto de partidos, pois representará a opção denosso povo pela via democrática e popular, quando em grande parte do mundo ditodesenvolvido, como os EUA de Trump e a França de Le Pen, avançam as hordas dadireita. A América do Sul de Gabriel Boric, Gustavo Petro  e Lula pode ser o outro lado, alvissareiro,da mesma moeda.

Além de comandar sua campanha, como qualquer candidato, Lulahaverá de cuidar da questão democrática (e nessa faina deveria ser acompanhadopor todos os partidos), quando a preservação do processo eleitoral volta a serameaçada, com o foi em 1955. Naquele então, não podendo barrar a candidatura deJuscelino Kubitscheck, os golpistas intentaram impedir sua posse, mobilizando aimprensa conservadora, o próprio presidente da República (o interino deputadoCarlos Luz, presidente da Câmara Federal) e setores mais reacionários dasforças militares, à frente das quais se perfilavam o marechal Juarez Távora e obrigadeiro Eduardo Gomes. A insurgência deu no contragolpe de 11 de novembro.

No momento, as mesmas forças do atraso, com o mesmo objetivogolpista, comandadas acintosamente pelo atual presidente da República, tentamdesestabilizar o processo eleitoral, ao desqualificar o sistema de votação eapuração. Para isso contam com apoio ostensivo do ministro da defesa – que nãose dá conta do papel anticonstitucional que desempenha quando procura coagir oTSE, a “força desarmada” na auto-conceituação do tímido ministro Edson Fachin.Contam, ainda, com a presidência da Câmara dos Deputados e a fragilidade doinsípido presidente do Senado Federal. E com apoio popular de difícil mensuração.

 

Não é pouco, convenhamos.

Após as iniciativas dos militares, cobrando o falso direitode supervisionar o processo eleitoral, agora é a Polícia Federal que anuncia adecisão de proceder a uma apuração paralela do pleito. O intuito de ambos é, naeventualidade de episódica divergência de números, instaurar a crise política,construtora do caos que antecede a violência institucional. A encenação nemoriginal é: foi intentada nos EUA por Donald Trump, e fracassou, porque lhefaltou o apoio das estruturas governamentais, de que é exemplo a recusa do viceMike Pence de tumultuar a sessão do Congresso que deveria referendar oresultado das urnas, a culminância do precário e arcaico sistema eleitoralnorte-americano.   Mas não lhe faltarammeios de mobilização popular, o que culminou com a invasão do Capitólio.

De tanto anunciado e de tanto ensaiado, como no 7 desetembro de 2020, o golpe dos sonhos de Jair Bolsonaro não mais conta com ofator surpresa, e já alimenta a resistência de setores ponderáveis dasociedade, temerosos do voo cego que os esperaria.  Mesmo a grande imprensa, principalmente porintermédio de seus principais articulistas, já denuncia o golpismo, em que pesesua solidariedade à política econômica do presidente, mormente em seu programade privatizações e no esforço por destruir a Petrobras, o pleito mor do grandecapital.

Não se deduza, porém, das aparências, que o projeto golpistafoi removido. Há muitos interesses em jogo, na caserna e fora dela, e o que nãoescasseia é a falta de escrúpulos. Essa gente não tergiversará em açular suasmultidões de seguidores e jogá-las irresponsavelmente contra as instituiçõesdemocráticas, se a alternativa for a queda do poder e a perda das tetas daviúva onde se banqueteiam com toda sorte de benesses, vilegiaturas, sinecuras eprivilégios incompatíveis com a índole republicana, como a compra, peloexército, com recursos públicos, de Botox, Viagra e próteses penianas, para ogozo de suas fileiras.

O cenário, pois, é de uma campanha eleitoral na fronteira daviolência política, o trunfo com que conta o bolsonarismo. O antídoto é umavitória esmagadora da oposição, a única forma de assegurar uma transição tãotranquila quanto possível, abrindo caminho para um quatriênio de normalidadepolítica.

Eleito, Lula terá ainda uma grande jornada à frente. 

Os termos de sua eleição determinarão as condições da possee o caráter de seu governo. Um dos fatores condicionantes do golpe de Estado de2016 foi a estreita margem de votos que separaram a presidente Dilma Rousseffde seu oponente, e a pequena bancada do PT que chega à Câmara  em janeiro de 2015: 70 deputados num coletivode 513. O futuro presidente terá de governar com um Congresso majoritariamenteconservador comandando algo como 80% do orçamento federal. Um Congressoenvilecido, controlado pelo Centrão e a cada eleição mais e mais desapartado docaráter de representação popular que o justifica. As futuras bancadas chegarãocevadas pelo erário e pela intervenção do governo federal na distribuição derecursos aos seus apaniguados, uma choldra que manipulará R$ 16,5 bilhões  (o total do orçamento secreto operado peloatual presidente da Câmara), e outros tantos bilhões derivados dos fundospartidários e eleitorais que alimentam os muitos partidos que dão sustentaçãoao bolsonarismo. Nesse Congresso que se instalará em 2023, certamente umaversão ainda mais deplorável do Congresso de nossos dias, o provável governo deLula, considerando a coalizão partidária que o apoia no pleito, não contará comuma base de apoio sólida, como não contou Dilma. E, como a ex-presidente, terácomo certa a má vontade da Faria Lima, do grande capital nacional einternacional, do agronegócio, do capital especulativo, dos rentistas de todosos naipes, e da grande imprensa, representante desses interesses, e que já ohostiliza, como o hostilizou nos idos da infâmia que a História registrará como“Operação Lava Jato”. Infâmia que não teria logrado seus objetivos se nãotivesse tido, como teve, como coadjuvantes destacados, os grandes meios decomunicação, que, até agora, não tiveram a dignidade de proceder à autocríticaque cobram de Lula e do PT. Lula haverá, ainda, de conviver com o bonapartismodo STF e o com o assanhamento dos militares, embriagados como nunca de cargos ebenesses, afastados como nunca de seus compromissos constitucionais e aindaconvencidos de que o Olimpo lhes deu o poder de curatela sobre o povo e o país.Além disso tudo, cenário que não foi visto nos idos de seus dois mandatos, Lulaconviverá com uma sociedade polarizada, profundamente clivada, e na qual emergeuma extrema-direita de dimensão e extremismo desconhecidos até aqui. 

Será preciso, ademais, administrar uma república em crisepolítica e moral, uma federação em frangalhos, um poder público desmoralizado,instituições desacreditadas, reclamando um governo de restauração nacional, e,nesse sentido, o desejado novo governo de Lula será um governo de transição, aofinal do qual (e só então) poderemos voltar a aspirar por um novo regime, aindade centro-esquerda, mas que aponte para a ruptura com a casa-grande.Independentemente do que pensem e pretendam Lula-Alckmin, independentemente doque pretenda o PT e do que  nos diga seuprograma de campanha, o provável governo Lula será determinado por essasquestões objetivas. Possivelmente, como Gustavo Petro, recém-eleito presidenteda Colômbia, Lula será obrigado ao chamamento da conciliação nacional, essaentendida como uma composição com todas as forças democráticas do país, parapoder realizar, não o governo desejado, mas aquele ditado pelas circunstâncias,filhas do processo social que chega aos nossos dias aos trancos e barrancos.

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Tríplice vitória na Colômbia, um presidente deesquerda,  uma vice mulher e negra.

 

Por: Roberto Amaral.

* Com a colaboração de Pedro Amaral.

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