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A extrema-direita ainda respira (Por Roberto Amaral)

A extrema-direita ainda respira (Por Roberto Amaral)

19/12/2022 09h09 Atualizada há 4 anos atrás
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A extrema-direita ainda respira (Por Roberto Amaral)

As reflexões sobre o processo histórico republicano e a horapresente convencem-me de que o fato novo a ser considerado (para que a elerespondam o pensamento e a ação da esquerda) é a emergência de forte movimentode extrema-direita, que se afasta, na sua contundência e periculosidade, dasexperiências que dominaram o cenário político brasileiro do século passado.

O integralismo,  cujasbases doutrinárias Plínio Salgado colhera no discurso de Mussolini - nos anos1930 o fascismo ascendia em todo o mundo, principalmente na Europa (Itália,Alemanha, Espanha e Portugal) e no Japão -, não logrou constituir-se emexpectativa de poder entre nós, bloqueado que foi pela consolidação do EstadoNovo (1937-1945) e, na sequência, pelo ingresso do Brasil na guerra contra oEixo (ao lado dos EUA e da URSS), precedido e seguido de amplas mobilizaçõespopulares que assegurariam, como peças siamesas, o repúdio popular aonazifascismo e a afirmação política e ideológica da democracia liberal,objetivada nas eleições presidenciais de 1945. A partir daí, o integralismo setransforma em força política irrelevante. Durante o Estado Novo, frustradas asaspirações de Plínio de fazer-se ministro da Educação de Vargas, osintegralistas intentam o putsch de 1938 (assalto ao Palácio da Guanabara, onderesidia o presidente), sendo aniquilados rapidamente, um indicativo de suabaixa penetração nas forças armadas, não obstante as simpatias de comandantescomo Eurico Gaspar Dutra e Góes Monteiro, o general a quem se atribui a frase“quando a política entra no quartel por uma porta, a disciplina sai por outra”.Organizados como partido político (PRP), os integralistas lançam a candidaturade Plínio Salgado nas eleições de 1955, obtendo desempenho inexpressivo. Noperíodo constitucional-democrático que se segue a 1946 surge, na esteira doanti-varguismo, a UDN, que, inventada como negação do legado getulista e daditadura do Estado Novo, elaborava o discurso da defesa da democracia ao tempoem que traficava o golpe de Estado nos quartéis. Perdeu todas as eleiçõespresidenciais que disputou,  atéencangar-se na candidatura de Jânio Quadros, cujo governo se frustraria natentativa de golpe de 1961. Seguem-se a vilegiatura do presidente renuncianteem Londres e, derrotada nas ruas, a tentativa dos ministros militares deimpedir a posse do vice-presidente João Goulart.

No cenário republicano nada que antecipasse o quadropolítico de mobilização popular reacionária que começa a se consolidar em 2013para conhecer seu ápice na eleição de Bolsonaro (2018) e em seu governo, cujascaracterísticas ideológicas e ação objetiva definem seu caráter protofascistaque, a esta altura, dispensa demonstração. Ao contrário, o histórico recente,desde a campanha das diretas-já, sugeria o avanço das forças progressistas.

Se a ditadura do Estado Novo se instala no bojo de um golpede Estado, articulado por Vargas e operado pelos militares, tanto quanto aditadura resulta do golpe militar que depôs João Goulart, o bolsonarismo chegaao palácio do planalto chancelado pela soberania popular, em pleito ao qual nãose podem invocar restrições. Este diferencial deve ser considerado. Seguindo alinha populista, procura o diálogo direto com as massas e governa comorepresentante de uma aliança que reúne militares (responsáveis pelas decisõesestratégicas), setores majoritários do grande capital e o atraso político, quelhe assegura tranquilidade no Congresso. Os militares já não precisam dasmedidas de força dos atos institucionais da ditadura, pois contam com aassociação do poder legislativo, liderado pelo “centrão” e pelo baixo-clero.

Após quatro anos de governo marcado pelo descalabroadministrativo (a gestão da pandemia é tão-só um caso, ainda queparadigmático), inumeráveis e grosseiras tentativas de fraturar o processodemocrático e uma derrota eleitoral em nada acachapante, a base popular dobolsonarismo dá preocupantes sinais de resiliência e crescimento. Não foramtriviais as condições segundo as quais se desenvolveu o pleito deste ano, e aanálise de seus números mostra que o candidato derrotado não é um inimigoabatido. As turbas açuladas pelo capitão e por oficiais superiores em postos dechefia, como o general comandante da 10ª Região Militar, indicam insubordinaçãoe resistência às regras da convivência democrática. Às tentativas de bloqueiodas estradas, os acampamentos sediciosos e os piqueniques nas portas dos quartéis,se somam os desmandos recentemente levados a cabo por desordeiros em Brasília,como eco dos desesperados à diplomação de Lula. Esses fatos são graves em si mesmos e pelo que revelam acerca dastáticas que a extrema-direita se dispõe a pôr em prática para inviabilizar ouao menos conturbar a mudança de governo.

Enquanto as hordas bolsonaristas tentam, até aqui em vão,incendiar as ruas, o presidente da Câmara dos Deputados mobiliza os recursosdisponíveis, inclusive a chantagem, visando a atrasar a aprovação da PEC 32/22,sabidamente fundamental pelo menos para os dois primeiros anos do próximomandato. A objetiva tentativa da extrema-direita de acuar o futuro governoindica o caráter da oposição com a qual deve contar o presidente Lula,qualitativamente muito diversa daquela que conheceu em seus dois mandatosanteriores, quando ainda havia o confronto com a socialdemocracia paulista.

 A resistência aoprojeto protofascista de instalar uma ditadura constitucional levou àarquitetura daquela que certamente terá sido a mais larga frente amplapolítico-eleitoral conhecida na República, similar à aliança que se constituiuno movimento das diretas (1983-1984) e levou à implosão (1985)  do colégio eleitoral montado pela ditaduraagonizante para eleger seu delfim. A chamada “Aliança democrática” derrotouPaulo Salim Maluf, candidato dos militares, elegeu Tancredo Neves, e os fadosderam posse a José Sarney.

A aliança de 2022 articulou, em torno da inusitadadobradinha Lula-Alckmin, um arco político que se estendeu da direita àesquerda, passando por liberais e socialdemocratas; chegou mesmo a incorporarsetores do grande capital, de que resultou a adesão de órgãos da grandeimprensa. Logramos vitória eleitoral assim partilhada, mas não podemos ignorarseus números, os das eleições presidenciais e os das eleições proporcionais edas majoritárias para o Senado, de que resultou o domínio, por quadrosbolsonaristas, dentre outros, dos mais poderosos Estados da federação, como SãoPaulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, e o controle do Congresso pelas bancadasque transitam da licenciosidade política (“Centrão”) à extrema-direita, sob ocomando do atual  presidente da Câmara,que se distingue do lamentável Eduardo Cunha apenas pela maior truculência.

Distanciando-se do integralismo e do udenismo, aextrema-direita de hoje, conservando e aprofundando sua perigosa interação coma caserna, emerge como movimento político organizado e de comprovada capacidadede mobilização derivada de sua base popular e religiosa, alimentadaprincipalmente pelo neopentecostalismo, que ocupa, com o tráfico e as milícias,os espaços deixados pelas comunidades eclesiais de base e pelas organizaçõespartidárias de esquerda, que transferiram seus quadros para o dolce far nienteda burocracia pública e sindical. Seu discurso chega às classes médias urbanas(sempre acossadas pelo espectro da proletarização), é ouvido  pelas populações marginalizadas das periferias e conquistou mesmo a adesão devastas camadas das massas trabalhadoras, nada obstante suas investidas contraos direitos previdenciários e trabalhistas, num quadro de acentuadaprecarização do trabalho.

Dispensável destacar que o bolsonarismo contou para suaemergência, e conta até aqui, com a adesão que jamais faltou aos projetos autoritários da direita e daextrema-direita, seja ao integralismo, seja ao udenismo, como não faltara aoEstado Novo e não faltaria à ditadura instalada em 1964. Refiro-me,evidentemente,  ao apoio da classedominante brasileira, reacionária, atrasada historicamente, herdeira dacasa-grande, do latifúndio e do escravismo, alienada e dependente, homofóbica eracista. 

Ao contrário dos movimentos anteriores, o bolsonarismo, paraalém de simplesmente contar com apoios na caserna, como toda iniciativareacionária,  assumiu, a partir de 2018,o papel de braço político do projeto de mando dos fardados, posto em resguardodesde 1985, com a transição para a democracia. A eleição do capitão foidecisiva para o retorno dos militares ao poder, e, assegurou, ainda, e como suaconsequência, a hegemonia de uma pauta protofascista cujas consequênciaspolíticas, ideológicas e econômicas cobrarão anos de muito engenho e arte, bemcomo firmeza, para serem superadas - superação que teve no pleito de 30 deoutubro seu ponto de partida. Fundamental, mas ainda apenas o ponto de partida,indicando um longo percurso a ser observado, e um rol de iniciativas ainda não conhecidode todo. São tarefas que incumbem ao futuro governo Lula, mas não só a ele,pois tanto a  sustentação do governoquanto o enfrentamento da extrema-direita carecem da organização da sociedadebrasileira - de que depende a revisão estrutural dos partidos que se perfilamno chamado campo da  esquerda.

A análise dos números do pleito nos diz que, para além dosmecanismos do processo eleitoral stricto sensu, como, por exemplo, abuso dopoder econômico e do poder político por parte do incumbente, e discussões emtorno de táticas e estratégias de marketing eleitoral, devemos estudarpreferentemente o que não está na superfície, a saber, o processo histórico queensejou a emergência da extrema-direita quando a aparência nos dizia que o paísgirava em torno da opção socialdemocrata, ora conservadora, ora progressista.

A emergência dessa extrema-direita, sua resiliência mesmoapós a derrota eleitoral, associada à resistência militar, ora surda, oraativa, são fenômeno grave que não pode ser negligenciado. Pois não bastaregistrar o fato em si, e simplesmente “naturalizá-lo” como se o processosocial fosse um determinismo ou uma fatalidade religiosa, impondo ao papel doindivíduo na história uma irrelevância sem cura. A história é movimento, einterpretá-la é apenas o primeiro passo para saber como nela devemos intervir.

 

***

A Folha falha - Com a demissão de Janio de Freitas, o jornalda família Frias mais se empobrece, e dá um passo considerável rumo ao últimosuspiro. É pena.

 Por Roberto Amaral.

*  Com a colaboraçãode Pedro Amaral

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