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No centenário de Jacob Gorender (Por Roberto Amaral)

No centenário de Jacob Gorender (Por Roberto Amaral)

30/01/2023 08h50 Atualizada há 4 anos atrás
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No centenário de Jacob Gorender (Por Roberto Amaral)

"O socialismo não é umfim imanente à sociedade e à sua história, mas um fim que os próprios homenselaboram, sujeito a se realizar ou não. Se as condições objetivas impessoaissão, num grau variável, determinadas e determinantes, a realização dos fins, a queos homens se propõem, inclusive do fim socialista, estará sempre sujeita àindeterminação, dependente da luta dos próprios homens."

- Jacob Gorender,  Marxismo sem utopia

Historiador original, escritorprolífico, cientista social, intelectual orgânico na melhor acepção gramsciana,comprometido a vida toda com os interesses da classe trabalhadora, JacobGorender figura entre os mais destacados pensadores  brasileiros do século XX. Sua bibliografia seencontra na mesma prateleira que guarda as obras de Gilberto Freyre, OliveiraVianna, Sérgio Buarque de Holanda, Celso Furtado, Darcy Ribeiro e mais unspoucos, contados nos dedos de uma mão. Ao lado de Caio Prado Júnior, pioneirona interpretação dialética da história social brasileira, e de FlorestanFernandes, fundador da sociologia crítica do Brasil, destaca-se como um dosnossos principais teóricos  marxistas, edos mais criativos, porque certamente, na sua maturidade, o menos ortodoxo.

Em comum, Caio, Gorender eFlorestan, percorrendo experiências existenciais distintas, associam a altaespeculação e a pesquisa científica à ação militante. Todos marxistas, os doisprimeiros vinculando-se ao Partido Comunista Brasileiro, Gorender lançando-se àação revolucionária direta, e Florestan dedicando-se a uma das mais brilhantescarreiras acadêmicas de nosso país, desenvolvida fundamentalmente na USP. Todosconheceram a repressão. Os três tiveram seus direitos políticos cassados pelo regimemilitar instaurado no infame 1º de abril de 1964. Nenhum, porém, permitiu que arepressão, em qualquer momento, tolhesse a militância, o comprometimentohistórico ou a produção intelectual. Deixaram obras que merecem o epíteto deprimas.

A principal contribuiçãocientífica de Jacob Gorender revela-se no estudo de nossa formação, ao superara disjuntiva feudalismo versus capitalismo na interpretação do modelo econômicodo Brasil Colônia-Império, modelo que, nos seus estertores, chega à repúblicasereníssima preso à lavoura e ao extrativismo, ainda como economiaagroexportadora. A ciência deve-lhe a identificação de um modo de produçãointeiramente novo e específico, o escravismo colonial, com o qual avança sobreas  formulações anteriores de Alberto PassosGuimarães (feudalismo), Nelson Werneck Sodré (modo de produção escravista,segundo os parâmetros do escravismo clássico) e de Caio Prado Jr., que, aointroduzir na análise as categorias do materialismo dialético, distingue, emsua obra seminal (Formação do Brasil contemporâneo, de 1942), o caráter jácapitalista do processo colonial brasileiro. Afasta-se de Roberto Simonsen, queenxergara  os ciclos dos produtos deexportação como épocas ou sistemas econômicos e neles  identificava  a estrutura exportadora da economia nacional.

Após lembrar que o escravismocolonial não pode ser visto como invenção arbitrária, fora de qualquercondicionamento histórico, afirma-o como fenômeno específico de nossaexperiência que surgiu e se desenvolveu “dentro de determinismo socioeconômicorigorosamente definido no tempo e no espaço”. Desse determinismo é que oescravismo colonial teria emergido “como um modo de produção de característicasnovas, antes desconhecidas na história humana” (O escravismo colonial, 1978).  

Jacob Gorender saiu de umcortiço de Salvador (onde nasceu em 20 de janeiro de 1923) para a Faculdade deDireito da Bahia, cujo curso abandonou em 1943 para, como voluntário, integrara Força Expedicionária Brasileira e lutar na Itália contra o fascismo. Noregresso se reintegra ao Partido Comunista Brasileiro de sua juventude, ondeviveria uma longa trajetória de militância revolucionária. Enfrenta omacartismo caboclo que traz para o Brasil a Guerra Fria na sucessão do conflitomundial, e, com ela, a cassação do PCB, a repressão policial, as prisões e aclandestinidade, que voltaria a purgar após o golpe de 1964. No “partidão”(onde chegaria ao Comitê Central) permanece até 1967, quando, com Mário Alves eApolônio de Carvalho, entre outros, é expulso da legenda por divergências quese vinham acumulando e que se tornariam insuportáveis após o VI Congresso:desencontros profundos sobre estratégia e tática, fundamentalmente sobre ocaráter da revolução brasileira. Numa tentativa de resumo pode-se afirmar que oembate se centrava  em  duas desilusões: a descrença numa viapacífica para a conquista do socialismo, e a descrença numa aliança com achamada burguesia nacional. Em artigo de 1960 (Estudos Sociais, nº 9),  Gorender enfatizava o papel do proletariadona liderança da “revolução nacional e democrática” - em antagonismo com a linhado “partidão”, a pleiteada aliança com  aburguesia nacional -, e já dissertava que a revolução brasileira provavelmenteconheceria a luta armada.

Veremos, adiante, que reconsideraráo papel do proletariado na revolução socialista. 

Em 1970, com Mário Alves eApolônio de Carvalho, participa da fundação do Partido Comunista BrasileiroRevolucionário-PCBR e se dedica à luta contra o regime militar, pela via quenaquela altura lhe parecia mais consequente. É nessa contingência que começanossa amizade,  por intermédio de AytanMiranda Sipahi, que me levara, com Valton Miranda Leitão, a acompanhá-los naaventura (que então não supúnhamos quixotesca) de tentar construir uma organização comunista realmenterevolucionária. Fracassamos todos. Sem lograr o que fosse de positivo na lutacontra a ditadura, o PCBR foi destruído pela repressão que sobre ele se abateude forma implacável. Toda sua direção e grande parte de seus quadros foram encarcerados.Jacob, Apolônio e Aytan foram presos, torturados, julgados pelos tribunaismilitares e condenados. Mário, empalado, foi assassinado nas dependências doQuartel da Polícia do “exército de Caxias” no Rio de Janeiro. Familiares eamigos ainda procuram seu cadáver.

Com o fim de sua organização,Gorender dedica-se a pensar o Brasil; desvinculado da militância partidária,elege a militância intelectual, cuja base é a autonomia intelectual e a razãolivre. Constrói obra de análise crítica engenhosa, inovadora e inevitavelmentepolêmica, quando, ousadamente, discute as carências da interpretação marxistada revolução brasileira, as limitações do determinismo histórico, e põe emquestão o papel revolucionário do proletariado, “ontologicamente reformista”,em suas palavras. A bagagem intelectual acumulada e a longa experiência vividalevam-no a rever muitas das posições políticas e intelectuais sustentadas aolongo da vida, a começar pelo projeto socialista brasileiro, seu conceito e osmeios de conquista do poder. A maturidade impõe-lhe o império da realidadesobre o sonho. Não abjura o marxismo (o bolchevismo, sim), antes o vivifica.Ousa afirmar que “já é tempo de atualizar o marxismo”, tarefa a que sededicará, e questiona o destino revolucionário do proletariado, bem como suaprometida ditadura. Para o Jacob Gorender desse então o socialismo deixa de serum determinismo histórico para constituir-se em necessidade, cuja realizaçãodepende da ação dos homens. A concepção “autenticamente dialética do determinismo”requer “passar o marxismo pela prova da história”, escreveria.

Combate nas Trevas (1987),produto de oito anos de pesquisa, associa investigação e testemunho do autor,bem como suas reflexões, sua crítica e alguma autocrítica sobre a saga dos gruposda esquerda que optaram pela luta armada desde os idos antecessores de 1964 atéos anos 1970, quando os focos de resistência armada são dizimados  pela repressão. É, talvez, a primeiratentativa de desvelar a história das torturas e dos assassinatos praticadospelos agentes do Estado. 

Em Marxismo sem utopia,escreve: “Assim como Marx e Engels apostaram no proletariado industrial, emmeados do século XIX, podemos agora, às vésperas do século XXI, apostar naclasse dos assalariados intelectuais. [...] Se os assalariados intelectuaisconstituem, em nosso tempo, a classe que cresce e o faz a ritmo acelerado, emcontraste, o proletariado rural e o campesinato se tornaram classes residuais,de pequena significação, nos países desenvolvidos, e, na maioria dos demais, seencontram em declínio. Ao mesmo tempo o proletariado industrial sofre o impactodo processo de encolhimento e perda de força social. Mas os assalariadosintelectuais, além de estarem em crescimento, são os detentores do fator cadavez mais decisivo no processo  deprodução, ou seja, o fator conhecimento”.

Este texto de Gorender é de1999. Passados 14 anos, sua atualidade aparece acentuada pelo processohistórico, reclamando a reflexão dos que pensam o processo político brasileironas contingências de nosso curto prazo.

Visitar a obra de Gorender (nocaso deste intelectual orgânico, vida e obra constituem uma unidaderevolucionária) torna-se uma exigência quando vivemos perigosamente carentes dereflexão à esquerda. Sua obra e sua militância são, hoje mais do que nunca, umaboa contraposição aos liberais de todos os matizes que associam o marxismo aortodoxia e dogmatismo, bem como aos autointitulados marxistas que,lamentavelmente, fazem exatamente isso.

Devemos a Jacob Gorender umaexistência de 90 anos dedicados à libertação de nosso povo e ao  culto à inteligência.   Trata-se, acima de tudo, de um grande eprecioso brasileiro. Na expressão de Eugenio Bucci, sua vida “foi uma prova deque a humanidade pode ser melhor do que é”. No último dia 20 passou em brancoseu centenário.

Por: Roberto Amaral.

* Com a colaboração de PedroAmaral.

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