Geral É

É preciso superar o imobilismo "progressista" (Por Roberto Amaral)

É preciso superar o imobilismo "progressista" (Por Roberto Amaral)

13/02/2023 10h10
Por:
É preciso superar o imobilismo

"Se a aparência e a essência das coisas coincidissem, aciência seria desnecessária"

- Karl Marx,  Ocapital

A realidade, nestes termos, passa a  ser vista: 1) como fato em si, fenômeno incontornável, estanque e estático, completo eimodificável; e 2) como projeção mecânica e incontornável  do passado no presente. As limitaçõesdessa  historiografia pretensamenteobjetiva, que descarta o papel do processo social, ficam evidentes na suaincapacidade de explicar as raízes sociais do advento, no Brasil, do chamadobolsonarismo, emergindo aparentemente sem causa visível após décadas de avançodas forças progressistas e de centro-esquerda. A adesão político-eleitoral desetores significativos da massa trabalhadora à retórica fascista, nestestermos, deve ser vista como produto natural da nossa formação econômico-social,que tudo explicaria: tanto a violência da ordem estatal quanto o amorfismo dasgrandes massas diante da injustiça social, tanto os surtos autoritários quantoos remansos democráticos. 

Essa simplificação – intento de resposta pacientadora àinquietação dos que almejam interferir no processo histórico e se quedamimobilizados na ausência de alternativas –, tende  a transformar um materialismo dialético malapreendido em manifestação de fatalismo de fundo místico. Essa regência  inevitavelmente nos conduziria a formas deniilismo e imobilismo, irmãos siameses na inação, pois, se os fatos que compõema realidade estão na “ordem natural das coisas”, nada mais há por fazer.

Ao confundir a aparência dos fatos com sua essência, o falsomarxismo procura explicar o processo social descartando a capacidade do sujeitohistórico de nele intervir qualitativamente. Afasta as massas do combate e daresistência. Talvez aí, em suas consequências, se encontre uma das muitas explicaçõespara o fato de o processo político-social brasileiro – já abalado pelo descensodas forças proletárias urbanas e camponesas e a crise do trabalho – atravessarmomento político-ideológico crítico, representado pela recuperação das teses domais puro fascismo, que parecia erradicado entre nós desde a falênciaideológica e social do integralismo e a derrota do nazifascismo no cenário deguerra.

A crise político-ideológica das esquerdas brasileiras,segundo vejo,  deita suas raízes naanemia política dos partidos do nosso campo, desde os de centro-esquerda aosditos de esquerda propriamente dita, chegando mesmo aos partidos originalmenterevolucionários. Renunciaram à organização das grandes massas, ao proselitismoideológico e à denúncia do capitalismo. Declinaram, na ação e no discurso, dadefesa da visão de mundo que os diferenciava das correntes conservadoras eliberais. As tentativas de explicação percorrem as mais variadas vertentes,desde a debacle da URSS, que desestabilizou no Brasil e no mundo asorganizações comunistas, até a opção da centro-esquerda brasileira peloeleitoralismo puro e simples (mas lamentavelmente confundindo tática eestratégia), levando-a a compor com as teses liberais ou de centro-direita(muitas vezes assimiladas), perdendo, assim, identidade ideológica e por issomesmo se confundindo com as forças conservadoras no embate eleitoral, afinalchafurdando no terreno que Gramsci chamava de “pequena política”.

Quando se reclama a necessidade de estudar a emergência doque se convencionou titular como “bolsonarismo” (a ressurgência de umpensamento e de uma ação que caminham da direita ao fascismo, com apoio emamplas camadas populares), dizem-nos os “pensadores objetivos” que não há nadade novo sob a luz do sol, pois o Brasil é o que sempre foi, sem poder serdiferente: reacionário, hoje não mais do que no passado, nem menos do queamanhã. O presente  não seria obra dosviventes, mas apenas dos mortos, “herança arcaica pretérita” como escreveuOctavio Ianni. Assim, as gerações se seguem, lavando as mãos como Pilatosdiante do mundo, aquele em que vivem, e aquele que deixam para seus sucessores.

A movimentação surda das placas tectônicas que está na raizdas movimentações dos idos de 2013 – na contramão da aparência de normalidadepolítica e de sucesso de aprovação popular dos governos petistas – não éconsiderada como fato novo. Ora – objetam os sociólogos e antropólogos àsinquietações do leigo – uma sociedade como a brasileira, herdeira doescravismo, do latifúndio e do genocídio das populações nativas, não podedeclarar-se assustada com a emergência da extrema-direita tabajara. A históriapresente, mera decorrência de algum passado, está  explicada e pronta, obra dos mortos queabsolve os vivos de qualquer responsabilidade pela tragédia do capitalismobrasileiro.

O fato de o candidato protofascista haver disputado aseleições de 2022 voto a voto com Lula, de a direita e a extrema-direita haveremconquistado a maioria esmagadora das cadeiras das duas casas do Congresso, e decandidatos de direita haverem assumido, entre outros, os governos dos trêsmaiores estados da federação, deve, na leitura fatalista, ser encarado comodesdobramento inevitável de nosso desenvolvimento histórico, porque tudo seexplica pela evidência de a sociedade brasileira de hoje ser, refletindo seupassado e anunciando o futuro imediato, uma sociedade reacionária... É esta aordem natural das coisas. Se o passado dita o presente, passado e presente  ditam o futuro e, assim, nada mais restaria aos reformistas e aos revolucionários. Por derradeiro, aHistória, condenada à linearidade, teria encontrado seu fim.

O fenômeno social, porém, é um ser vivo que caminha e setransforma permanentemente; nem é produto de uma ordem histórica regida pelo Olimpo, nem fruto do acaso,mas o resultado da relação dialética dos indivíduos com suas circunstâncias.

No prefácio à segunda edição (1869),  do seu inesgotável O 18 brumário de LuísBonaparte,  Marx critica a análise deProudhon, quando o autor de Coup d´État “procura representar o golpe de Estadocomo o resultado de um desenvolvimento histórico anterior”. Desmontando aficção idealista de uma história olímpica, o marxismo tem insistido no papel desujeito do processo social. 

Em face de observação minha, em  debate, sobre a crise dos partidosbrasileiros, devastando tanto as organizações de origem revolucionária quantoas reformistas, foi-me objetado que o “fenômeno crise dos partidos é mundial”e,  nestes termos,   deixa de ser um desafio de nossa realidade,subsumido pela grande tragédia global.

Nosso atraso político assume o caráter de evidência quandonos damos conta de que, no segundo decênio do terceiro milênio, estamosrevivendo como temas centrais a questão democrática e a defesa das instituiçõese da ordem legal herdada – temas cuja contemporaneidade supostamente se haviaesgotado em 1946 com a Constituinte, em 1955 com a posse de JuscelinoKubitscheck, e nos idos de 1985 com o fim da ditadura e a constituinte de 1988.Se nos anos 1960 o sonho revolucionário da esquerda organizada era a construçãodo socialismo, hoje a utopia é a preservação da legalidade. Nosso imbróglio é relativizado,pois os novos filósofos reagem, uma vez mais pondo por terra a expectativa dedebate; dizem-nos que também a questão democrática estaria em todo o mundo, naEuropa e até na metrópole do Norte, de quem, acrescente-se,  tudo importamos, talvez principalmente ideiase pensadores, pois muitos de seus scholars são intérpretes de nossa pobreza.

Aos açodados, como este escrevente, restaria esperar para“ver a banda passar”: quando a conjuntura mundial superar esse ciclo que devoraos partidos e ameaça o modelo ocidental de democracia, estará sanada nossacrise cabocla, como  ensina a históriarecorrente do país periférico.

O estudo do processo histórico, segundo esse viés, deixa deoferecer instrumentos de intervenção na realidade, esgotando-se sua serventiana tentativa de explicar a ordem, desta feita a ordem que salta do positivismopara um determinismo histórico em conflito com o materialismo dialético. O queera ação pode transformar-se em imobilismo ao desestimular a intervenção doagente social.

O niilismo se imiscui como saída para a crise existencial:ora a espera do deslindar do processo histórico no qual já não podemos intervirpara alterar a realidade, ora aguardar o indicador de incerto processorevolucionário. De uma forma ou de outra, a inércia sem  sentimento de culpa, porque alimentada poruma compreensão muito própria da história. De novo, nada a fazer, senãoaguardar a resolução histórica, pois ela sempre encontra caminhos para odesaguar das águas revoltadas. Assim o revolucionário e o reformistarenunciariam ao papel de agente de transformações. Venceria o conservadorismo,a seiva vital da sociedade de classes, quando o processo histórico, que émovimento, cobra resistência e luta, os alicerces do futuro, a grande obrahumana.

(Por Roberto Amaral).

* Com a colaboração de Pedro Amaral

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários