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Lula, o labirinto e seu Minotauro (Por Roberto Amaral)

Lula, o labirinto e seu Minotauro (Por Roberto Amaral)

19/02/2023 10h04 Atualizada há 4 anos atrás
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Lula, o labirinto e seu Minotauro (Por Roberto Amaral)

O labirinto em que se encontra o presidente Lula – noesforço  por dar caráter ao seu governo,que se espera desenvolvimentista – é formado por uma sequência incontável de desvios, túneis, alçapões earmadilhas arquitetados pela casa-grande, para quem a tragédia social é umairrelevância. Guarda-o um Minotauro ferocíssimo e insaciável.

A Lula  foi concedida,em 2022, a disputa eleitoral, negada em 2018 pela aliança de um STFcovardemente genuflexo com um general exacerbadamente golpista; honrando suabiografia, o petista em campanha prometeu um governo voltado à defesa dos maispobres, ao combate ao desemprego e à fome, cuja necessidade, por si só, é oatestado de nosso fracasso como nação. Nas ruas conquistou o direito à possepresidencial, ainda que aos trancos e barrancos, e a um custo que a históriacontabilizará. Com o apoio do país indignado venceu um putsch fascista animadopela solidariedade nem sempre silenciosa dos fardados. Mas, não obstante tantosfeitos, a governança é hoje seu desafio maior. Não se trata, tão-só, daincolumidade do mandato conferido em eleição plebiscitária, mas da realizaçãode um projeto que tanto mira o aqui e o agora – o refazimento do Estado social– quanto o futuro imediato, com a criação de condições políticas deenfrentamento da ameaça fascista, abalada, mas não sepultada pela derrotaeleitoral (ao cabo de votação mais do que expressiva) do ex-capitão deextrema-direita. O necessário bom êxito do governo Lula, por óbvio, nãointeressa ao sistema empresarial-militar (intocado) que vem regendo o paísdesde o golpe de 2016, e que constitui a retaguarda financeira e logística doconservadorismo hegemônico. 

A arte de governar, sob a cartilha da dominação de classe,ensina proceder exclusivamente às mudanças que nada mudam, ou então governar emcondomínio. Os trilhos pelos quais transitaria o governo são demarcados pelogrande capital e, por consequência, pela grande imprensa, pelo congressoreacionário,  pelos rentistas eespeculadores.

Lula resiste e engendra o salto para fora do labirinto.

Para disputar as eleições, o presidente montou a mais amplacoligação de partidos e interesses políticos e econômicos jamais conhecida nahistória republicana. Para governar estendeu-a ainda mais, caminhando o quantopôde à direita, até ao Centrão, onde, salvo engano, fincou o último marco.Mesmo assim depara-se com dificuldades para levar a cabo seu programa degoverno, um projeto de caráter simplesmente social-democrata, despido dequalquer insinuação revolucionária;  delepoder-se-á dizer que, atento às circunstâncias herdadas, persegue um reformismomoderado e o fortalecimento das instituições democráticas tais quais são, ouseja, nada que altere ou mesmo de leve ameace o atrasado capitalismo que nosmolesta. O sistema, porém, no meio do qual manobra o Banco Central, diz aopresidente que lhe falta legitimidade para gerir sua própria políticaeconômica, nada obstante o respaldo de 52% do eleitorado às teses expostas nacampanha eleitoral. Diariamente, faça chuva ou faça sol, os editoriais dosgrandes jornais, os comentaristas de televisão transformados em cientistaspolíticos e multiespecialistas, todos dizem ao governo o que lhe compete fazere o que não pode fazer: fundamentalmente cumpre-lhe pagar os juros escorchantesestabelecidos e cobrados pela banca, e deixar de investir (ou “gastar”, segundoo vocabulário monetarista neo-liberal). Os banqueiros e seus agentes, nasdezenas de “consultorias”, corretoras, casas de crédito e quejandas (umasformadas por ex-diretores do Banco Central, outras por futuros diretores doBanco Central), liderados pelo presidente da autoridade monetária, enfant gâtéda grande mídia, conduzem  o debate econômicoem torno  da  balela de que juro alto combate a inflação e"gera confiança nos investidores". O presidente da república,afrontado em suas competências, vendo ameaçada a realização de seu programa degoverno, é criticado por protestar contra uma taxa Selic de 13,5% contra umainflação de 3,5%. Voltamos  a sercampeões, desta feita de juros altos, os mais altos do mundo,  ao tempo em que somos a segunda mais injustasociedade do planeta.

Que nos dizem esses juros?

O encarecimento da dívida pública onera o governo (oorçamento da União legado pelo bolsonarismo prevê 247 bilhões de reais para opagamento de juros e encargos da dívida) ao tempo em que beneficia osrentistas, cujos interesses se materializam na política do BC que intensifica odesaquecimento de uma economia já estagnada, quando precisamos investir algoequivalente a 22% do PIB, e presentemente só investimos 18%. A políticacontracionista – aumento dos juros e cortes de gastos – é receitada no momentoem que os bancos privados, ameaçados  emseus lucros pela crise do grande varejo, optam pela retração do crédito.Juntem-se juros altos e crise de crédito com corte expressivo de gastos e temosas portas abertas para um ataque recessivo, após anos de estagnação econômicadenunciada por um PIB que há seis anos não ultrapassa os 2%!

Este, o projeto político vocalizado pelo BC e tonitruadopelos “especialistas” da grande mídia.

O desafio presente, para as forças progressistas, éassegurar ao presidente Lula condições de levar a cabo seu projeto derecuperação econômica e política do país. Esse desafio, urgente e ingente,ressente-se, porém, da fragilidade dos partidos de sustentação do governo – jáagravada pelo descenso do movimento popular e das organizações sindicais –, deque resulta a necessidade de composição com os donos do poder, o chamado establishment: um consórcio de forçaspoderosas que compreende o grande capital e seus inumeráveis segmentos eagentes, como a corporação militar e suas ramificações, fardadas ou não, opoder legislativo (onde somos minoria), o poder judiciário, empoderado, e ossetores religiosos, de um modo  geralconservadores.

Lula só fará o que quer que seja próximo de seuscompromissos de vida e de campanha se em seu governo o país se reencontrar como desenvolvimento, o que, com os dados de hoje – e se não for possível quebrara hegemonia do BC “independente” e seus satélites –, trata-se de mero sonho deuma noite de verão, em face dos custos do dinheiro que inviabilizam a produção,mas fazem a festa dos especuladores, a erva daninha que tomou o lugar dosempresários e hoje é a fração mais poderosa da classe dominante brasileira,herdeira da casa-grande, a comandar o país a partir da  Faria Lima – a casamata dos rentistas que sefinanciam lá fora a juros baixos para aplicar aqui, sem risco cambial, com ataxa de juros estratosférica que eles mesmo estabelecem para seu lucroparasitário, em prejuízo da economia como um todo, impedindo investimentos eagravando o custo da dívida pública (arcada pelo Estado), cujo peso terminarecaindo sobre toda a população.

Ao controlar o BC e ditar a política monetária, a banca sepermite estabelecer que o Estado deverá financiá-la por meio da emissão dedívida (assim eliminando o risco inerente a toda atividade produtiva), e aindadeterminar o valor que aceita receber (hoje, uma taxa básica muito acima dainflação). E se o governo da vez ousa reclamar, em defesa dos compromissosassumidos com a população, o aparato comunicacional vocifera, em uníssono,denunciando “intervencionismo”, “populismo fiscal”, “gastança” e assim pordiante. É uma completa inversão: o mercado financeiro, que nasce com uma funçãosuplementar, secundária em relação à economia real dos países, assenhorando-seda política econômica...

Pesa sobre nosso destino uma classe dominante  avessa à produção e ao trabalho, inimiga daimaginação e do pioneirismo, que opta pela desindustrialização e retorna aoarcaísmo da economia primário-exportadora e do rentismo. O atraso do país, absolutoe relativo, o descompasso face às nações contemporâneas que realizaram suasrespectivas revoluções industriais, é fruto de opção consciente de nossaselites, desde sempre alienadas. Seu legado é um projeto de dependênciapolítica, ideológica e econômica sustentado por um estado estruturalmente autoritário,  um autoritarismo larvar,  renitente em toda a história e dominante naordem política, nascido na colônia, filho do escravismo e do genocídio daspopulações nativas, elevado aos extremos da violência no império e modernizadona república sereníssima, fundada na exploração de classe. Esse autoritarismo éa camisa de força de uma sociedade de cerca de 220 milhões de habitantes, dosquais apenas 1º de sua população detém 27% de toda a renda nacional (The WorldInequality Report, 2022). 

Essa classe dominante é o Minotauro faminto que espreitaLula em seu labirinto, ansiosa por devorá-lo e assim pôr-se na segurança de quetudo continuará como está,  pois asmudanças concedíveis são apenas aquelas que não podem passar das aparências.

Por: Roberto Amaral.

* Com a colaboração de Pedro Amaral

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