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O Brasil precisa voltar a lutar pela paz (Por Roberto Amaral)

O Brasil precisa voltar a lutar pela paz (Por Roberto Amaral)

05/03/2023 08h48 Atualizada há 3 anos atrás
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O Brasil precisa voltar a lutar pela paz (Por Roberto Amaral)

Como é sabido, a Assembleia Geral da ONU aprovou,recentemente (por 141 votos a favor, 7 contrários e 32 abstenções), umaresolução condenatória do ataque russo à Ucrânia, resolução essa que contou como voto favorável do Brasil. Destaco duas questões que devem ser vistas de persi: a repreensão à Rússia, a que o Brasil não poderia furtar-se, e o textomaniqueísta e guerreiro aprovado, que o Brasil não deveria subscrever, porque ogoverno do presidente Lula está comprometido com a tarefa de retomar os bons temposde ator internacional, exercendo a política que o ex-chanceler Celso Amorimmuito bem cunhou como “ativa e altiva”, dando ação e consequência, com oconcurso de Marco Aurélio Garcia e Samuel Pinheiro Guimarães, às formulações deAfonso Arinos de Mello Franco e, principalmente, de San Tiago Dantas. Muito doque se consagrou como “política externa independente” a partir dos anos 1960, eque se tornou o principal marco de referência da atuação brasileira no cenárioglobal, se deve à sua visão de raro estadista. Infelizmente, os governosprogressistas  não lograram a adesão dacaserna, que permanece hipnotizada pela finada Guerra Fria, tornada dinossauroinsepulto após a debacle da União Soviética, e devota do alinhamento automáticoao Pentágono, reacionarismo perigoso se considerarmos a conjuntura emconstrução e os desafios que implica.

De outra parte, governos e partidos fugiram do debatepedagógico com a sociedade, assim contribuindo para sua despolitização, de queo quadro presente – por exemplo, a emergência da extrema-direita – é uma dasimplicações. Novamente é entregue a Lula a missão de retomar uma políticaexterna condicionada pelo interesse nacional, uma vez mais ignorada oucombatida pelas fileiras (impermeáveis ao diálogo inteligente) e pelosherdeiros da casa-grande, cujos interesses estão mais próximos de Wall Streetdo que de Brasília. Pela segunda vez, o processo histórico chama o PT para odebate ideológico. Que não seja mais uma oportunidade perdida.

Não cabe discutir a censura que a comunidade internacionaldeve à agressão russa, sem dúvida grave violação do direito internacional, massim o apoio que o Brasil emprestou a texto que, por simplesmente atender àestratégia de guerra dos EUA e, por consequência, da Otan, trabalha na contramãodo armistício pelo qual nossa diplomacia claramente se bate, como devedora deuma tradição de luta pela paz e pela solução pacífica dos conflitos que, comconhecidos e lamentáveis lapsos, se confunde com a história do Itamaraty. Ora,o Brasil, além de defender uma “paz imediata e duradoura”, se propunha, pelodiscurso de nosso presidente, a dar um passo à frente e apresentar-se como onegociador confiável que pode ser em face de nossas reconhecidas boas relaçõescom as partes, ou seja, com a Rússia e a Ucrânia, neste caso evidentementeconversando com os EUA. Ademais dessa capacidade de diálogo, a que chega credenciado pela sua liderança naAmérica do Sul, o Brasil tem manifesto interesse, econômico e político-estratégico,em estreitar cooperação econômica com seu principal parceiro comercial, aChina, a outra margem no duopólio de potências entre as quais navegamos – e dequem, em boa medida, depende a Rússia, na guerra e no seu após, que não se podeafirmar qual seja, pois todas as hipóteses estão na mesa, inclusive o armagedonque aos falcões do Pentágono parece inevitável, como última tentativa de salvara hegemonia estadunidense.

Eis por que o conflito europeu fez-se etapa necessária, queainda não se completou, e está atrelado a uma disputa de impérios. Nele oBrasil não tem interesses diretos envolvidos, senão a ciência de suas gravesconsequências para a humanidade, com o alastramento de um conflito que, pensadocomo uma blitzkrieg, apaga hoje a primeira vela de seu amargo bolo deaniversário.

Na contramão da paz, que o Brasil persegue, a declaração daONU, que o Brasil apoia, faz o jogo da guerra. Já agora, EUA e Otan, quealimentam o conflito com injeção de recursos financeiros, apoio logístico e ofornecimento em ritmo avassalador de armamentos cada vez mais sofisticados eletais –tanques, sistemas de defesa, drones e armas de longo alcance – admitemo envio à Ucrânia de aviões-caças de última geração, com capacidade de atacar oterritório russo. O objetivo é claro: aprofundar e prorrogar a guerra; portantoé cínica a declaração da ONU quando fala em armistício com a retirada de campode um dos litigantes, fazendo tábula rasa da presença da Otan. Os EUA, agora,politicamente amparados em resolução da AGNU, caminham a passos largos paraultrapassar a fronteira da guerra convencional, preço que se dispõem a pagar seessa for a condição para anular o arsenal nuclear russo e concertar a “santaaliança” do ocidente contra a China, seu inimigo de vida e morte.

Os riscos são já agora percebidos até mesmo pela engajadaimprensa brasileira. O jornalista Roberto Godoy, especialista do Estadão(1º/03/2023), adverte: “Se passarem os caças, a próxima etapa seria uma guerratotal, de EUA e OTAN contra Rússia, ou o uso de uma arma tática nuclear, o queseria arriscado, porque não sabemos o tamanho da resposta.”

Parece contraditório, pois, defendermos a paz e ao mesmotempo nos associarmos à estratégia belicosa do militarismo estadunidense que,consabidamente, depende do conflito (de que foi agente) para salvar a hegemoniaque a emergência econômica, militar e política da China põe em questão. Éevidente contrassenso nos oferecermos como condutores do “cachimbo da paz” e aomesmo tempo nos associarmos à geopolítica daquele que de fato é o mais poderoso  dos beligerantes, e que da continuidade doconflito depende para, em operação conjugada, consolidar sua preeminência sobrea fragilizada União Europeia e aprofundar o cerco à tríade China, Rússia e Irã.

Se o adversário estratégico é a China, o primeiro alvo é aRússia, emergente da debacle da URSS como segunda potência nuclear do planeta.Esse arsenal, se a salvou do extermínio, pode, porém,  decretar sua condenação. As razões da “guerrada Ucrânia” estão longe de suas aparências presentes. Os fatos vão tecendo as circunstâncias:sob cerco, não resta ao Kremlin qualquer saída fora de uma aliança quasesubordinada à China, que, de sua parte, não dispõe de outra alternativa senãoapoiar o aliado, porque precisa contar com seu arsenal nuclear, até para efeitode dissuasão das ameaças dos EUA, que não se alteram, seja presidente Bush,Clinton, Obama, Trump ou Biden.

Com esse voto a favor da declaração proposta pela CasaBranca, o Brasil optou por se isolar nos BRICS, aparentemente abdicando de umadesejada liderança logo quando anuncia a indicação da ex-presidente DilmaRousseff para o comando da instituição financeira do bloco (Novo Banco doDesenvolvimento - NBD).

Em síntese: o sufrágio na ONU não foi uma boa jogada paraquem reclama espaço próprio, autônomo, na ribalta internacional.

Evidentemente, o voto brasileiro não é um raio em céu azul:haverá a justificá-lo uma estratégia, até aqui não revelada, construída entre oaparentemente bem sucedido colóquio de Lula na Casa Branca e sua anunciadavisita a Beijing – para a qual nossa diplomacia vem anunciando grandesexpectativas, não só políticas, mas, de especial, na atração de vultososinvestimentos, não ensejados seja pela União Europeia, seja pelos EUA. Lulae  Jinping também se encontram na comumdefesa do acordo de livre-comércio China-Mercosul.

Os fatos mostram que a execução de uma política “ativa ealtiva” mais depende de condições históricas objetivas do que da volição deestadistas voluntariosos. O quadro sobre o qual nos debruçamos – em que os maispessimistas enxergam sombras anunciadoras de uma terceira guerra mundial emformato ainda inimaginável – guarda distância qualitativa daquele encontradopor Lula na gestão de seus dois primeiros mandatos. É bem mais estreita sualiberdade de movimento, hoje, e certamente ainda mais estreita o é em facedaquela cujas circunstâncias ensejaram a vitoriosa política de Vargas nodiálogo Berlim–Washington, que, ao fim e ao cabo, levou o Brasil a tomar aúnica decisão que podia, a de entrar na guerra ao lado dos “Aliados”.

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A que serve a política de juros altos – Claudia Safatle, coma dupla autoridade de porta-voz do “mercado” e colunista do Valor, avisa queestamos em face da ameaça de um declive recessivo. Na mesma edição, o jornaldos Marinhos anuncia, como resultado do inapurável assalto da Americanas (obrada associação criminosa de três dos maiores bilionários brasileiros) ocongelamento das emissões de crédito privado. A Folha de S. Paulo (28/02/23)informa que o crédito para empresas recuou em janeiro. O juro do cartão decrédito rotativo (atrelado à taxa Selic) chega à estratosfera de 411% ao ano.Segundo a Serasa, o contingente de devedores inadimplentes soma 70 milhões debrasileiros. Garrote de um lado, garrote de outro. Em dezembro do ano passado odesempenho do PIB foi negativo, e negativa é a previsão para os primeiros mesesde 2023. Nesse ambiente o BC insiste na política de juros abusivamente altos,que deprime os investimentos, acelera a recessão e promove o desemprego.  Até aí dir-se-á que se trata  “jogo natural” do mercado,  pois o BC brasileiro, sabidamente, se éindependente do governo, é visceralmente dependente da Faria Lima. Mas oempresariado, aquele diretamente ligado à produção, nada tem a dizer? Nem mesmoa FIESP? Ainda existe a CNI? E, se não for incômodo perguntar: onde estão ascentrais sindicais e os partidos de esquerda? Eles nada têm a ver com osobjetivos e as consequências da alta de juros? Lula vai ficar falando sozinho?

O capitalismo nosso de cada dia  – No país em que um terço da população padeceinsegurança alimentar, e miseráveis catam comida no lixo de supermercados, osjornais anunciam o lançamento do Chevrolet Corvette, posto à venda por R$ 2,4milhões. Neste país é “natural” que no Rio de Janeiro, em Ipanema, a média daexpectativa de vida de sua população seja de 80 anos e que, ao seu lado, naRocinha, seja de 57 anos. E la nave va, sem enfrentar turbulências.

 Por: Roberto Amaral).

* Com a colaboração de Pedro Amaral.

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