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A política externa brasileira e os resmungos do jornalão

A política externa brasileira e os resmungos do jornalão

22/02/2026 às 12h43 Atualizada em 22/02/2026 às 12h43
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A política externa brasileira e os resmungos do jornalão

Na Colônia, seria impensável qualquer norte de políticaexterna, e este quadro de inapetência ideológica e impotência material sepreserva no Império, quando o novo Estado, formalmente soberano, se depara coma preeminência britânica, capitis diminutiocom que conviverá o país até aRepública que se inaugurará já sob os auspícios econômicos, militares,políticos, estratégicos e ideológicos dos EUA (a nova preeminência) que seafirmavam, então, como potência hemisférica e de quem o Brasil procurará aproximar-se,elegendo-o como parceiro econômico-político preferencial.

Joaquim Nabuco, embaixador em Washington (1905–1910), é oprimeiro formulador do americanismo brasileiro, doutrina que terá no Barão doRio Branco, nosso mais aclamado chanceler (1902-1912), seu grande ebem-sucedido operador. Paranhos consolida a autonomia jurídica e diplomática ea associa com o alinhamento político-estratégico aos EUA; afirma-se tanto comoarquiteto quanto como operador da política externa brasileira que, para alémdele,  dominará a Primeira República, comênfase na consolidação de nossas fronteiras.

O americanismo deixa de ser uma teoria. Faz-se doutrina efato. E chega aos dias de hoje.

A formulação original de Nabuco – que servirá de base aoamericanismo, longe de revelar uma opção ideológica, deve ser vista, mais doque tudo, como uma concessão ao pragmatismo político que necessariamente regeas decisões e as ações do estadista. Pela voz de seus biógrafos, o autor deMinha formação simplesmente estaria, com sua inflexão, cedendo ao peso darealidade objetiva: o declínio europeu vis-à-vis a emergência dos EUA comopotência que perseguia a hegemonia regional: seu crescente peso no comércio decafé e seu papel político-militar no hemisfério.

Para o grande tribuno da monarquia, se não podíamos mudar osfatos, nem enfrentar a grande potência emergente, a única alternativaconsiderável seria nos conciliarmos com ela: “Não podemos ficar fora da órbitado novo Império; é melhor estar no quintal do que na rua”.

E neste quintal permanecemos, uns forcejando dele sair,outros por nele permanecer. É este último o caso da quatrocentona famíliaMesquita, dona do Estadão, ainda com os pés e os corações, as mentes e ascontas bancárias dependentes do Brasil arcaico, o Brasil da plantation, domonopólio da terra destinada a fornecer os produtos primários cobrados pelametrópole.

Os primeiros ensaios de autonomia, negociada, ou mesmo deprojeto nacional, só emergem a partir de 1930 e já sob a égide do getulismo,pari passu com a preeminência – econômica, militar, política e ideológica – dosEUA que se aprofunda a partir da Segunda Guerra Mundial e conhecerá atritoscrescentes nos anos 1950, principalmente no governo constitucional de GetúlioVargas, até o desfecho consabido.

O discurso de uma política externa independente, a rigor, sóvem à balha em 1961, na presidência de Jânio Quadros, por iniciativa sua, eseria operado, de início, pelo então senador e ministro das Relações ExterioresAfonso Arinos de Melo Franco. É, a rigor, a primeira formulação explícita edoutrinária de autonomia no século XX. Encerrada, como se sabe, a aventurajanista de pouco mais de sete meses, a política externa independente é retomadacomo projeto de Estado e reordenada como doutrina por San Tiago Dantas, já nogoverno João Goulart (1961-1964).

A geopolítica, no curto período janista, está condicionadapela Guerra Fria (com a qual está comprometida a classe dominante brasileira e,por via de consequência, a grande imprensa aqui atuante); o governo perde oapoio de parte de sua base conservadora, como o lacerdismo e as correntesconservadoras que se reúnem em torno do então ainda influente O Estado de S.Paulo.

A renúncia de Jânio Quadros e seus desdobramentos, tantoquanto o governo e a deposição de João Goulart, pertencem à História.Patrocinada pelo Estadão e demais veículos da chamada grande imprensa de então,é posta por terra a tratativa de uma política externa independente. São os anosda ditadura militar, uma projeção, no Brasil, dos interesses dos EUA na GuerraFria.

Envelhecido e envilecido, o diário dos Mesquita resmunga atéhoje contra qualquer ensaio de política externa independente, como se vê naleitura penosa de seu malcozinhado editorial do último 1º de fevereiro (“Omundo sob as regras do PT”), repleto de diatribes contra Celso Amorim, semdúvida um dos mais importantes chanceleres brasileiros no século XXI,reconhecido como um dos mais destacados em todo o mundo. Por sem dúvida, nãogratuitamente.

O Brasil do atraso, de que o Estadão  é incontestável e orgulhoso porta-voz, nãoperdoa ao antigo chanceler a formulação – e, ainda mais, a execução – de umapolítica “altiva e ativa”, assim como Amorim consolidou, sob a presidência deLula, as formulações de Quadros, Afonso Arinos e San Tiago Dantas, postas aorés do chão pela ditadura militar, de cuja construção o diário paulista – queainda agora nos fala em democracia! – participou direta e ativamente, inclusivecomo articulador financeiro, funções que Júlio Mesquita, o chefe do clã,desempenhou de mãos dadas com Adhemar de Barros (vide Diálogo com Cordeiro deFarias. Camargo, Aspásia & Góes, Walder, Nova Fronteira.), aquele políticopaulista que se notabilizou pelo infame slogan “rouba, mas faz”.

Embaixador do Brasil em Washington (1964-1967), o generalJuracy Magalhães declarará (em nome do regime de 1º de abril) que “o que é bompara os EUA é bom para o Brasil”: abdicando de qualquer sorte de dignidade, opaís anunciava sua subordinação plena aos interesses de uma potênciaestrangeira. Renunciava, como nação e Estado, ao papel de sujeito, a fonte desua legitimidade. Esse quadro de renúncia ao dever de ser só seria interrompidoa partir da reconstitucionalização em 1988, mas a retomada do pleito daindependência como política de Estado só se transformaria em intento com aposse de Lula, em 2003, e a retomada, por ele, do projeto de política externaindependente, nos termos concedidos pela geopolítica.

É a política “ativa e altiva” de Celso Amorim, SamuelPinheiro Guimarães e Marco Aurélio Garcia.

Nada obstante a história presente, nada obstante os rumos dapolítica dos EUA – dos tarifaços ao expansionismo bélico, no mundo e, de formaespecial, na América do Sul, seu quintal redivivo –, a direita brasileira, eela se expressa nos editoriais do jornalão paulista (ainda jornalão, em quepese sua visível decadência), reclama de nossa impertinência: essa teimosia dequerer andar com os próprios pés e pensar com a própria cabeça, considerandonossos interesses,  próprios de povo,nação e Estado.

Os Mesquita, com os pés na plantation e na cafeicultura, comsuas promissórias penduradas na Faria Lima, são saudosistas da Guerra Fria.Reclamam nossa incondicionalidade aos interesses do império norte-americano, emguerra contra o mundo, e, nesses termos, não podem entender que aindadefendamos o multilateralismo e uma ordem internacional fincada em regras queobrigam todos os Estados.

Para a direita brasileira, atrasada desde sempre, osprincípios e as regras do direito internacional não valem por si: dependem dosinteresses de poder que expressam. O papel de sua imprensa é construir a falsaleitura da realidade.

Adeus ao companheiro Renato Rabelo. 

Vínhamos da mesma luta, caminhando em espaços distintos: emcomum, para além do combate tout court à ditadura (consideradas as maisvariadas artes), unia-nos o projeto de construir uma sociedade sem classes.Avançávamos sobre os liberais, e sobre os que entendiam que a luta deveriatravar-se nos limites da institucionalidade ditada pelos militares.

Na verdade, o projeto socialista era o leitmotiv de quasetodas as correntes que então se batiam contra o regime militar; nossa “guerra”era, assim, uma etapa necessária e imprescindível – tudo isso, mas apenas isso– a serviço da revolução socialista.

A via revolucionária foi derrotada pelos fatos e osocialismo voltava a ser uma utopia que se afastava de nossos horizontes, mas écerto que muito contribuímos, com muitos erros e alguns acertos, para o fim doregime envilecido e a recuperação do espaço democrático das lutas sociais. Se osonho socialista se distanciava do horizonte de então, conseguíramos, com opovo nas ruas – na vanguarda de um movimento nacional-popular amplíssimo –,apear a ditadura, com a implosão do colégio eleitoral, a eleição de TancredoNeves, a posse de Sarney e a Constituinte de 1987, abrindo caminho para aseleições diretas para presidente da República em 1989, a primeira desde odistante ano de 1960.

Estamos em 1988. Vencida a ditadura, impunha-se aorganização partidária legal. Davam-se os primeiros passos visando àcandidatura de Lula – uma audácia sob todos os títulos! –, e eu chegava junto asetores do então arredio PT com a proposta da Frente Brasil Popular, uma tesedo congresso do PSB, que então renascia pela esquerda sob o comando de JamilHaddad. O primeiro ponto de apoio foi o PCdoB, e é preciso destacar o papel deJoão Amazonas, Haroldo Lima e Renato Rabelo. Foi então que Renato e eu  apertamos as mãos pela primeira vez paraseguirmos amigos pelo resto da vida, e guardo dele a imagem de dirigente firmee leal. Estivemos juntos em todas as frentes de luta desses tempos comuns e, emquase todos os casos, conseguimos conciliar os passos de nossas organizações.

Embora de há muito esperada, a notícia de sua morte chegacortando fundo. Não é só a perda de um amigo. Sinto desaparecer mais um quadrodo que ainda se poderia denominar de resistência socialista, quando maiscrescem entre nós, inclusive no campo popular, as forças reacionárias, e aindaquando mais se fragilizam aquelas organizações que se justificavam comoportadoras do projeto socialista.

Meus abraços para Conchita, Luciana Santos, Aldo Arantes,Walter Sorrentino, Luís Fernandes, Osvaldo Bertolino e todos os amigos e amigasdo PCdoB.

***

Especulação e desindustrialização I – Em matéria de primeirapágina, o Valor (13/02/2026) anuncia o déficit da balança comercial daindústria brasileira de transformação em 2025 no patamar de US$ 71,1 bilhões, omaior saldo negativo desde a série histórica aberta em 1971. Esses dados sãoindicadores: 1) da desindustrialização brasileira, persistente há décadas; 2)da reprimarização das nossas exportações; 3) e de nossa maior vulnerabilidadeem cenário de extrema instabilidade da economia internacional, com óbviasconsequências internas sobre o emprego, a renda e os salários e, ainda, sobre odesenvolvimento científico-tecnológico, aumentando nossa dependência.

Especulação e desindustrialização II – Enquanto isso (todamoeda tem dois lados), rufam os tambores na Faria Lima. Nesse mesmo 2025 dedesastre de nosso desenvolvimento industrial, o lucro do Itaú-Unibanco alcançouo patamar de R$ 46,8 bilhões, recorde histórico entre bancos privados. Na mesmalinha de lucros crescentes e sucessivos, o Bradesco registrou o montante  líquido recorde de R$ 24,6 bilhões. Oespanhol Santander vem logo em terceiro lugar, com R$ 15 bilhões. Essa pequenaamostragem reflete o quadro geral: o lucro do capital especulativo em contrastecom a crise da produção industrial. Ou simples e desejado desdobramento de umapolítica que acentua nosso papel de potência frustrada na periferia docapitalismo.

Por: Roberto Amaral.

* Com a colaboração de Pedro Amaral.

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