Os sons da rua continuam entrando pela janela como se soubessem o caminho.
Um carro freia bruscamente.
Alguém grita do outro lado da esquina.
Uma buzina atravessa a manhã.
Depois vem o silêncio.
Nunca um silêncio completo. Apenas aquele intervalo curto entre um barulho e outro.
É nesse espaço que Ana Maria sempre volta.
As lembranças dela misturam-se ao movimento da cidade como se fizessem parte da mesma paisagem. Basta ouvir uma discussão na rua ou o choro distante de alguém para que seu rosto apareça outra vez diante de mim.
Lembro dos olhos.
Sempre foram os olhos.
No começo carregavam curiosidade, entusiasmo, vontade de conhecer o mundo.
Depois foram perdendo o brilho.
Não aconteceu de uma vez.
Foi aos poucos.
Quase ninguém percebe quando uma pessoa começa a desaparecer por dentro.
A última vez que a encontrei, ela sorria apenas com a boca.
Os olhos já haviam desistido.
Penso em quantas vezes tentei perguntar se estava tudo bem.
Ela respondia que sim.
Sempre dizia que estava cansada por causa do trabalho.
Mudava de assunto.
Sorria.
E eu fingia acreditar.
Talvez porque fosse mais fácil para nós dois.
Levanto da cama.
Coloco água no fogo.
O cheiro do café logo toma conta do apartamento.
Sirvo uma caneca.
Bebo o primeiro gole.
O restante, como quase sempre acontece, esfria sobre a mesa.
Abro um pouco mais o basculante.
Lá fora a cidade continua vivendo sem saber que alguém tenta reorganizar as próprias lembranças.
Um entregador passa apressado.
Uma senhora atravessa a rua carregando duas sacolas.
Dois homens discutem por causa de uma vaga de estacionamento.
Poucos metros adiante, um cachorro dorme tranquilamente sob a sombra de uma árvore, indiferente ao tumulto.
A vida nunca para.
Mesmo quando a nossa parece ter parado há muito tempo.
Penha foi quem confirmou aquilo que eu já desconfiava.
Ana Maria estava vivendo um relacionamento que a diminuía todos os dias.
Não eram apenas os ciúmes.
Era o controle.
As perguntas constantes.
As desconfianças.
As proibições.
As desculpas que sempre vinham acompanhadas de promessas de mudança.
Conheci Ana Maria quando seus planos pareciam maiores que qualquer dificuldade.
Ela falava das fazendas onde gostaria de trabalhar.
Do desejo de colocar em prática tudo o que aprendera na universidade.
Gostava de falar sobre o campo como quem descreve um lugar sagrado.
Via futuro em cada semente.
Esperança em cada plantio.
Era impossível não acreditar nela.
Às vezes me pergunto em que momento seus sonhos começaram a perder espaço para o medo.
Não existe um dia exato.
As tragédias quase nunca anunciam quando começam.
Elas simplesmente se instalam.
Primeiro ocupam um canto da vida.
Depois outro.
Quando percebemos, já tomaram conta da casa inteira.
O movimento da rua muda.
É meio-dia.
As lojas fecham por alguns minutos.
Os trabalhadores voltam para casa.
Os ônibus passam mais cheios.
As calçadas ganham outro ritmo.
Encosto a testa no vidro da janela.
Observar as pessoas tornou-se um hábito antigo.
Cada uma carrega uma história que ninguém conhece.
O homem que vende frutas na esquina.
A moça da farmácia.
O motoboy que nunca tira o capacete completamente.
O casal que passa de mãos dadas todas as quartas-feiras.
À primeira vista parecem apenas pessoas indo de um lugar para outro.
Mas aprendi que ninguém anda pela cidade carregando apenas uma mochila ou uma bolsa.
Todos carregam alguma ausência.
Volto para a mesa.
O papel continua em branco.
Seguro a caneta.
Espero.
As palavras nunca chegam quando são chamadas.
Elas aparecem quando resolvem aparecer.
Escrever talvez seja isso.
Sentar diante do silêncio até que alguma lembrança aceite ganhar forma.
Começo com uma frase.
Depois outra.
Logo a folha deixa de estar vazia.
Percebo que, sem querer, estou escrevendo sobre Ana Maria.
Talvez porque algumas pessoas continuem vivendo dentro da gente mesmo depois de seguirem outro caminho.
Talvez porque existam histórias que se recusam a terminar.
Ou talvez porque escrever seja apenas outra maneira de não esquecer.
Lá fora o movimento recomeça.
O comércio abre novamente.
As buzinas voltam.
Os passos apressados ocupam as calçadas.
A cidade continua fazendo o que sempre fez.
Aqui dentro, o café esfria.
As folhas recebem mais algumas linhas.
E Ana Maria permanece sentada em algum lugar da minha memória, exatamente como naquela última tarde em que nos despedimos sem imaginar que a vida seguiria caminhos tão diferentes.
Fecho os olhos por um instante.
Quando volto a abri-los, o apartamento continua o mesmo.
A rua também.
Dimas Roque - Livro: O Apartamento
Só nós dois já não somos.
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