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Leia a integra do histórico discurso de Lula no 7º Congresso Nacional do PT

Leia a integra do histórico discurso de Lula no 7º Congresso Nacional do PT

24/11/2019 08h43 Atualizada há 7 anos atrás
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Leia a integra do histórico discurso de Lula no 7º Congresso Nacional do PT


O discurso de Lula na abertura do 7º Congresso Nacional do Partidodos Trabalhadores (PT), em São Paulo, foi um dos mais bem elaborados já proferido por ele. Emocional, politico, direto e falando para a militância e o povo brasileiro.

Que ninguém espere um homem raivoso, com ódio. Lula se mostrou acima de tudo isto e renovado para a luta.


Leia a íntegra do discurso de Lula:

Companheiras e companheiros do PT,

Convidados de todo o Brasil e de outros países,

Minhas amigas, meus amigos,

Esperei muito tempo para poder falar livremente ao povobrasileiro. Esse dia finalmente chegou, e minha primeira palavra tem de ser deagradecimento, pela solidariedade, pelo carinho e pelas manifestações de quemnão desistiu de lutar e vai continuar lutando pela verdadeira justiça.

Durante 580 dias fui isolado da família, dos amigos ecompanheiros, apartado do povo, mesmo tendo o direito constitucional derecorrer em liberdade contra a sentença injusta e fraudulenta de um juizparcial. Um direito que somente agora foi proclamado pelo Supremo TribunalFederal, para todos, sem exceção.


Com as armas da verdade e da lei, continuarei lutando paraque os tribunais reconheçam, agora, que fui condenado por quem sequer poderiater me julgado: um ex-juiz que atuou fora da lei, grampeou advogados, mentiu aopaís e aos tribunais, antes de desnudar seus objetivos políticos. Lutarei paraque seja anulada a sentença e me deem o julgamento justo que não tive.

Aos 74 anos de idade, não tenho no coração lugar para ódio erancor. Mas quem nesse país já sofreu a humilhação de uma acusação falsa, porcausa da cor de sua pele ou por sua origem social humilde, conhece o peso dopreconceito e é capaz de sentir o quanto fui ferido em minha dignidade. E issonão se apaga.

Nada nem ninguém vai devolver o pedaço arrancado da minhaexistência, mas quero dizer que aproveitei esses 580 dias para ler, estudar,refletir e reforçar meu compromisso com o Brasil e com nosso povo sofrido.Voltei com muita vontade de falar sobre o presente e principalmente sobre ofuturo do Brasil.

Mas logo depois da minha primeira fala, de volta aosindicato onde passei o último momento de liberdade, disseram que eu deveriater cuidado para não polarizar o país. Que seria melhor calar certas verdadespara não tumultuar o ambiente político, para o PT não provocar uma ameaça àdemocracia.

Vamos deixar uma coisa bem clara: se existe um partidoidentificado com a democracia no Brasil é o Partido dos Trabalhadores. O PTnasceu lutando pela liberdade durante a ditadura. Não tentem negar essa verdadeporque nós apanhamos da repressão, fomos perseguidos, presos e enquadrados naLei de Segurança Nacional por defender essa ideia.

Desde que foi criado, há quase 40 anos, o PT disputou dentroda lei e pacificamente todas as eleições neste país. Quando perdemos, aceitamoso resultado e fizemos oposição, como determinaram as urnas. Quando vencemos,governamos com diálogo social, participação popular e respeito às instituições.

Outros partidos mudaram as regras da reeleição em benefíciopróprio. Nós rejeitamos essa ideia, mesmo gozando de uma aprovação que nenhumoutro governo jamais teve, porque sempre entendemos que não se pode brincar coma democracia.

Não fomos nós que falamos em fechar o Congresso, muito menoso Supremo, com um cabo e um soldado. Em nossos governos, as Forças Armadasforam respeitadas e os chefes militares respeitaram as instituições, cumprindoestritamente o papel que a Constituição lhes reserva. Nenhum general deu murrona mesa nem esbravejou contra líderes políticos.

Não fomos nós que pedimos anulação do pleito só paradesgastar o partido vencedor; que sabotamos a economia do país para forçar umimpeachment sem crime; que sustentamos uma farsa judicial e midiática paratirar do páreo o candidato líder nas pesquisas.

Não fomos nós os responsáveis, ativos ou omissos, pelaeleição de um candidato que tem ojeriza à democracia; que foi poupado deenfrentar o debate de propostas, que montou uma indústria de mentiras comdinheiro sujo, sob a complacência da mesma Justiça Eleitoral que, desacatandouma decisão da ONU, cassou o candidato que poderia derrotá-lo.

São essas pessoas que agora nos dizem para não polarizar opaís. Como se polarização fosse sinônimo de extremismo político e ideológico.Como se o Brasil já não estivesse há séculos polarizado entre os poucos que têmtudo e os muitos que nada têm. Como se fosse possível não se opor a um governode destruição do país, dos direitos, da liberdade e até da civilização.

Aos que criticam ou temem a polarização, temos que ter acoragem de dizer: nós somos, sim, o oposto de Bolsonaro. Não dá para ficar emcima do muro ou no meio do caminho: somos e seremos oposição a esse governo deextrema-direita que gera desemprego e exige que os desempregados paguem a conta.

Somos e seremos oposição a um governo que rasga direitos dostrabalhadores e reduz o valor real do salário mínimo. Que aumenta a extremapobreza e traz de volta o flagelo da fome. Que destrói o meio ambiente. Queataca mulheres, negros, indígenas e a população LGBT; ataca qualquer um queouse discordar.

Somos, sim, radicais na defesa da soberania nacional, dauniversidade pública e gratuita, do Sistema Único de Saúde, público, gratuito euniversal. Nós não somos meia oposição; somos oposição e meia aos inimigos daeducação, da cultura, da ciência e da tecnologia. Nós não aceitamos maiscensura, tortura, AI-5 e perseguição a adversários políticos.

Andam negando essa verdade científica, mas a Terra é redondae nós estamos, sim, em polos opostos: enquanto eles semeiam o ódio, nós vamosmostrar a eles o que o amor é capaz de fazer por este país.

Companheiras e companheiros,

Já foi dito que o PT nasceu para mudar o Brasil. E mudou.Porque trazemos na origem o compromisso com os trabalhadores, com os mais pobres,com os que carregaram ao longo de séculos o peso da exclusão e da desigualdade.Porque pela primeira vez fizemos um governo para todos os brasileiros ebrasileiras, e isso fez toda a diferença em nosso país.

Se fosse para governar apenas para uma parte da população, oBrasil não precisaria do PT.

Para o mercado decidir quem pode e quem não pode seaposentar, quanto vai custar o gás de cozinha, o combustível, a energiaelétrica, visando somente o lucro, o Brasil não precisaria do PT.

Se fosse para entregar ao estrangeiro as riquezas naturais,o petróleo, as águas, as empresas que o povo brasileiro construiu, o Brasil nãoprecisaria do PT.

Se fosse para queimar a floresta, envenenar a comida comagrotóxicos, deixar impunes crimes como os de Mariana e Brumadinho, ignorardesastres como o óleo no litoral do Nordeste, quem precisaria do PT?

Para o filho do rico estudar nas melhores universidades domundo e o filho do trabalhador ter de largar a escola pra sustentar a família,o Brasil não precisaria do PT.

Se é para alguns terem mansão em Miami e muitos viveremdebaixo do viaduto; para o rico ficar isento até do imposto de herança e otrabalhador carregar o peso do imposto de renda, o Brasil não precisaria do PT.

Para manter a mais escandalosa concentração de renda doplaneta Terra, para o rico continuar cada vez mais rico e o pobre ficar cadadia mais pobre, aí mesmo é que o Brasil não precisaria do PT.

Porque o maior inimigo do Brasil hoje e desde sempre é adesigualdade, esse vergonhoso fosso em que 1% da população detém 30% da rendanacional e para a metade mais pobre sobram 17%, as migalhas de um banqueteindecente.

Mas se este país quer superar a chaga imensa dadesigualdade, recuperar a soberania e o seu lugar no mundo, se quer voltar acrescer em benefício de todos os brasileiros e brasileiras, o Partido dosTrabalhadores é mais do que necessário: ele é imprescindível.

Esta é a enorme responsabilidade que estamos recebendo. OBrasil nunca precisou tanto do PT. E o PT tem de ser grande o bastante paracorresponder ao que o país espera de nós. Tem de estar unido, forte e cada vezmais conectado com o povo brasileiro.

Temos a responsabilidade de renovar o partido, compreender oque mudou na sociedade brasileira nesses 40 anos e buscar as respostas para osnovos desafios. Fomos forjados na luta em defesa da classe trabalhadora.

O peso da injustiça recai hoje sobre os motoristas deaplicativos, os jovens que perdem a saúde e arriscam a vida fazendo entregas emmotos, bicicletas, ou mesmo a pé. Os que não têm a quem recorrer por seusdireitos, porque a única relação de trabalho que conhecem não é a carteiraprofissional, mas um telefone celular que ele precisa recarregardesesperadamente.

Esse é o lugar que resta aos deserdados de um modeloneoliberal excludente, cada vez mais desumano. Um mundo em que o mercado é deuse em que a solidariedade deixa de ser um valor universal, substituída por umacompetição individualista feroz.

É com esse mundo novo que o PT precisa dialogar, sem abrirmão de nossos compromissos históricos, mantendo os pés firmes no presente emirando sempre o futuro. Se as formas de exploração mudaram, a injustiça e adesigualdade permanecem e são cada vez mais cruéis. Temos de estar maisorganizados, mais fortes, conscientes e mais decididos do que nunca a construirum país mais generoso, solidário e mais justo. É por isso que o Brasil precisatanto do PT.

Companheiras e companheiros,

Salvar o país da destruição e do caos social que estegoverno está produzindo não é tarefa para um único partido. Fomos eleitos egovernamos em aliança com outras forças do campo popular e democrático. Pormais que tentem nos isolar, estamos juntos na oposição com partidos dacentro-esquerda e estamos com os movimentos sociais, as centrais sindicais eimportantes lideranças da sociedade.

Embora tantos tenham cometido erros antes e depois dosnossos governos, é somente do PT que exigem a autocrítica que fazemos todos osdias. Na verdade, querem de nós um humilhante ato de contrição, como setivéssemos de pedir perdão por continuar existindo no coração do povobrasileiro, apesar de tudo que fizeram para nos destruir. Preciso dizer algumasverdades sobre isso.

O maior erro que nós cometemos foi não ter feito mais emelhor, de uma forma tão contundente que jamais fosse possível esse país voltara ser governado contra o povo, contra os interesses nacionais, contra aliberdade e a democracia, como está sendo hoje.

Deveríamos ter feito mais universidades do que fizemos, maisreforma agrária, mais Luz Pra Todos, mais Minha Casa Minha Vida, mais BolsaFamília e mais investimento público.

Teríamos de ter conversado muito mais com o povo e com ostrabalhadores, conversado mais com os jovens que não viveram o tempo em que oBrasil era governado para poucos e não para todos.

Também tínhamos de ter trabalhado muito mais parademocratizar o acesso à informação e aos meios de comunicação, apoiado mais asrádios comunitárias, fortalecido mais a televisão pública, a imprensa regional,o jornalismo independente na internet.

Antes que a Rede Globo me acuse outra vez pelo que não dissenem fiz, não ousem me comparar ao presidente que eles escolheram. Jamaisameacei e jamais ameaçaria cassar arbitrariamente uma concessão de TV, mesmosendo atacado sem direito de resposta e censurado como sou pelo jornalismo daGlobo.

Eu sempre disse que jamais teria chegado onde cheguei se nãotivesse lutado pela liberdade de imprensa. Hoje entendo, com muita convicção,que liberdade de imprensa tem de ser um direito de todos, não pode serprivilégio de alguns.

Não pode um grupo familiar decidir sozinho o que é notícia eo que não é, com base unicamente em seus interesses políticos e econômicos.

Entendo que democratizar a comunicação não é fechar uma TV,é abrir muitas. É fazer a regulação constitucional que está parada há 31 anos,à espera de um momento de coragem do Congresso Nacional. É fazer cumprir a leido direito de resposta. E é principalmente abrir mais escolas e universidades,levar mais informação e consciência para que as pessoas se libertem domonopólio.

Enfim, penso que teríamos de ter lutado com mais vontade eorganização, fortalecido ainda mais a democracia, para jamais permitir que oBrasil voltasse a ter um governo de destruição e de exclusão social como voltoua ter desde o golpe de 2016.

A autocrítica que o Brasil espera é a dos que apoiaram, nosúltimos três anos, a implantação do projeto neoliberal que não deu certo emlugar nenhum do mundo, que vai destruir a previdência pública e que ao invés degerar os empregos que o povo precisa está implantando novas formas deexploração.

A autocrítica que a democracia e o estado de direito esperamé daqueles que, na mídia, no Congresso, em setores do Judiciário e doMinistério Público, promoveram, em nome da ética, a maior farsa judicial queeste país já assistiu.

O mundo hoje sabe que, ao contrário de combater a impunidadee a corrupção, a Lava Jato corrompeu-se e corrompeu o processo eleitoral e umaparte do sistema judicial brasileiro. Deixou impunes dezenas de criminososconfessos que Sérgio Moro perdoou e que continuam muito ricos.

Como podem dizer que combateram a impunidade se soltarampelo menos 130 dos 159 réus que ele mesmo havia condenado? Negociaram todo tipode benefício com criminosos confessos, venderam até o perdão de pena que a leinão prevê, em troca de qualquer palavra que servisse para prejudicar o Lula.

Que ética é essa que condena 2 milhões de trabalhadores, semapelação, destruindo empresas para salvar os patrões acusados de corrupção?

Não tem moral, não tem autoridade para discutir ética quemdeu cobertura aos procuradores de Deltan Dallagnol e Rodrigo Janot quando elesentregaram a Petrobrás aos tribunais dos Estados Unidos, um crime delesa-pátria que já custou quase 5 bilhões de dólares ao povo brasileiro.

Temos muito o que falar sobre ética, sobre combate àcorrupção e à impunidade. Mas acima de tudo temos que falar a verdade.

Meus amigos e minhas amigas,

Alguns professores de deus defendem um modelo suicida deausteridade fiscal e redução do estado, que não deu certo em nenhum lugar domundo. Tiveram o apoio da mídia e das instituições para culpar os governos doPT por tudo de ruim que havia no Brasil. Mentiram que tirando o PT do governotudo se resolveria, por obra do mercado e do ajuste fiscal. E os problemas seagravaram ainda mais.

Os indicadores econômicos do Brasil pioraram: a balançacomercial em queda, a economia paralisada, setores da indústria destruídos, oinvestimento público e privado inexistente, o rombo nas contas aumentadoirresponsavelmente por razões políticas. O custo de vida dos pobres aumentou eas pessoas voltaram a cozinhar com lenha porque não podem comprar um botijão degás.

É preciso dizer umas verdades sobre isso também.

A primeira delas é que o Brasil só não quebrou ainda porcausa da herança dos governos do PT. Por causa dos 370 bilhões de dólares emreservas internacionais que acumulamos e querem queimar na conta dos juros. Porcausa dos mercados internacionais que abrimos e que uma política externairresponsável está fechando. Por causa do pré-sal que descobrimos e que estãovendendo na bacia das almas.

O Brasil só não está passando por uma convulsão socialextrema por causa da herança dos governos do PT. Porque não conseguiram acabarcom o Bolsa Família, último recurso de milhões de deserdados. Porque milhões defamílias ainda produzem no campo, para onde levamos água, energia, tecnologia erecursos em nosso governo. E também porque não conseguiram destruir ainda ossistemas públicos de saúde, educação e segurança, mas fatalmente isso iráocorrer pela criminosa política de cortes do investimento público.

Sempre acreditei que o povo brasileiro é capaz de construiruma grande Nação, à altura dos nossos sonhos, das nossas imensas riquezasnaturais e humanas, neste lugar privilegiado em que vivemos. Já provamos que épossível enfrentar o atraso, a pobreza e a desigualdade, desafiando poderososinteresses contrários ao país e ao povo.

Soberania significa independência, autonomia, liberdade. Ocontrário é dependência, servidão, submissão. É o que está acontecendo hoje.Estão entregando criminosamente a outros países as empresas, os bancos, opetróleo, os minerais e o patrimônio que pertence ao povo brasileiro. Trair asoberania é o maior crime que um governo pode cometer contra seu país e seupovo.

A Petrobrás está sendo vendida em fatias a suas concorrentesestrangeiras.

Fiquem alertas os que estão se aproveitando dessa farra deentreguismo e privatização predatória, porque não vai durar para sempre. O povobrasileiro há de encontrar os meios de recuperar aquilo que lhe pertence. Esaberá cobrar os crimes dos que estão traindo, entregando e destruindo o país.

Tão importante quanto defender o patrimônio público ameaçadoé preservar os recursos naturais e nossa riquíssima biodiversidade. Utilizaresse patrimônio, fonte de vida, com responsabilidade social e ambiental.

Um país que não garante educação pública de qualidade atodas as suas crianças, adolescentes e jovens não se prepara para o futuro.

Mas parece que enfiaram o Brasil à força numa máquina dotempo e nos enviaram de volta a um passado que a gente já tinha superado. Opassado da escravidão, da fome, do desemprego em massa, da dependência externa,da censura, do obscurantismo.

O Brasil precisa embarcar de volta para o futuro. E não temninguém melhor para pilotar essa máquina do tempo do que a juventude dessepaís. Porque essa juventude, seja ela branca, negra ou indígena, ela querensino de qualidade, quer adquirir conhecimento, quer de volta as oportunidadesde trabalho digno, sem alienação e sem humilhações.

Essa juventude quer e merece um mundo melhor do que este emque estamos vivendo.

Hoje me coloco à disposição do Brasil para contribuir nessatravessia para uma vida melhor, vida em plenitude, especialmente para os quenão podem ser abandonados pelo caminho.

Sem ódio nem rancor, que nada constroem, mas consciente deque o povo brasileiro quer retomar a construção de seu destino; de que temos defazer juntos um Brasil soberano, democrático, justo, em que todos e todastenham oportunidades iguais de crescer e sonhar.

O futuro será nosso, o futuro será do Brasil!

Muito obrigado!

Luiz Inácio Lula da Silva
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