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Tá na internet: O assassinato de Soleimani foi ato terrorista (Por Gustavo Conde)

Tá na internet: O assassinato de Soleimani foi ato terrorista (Por Gustavo Conde)

07/01/2020 08h26 Atualizada há 7 anos atrás
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Tá na internet: O assassinato de Soleimani foi ato terrorista (Por Gustavo Conde)


O cerco vai se fechando e os agentes políticos do horrorpartem para movimentos agônicos de tudo ou nada, calculando variáveis que vãodesde a hegemonia política à economia, passando, sobretudo, pela batalha decomunicação nas redes sociais, a nova arena da disputa por influência global.

Acossado por um processo de impeachment que ninguém sabemuito bem se pode ou não prosperar no Senado, Donald Trump resolveu arregaçaras mangas e se precaver promovendo aquilo que a imprensa internacional maisama: uma crise bélica em que as opiniões políticas se estilhaçam comofragmentos de granada.

É um movimento muito bem pensado, mas que aposta no caos dodiscurso para ganhar espaço político. Explico: enquanto a opinião públicainternacional ficar especulando sobre as razões de Trump assassinar o generaliraniano Qasem Soleimani e mais dois milicianos iraquianos no aeroporto deBagdá - eles também têm milícias -, o rolo compressor da espionagem, doaparelhamento judicial, das sanções, do protecionismo e do fanatismo ocidentalrevestido de ódio vai prosseguir impávido e turbinado pela couraça do novoassunto galvanizante.

Depois de muito citarmos James Carville e seu “é a economia,estúpido”, é hora de começarmos a citar Chacrinha: “eu não vim para explicar,eu vim para confundir”, ou, pelo menos, adaptar para: “é a comunicação,estúpido”.

O general iraniano assassinado por Trump era uma estrela noInstagram. Isso certamente assustou mais os engenheiros da guerra que o fato deele ser o general mais admirado do Irã. Em tempo de redes sociais e fake news,o exercício da influência política migrou da disputa rudimentar por petróleo oudólares para o campo de guerra da comunicação digital. E eles irão matar porisso, como ficou claro com mais este atentado terrorista de Trump e com oatentado terrorista de Eduardo Fauzi, ídolo conceitual das jornadas de 2013 noBrasil.

O terrorismo de Estado está em alta, nos EUA, no Brasil e emboa parte do mundo. E ele se reaclimatou no Brasil, entre outras coisas, com oforro eficiente da premonição reversa, dispositivo retórico do universo SteveBannon: lança-se o medo, através de especulações sobre o possível terrorismo demovimentos sociais populares, sindicatos e partidos (MST, MTST, CUT, PT),instala-se um discurso institucional para combatê-lo (Moro e seu projeto anticrime)e a palavra “terrorismo” passa a ser furiosamente usada por todos os veículosde comunicação, inclusive com a colaboração dos comentadores progressistas (quesão obrigados a falar sobre o tema).

O sentido de terrorismo está em cena e passa a ser disputadopor duas linhas políticas: a sem caráter (a extrema direita que é terrorista) ea ingênua (a esquerda que ainda sonha em convencer a opinião pública comargumentos racionais).

No Brasil, com o jornalismo que temos, fica fácil de preverquem leva a melhor.

Pior do que isso é a realidade incontornável dos fatos: aextrema-direita produz terrorismo, o Estado não se manifesta (e também produzterrorismo) e ambos acusam a esquerda de ser terrorista (basta pensar emLuciano Hang e em sua Estátua da Liberdade inflamável).

É o caos do sentido que acaba por favorecer osfranco-atiradores de projéteis, extremistas de profissão, terroristas dediscurso. Trump, Bolsonaro, Nethanyahu e racistas em geral, eles vieram paramatar e o mundo inteiro sabe disso, inclusive e sobretudo o mundo jornalístico,que se abstém de emitir cifras de opiniões no corpo das matérias supostamentefactuais em nome da neutralidade asséptica da informação.

Como na experiência do nazismo e do holocausto, depois étarde para se arrepender.

O timing de Trump é perfeito. O terrorismo do Estadoamericano gosta de surpreender nos primeiros dias do ano cristão. É um recadodaqueles que acreditam que uma nova era virá, a era de sempre, a era da guerrae da morte.

Trump garante, assim, sua reeleição. A Europa assiste inertecomo sempre e a América do Sul respira, pois com as atenções realinhadas àclássica engrenagem EUA-Oriente Médio-Petróleo-Europa-Vassala, a energianecessária para prosseguir com a devastação institucional latino-americana serárealocada.

Aliás, diga-se de passagem: a América Latina já foidestruída, com destaque para o Brasil. Não é mais preciso investir preocupaçõescom este subcontinente sob escombros.

Curioso é constatar que tem muito brasileiro que se diz deesquerda que pondera sobre o dedo americano nas jornadas de 2013, no golpecontra a democracia e na eleição fraudulenta de Bolsonaro.

Eles veem um governo assassinar um general de outro país emum aeroporto internacional e oferecer as imagens como bônus midiático para umaimprensa internacional acuada pelo poderio semiótico das redes sociais e optampela cegueira doméstica e pela ingenuidade generosa dos adesistas de turno.

O ataque dos americanos à soberania dos povos do OrienteMédio é um soco nesses brasileiros que negam o papel dos americanos nasjornadas de 2013 e nos golpes que se sucederam em toda a América Latina nosúltimos 70 anos.

Jornais brasileiros costumam chamar cachorramente o discursorealista que destaca a ingerência americana sobre o Brasil de“antiamericanismo”. Para eles, o PT é antiamericanista - o que na traduçãocorreta, torna-se um tremendo elogio (pois trata-se de um sinônimo de defesa dasoberania).

A guerra da comunicação associada à carnificina das guerrastradicionais está de volta, com a pompa das velharias editoriais caquéticas dasagências internacionais. Não é a toa que o sintagma “Terceira Guerra Mundial”tenha sido o assunto mais comentado do mundo, instantes após o atentadoterrorista do governo americano em Bagdá.

Uma guerra sem Twitter, sem Instagram, sem Facebook, semGoogle, simplesmente não existe no atual estado apodrecido de coisas. Elacomeça nas redes e depois de alastra com os assassinatos (que a imprensaconvencional chamará de “baixas” de guerra”).

Estamos, sem dúvida, diante de uma novidade. Essa guerraanunciada atende a todos os mesmos velhos interesses do império, mas tem-seagora o componente adicional das redes sociais, cujo significado prático aindaé uma incógnita.

Como vão se comportar as redes diante de uma guerra quetambém será cultural e narrativa? Como se comportarão os ideólogos doterrorismo digital como Steve Bannon e Carlos Bolsonaro diante de um novoestilhaçamento moral propiciado por imagens de crianças fuziladas e mulherescom a carne retorcida nos escombros de suas casas?

Um gesto terrorista de guerra como este de Trump é umacelerador de história. Teremos desafios importantes pela frente, não mais sórecobrar a democracia perdida no Brasil, como recobrar a capacidade de repensarformas de governo e de civilização.

Trump deve conquistar a fatia do eleitorado americano compendores racistas e provincianos com este ataque. Mas o mundo estará sendolançado ao seu limite de tolerância contra a extrema violência dos fanáticosconservadores.

O Brasil, finalmente, pode ter encontrado o caminho paraliberar as amarras de sua inércia social e confirmar o que 9 entre 10 analistasde América Latina têm defendido em suas leituras: o próximo país a entrar naengrenagem dos imensos protestos no continente será o Brasil.

Quando associada aos estudos da linguagem, a históriacostuma ser até um pouco previsível. Não é, não foi e nem será gratuito oretorno do tema “Jornadas de 2013” neste presente ingrato e complexo que nosrodeia. Trata-se de uma ferida ainda aberta na compreensão do Brasil recente.

A mera menção a 2013 está latejando na medula da históriabrasileira: “preparem-se, porque agora os protestos serão para valer”.


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